A exigência de ser único

Existe uma notável confusão entre o que é real ou não, em que os homens insistem em fazer essa diferenciação que também levou a humanidade aos diversos preconceitos. Os preconceitos mudam de acordo com as épocas em que o homem vive, não obedecendo a nenhuma ordem linear dos fatores. Não é necessário ter um preconceito com o branco hoje para se ter o preconceito com o vermelho amanhã, mas é fato que eles sempre irão existir e persistir. E assim humanidade vai se processando, pré-conceituando.

Uma raça pura é um exemplo favorito quando se trata deste assunto. Este delírio compartilhado é fundamentado em juízos que exigem a eliminação daqueles individuos que não correspondem às exigências mínimas deste juízo de pensamento. E isso é fácil de se pensar quando tratamos de uma época aparentemente distante com um povo conhecido como bárbaro e cruel, mas é altamente difícil quando se pensa no preconceito de cada um de nós. Trata-se da imagem construída a partir do outro. A imagem é um lugar de grandes equívocos, pois percebemos isso todos os dias e tentaremos entender algo disto neste texto, desde que consigamos ceder por alguns instantes dos efeitos imaginários do preconceito que se tatua na carne do outro.

A imagem de uma raça pura é formadora de uma consistência, de uma gestalt de discurso impenetrável a outras formas de ser. Cifra-se a si mesmo e o outro que deve ser destruído. Eis que surge uma contradição, pois só é possível se reconhecer a partir do outro, e caso essa destruição utópica se efetivasse, não haveria mais raça pura, pois não haveria com quem se comparar. Alguns vestem essa camisa, se dizendo 100% de determinada raça. As imagens que temos do outro também passam apenas por essa relação imaginária todos os santos dias.

Produzimos juízos o tempo todo e o outro é sempre uma vitima favorita para isso, até que sejamos o alvo. É uma forma de se conceber o outro e o mundo pelas suas imagens, projetando-se e sendo projetado nele, fazendo-se um só. É como o homem distraído e possuído pela sua raiva que, ao ferir seu pé com uma pedra que estava fora do alcance de sua atenção, xinga a pedra e a culpa ferozmente por estar justamente lá em seu caminho. Qual o limite entre ele mesmo e a pedra? Odiamos no outro justamente algo de nossa própria intimidade.

Ou o caso de uma pessoa que tem o medo irracional de ser atacado por uma súbita crise de falta de ar caso tenha o risco de se aproximar de um lugar fechado. Estas pessoas dizem mais das subjetividades como produtoras de realidades do que frescuras e fingimentos. Quando temos apenas a imagem destes acontecimentos, o preconceito surge com maior facilidade, pois não se consideram vários aspectos, como, por exemplo, o sujeito em questão. Temos nestes exemplos o famoso julgamento do livro pela capa. É necessário o exercício da escuta, aprender a ouvir.

Podemos produzir uma lista infindável de exemplos do que afirmamos no inicio do texto, apesar de que isso já seria produzir imagens, o que não impede que as utilizemos. Uma pessoa pode se sentir sozinha e abandonada morando em uma casa com seus pais e irmãos, mesmo que estes insistam em dizer que ela é amada, dando provas que acabam por não alterar a visão de mundo que ela tem. Essa é uma forma comum de se pensar, fazendo uma oposição entre o que ela diz e o que é real, apegando-se a imagem que a situação confere: uma aparente família feliz. Afinal, o que ela diz é real em sua vivência psíquica, e esta é a maior dificuldade em se escutar o outro, pois lemos o outro com os olhos impregnados de ilusões, tradições e, claro, preconceitos. A situação é vista objetivamente: “Mas sua família é perfeita, como pode se sentir só? Que pessoa mais ingrata!”

Uma função gera uma tendência, e este blog tende a situar as singularidades, e por isso mesmo pensarei sobre isto nos três termos: o universal, o particular e o singular. O universal, que vem sendo dissolvido pelo global, é justamente a versão do Um, unifica-dor e identifica-dor comum. O particular já exclui e inclui apenas alguns casos e categorias, como o exemplo de ser judeu. A singularidade seria algo próximo da exclusividade de cada um no mundo, ser único, assim como o amor exige. Na física quântica, uma singularidade (que se representa graficamente como a ponta de um funil) se encontra no centro de um buraco negro e não responde as leis da física, tendo suas próprias leis. E o mundo que cada um inventa e é inventado não distingue real e irreal, dentro e fora, correto e avesso, seguindo suas próprias leis. As crianças, assim como o Pequeno Príncipe, são peritas em viver este mundo de contradições que o pensamento aristotélico do adulto perde ao dizer, por convenções e convicções, que isso é isso e pronto e acabou. As conversas cotidianas são forjadas neste embate entre imagens de mundo em que eu falo de mim e você fala de você sob um juízo que vê, avalia e sentencia.

As convicções nos levam a perder a noção de que também vivemos neste mundo infantil, e nos esforçamos em demasiado para virar gente grande, pagando caro pela negação destes movimentos imprevistos e provisórios da vida. Muitas vezes só temos a garantia disso quando aquilo que montamos como uma crença eterna escorre pelas mãos.

Mãe não tem gene

Amor de mãe. Eis duas coisas que, de uma forma ou de outra, acompanham os seres humanos ao longo de suas vidas desde sempre: amor e mãe. Vale lembrar uma canção de Renato Russo imortalizada na voz de Cássia Eller que também diz que o pra sempre, sempre acaba. No caso do amor, este não será o tema deste texto, mesmo que seja fonte de inspiração para ele e sua primeira palavra.

O que proponho é pensar na maternidade e imaginar as primeiras imagens que lhes vem em mente. É bem provável que lhes aconteça de pensar em uma mulher grávida, ou segurando um bebê de colo, ou uma mulher amamentando uma criança acolhida em seus braços. A Virgem Maria também não deixa de ser um ícone da maternidade no Brasil. Esta relação mãe-bebê inspirou muitos pensadores acerca da emergência de um sujeito e as primitivas relações do ser, pois nossa primeira vez no mundo deixa marcas permanentes. Vou tentar pensar com vocês a maternidade no sentido mais cotidiano possível, mostrando nossas próprias implicações sobre o assunto, as maneiras viciadas de se referir a ela e a força do discurso científico.

Em primeiro lugar, gostaria de lhes dizer que gravidez não garante a (in) desejada maternidade. Gravidez não é sinônimo de ser mãe. Mãe não tem gene. É comum uma pessoa quem têm os ditos ‘pais adotivos’, designados assim pela referência de não ser filho de herança genética, procurar saber quem são seus pais de verdade. Eis a tragédia! Cometemos este circuito de linguagem ao nos referirmos aos pais “genéticos”, falsificando os adotivos e angustiando todos envolvidos. Peço lhes atenção para isto, atenção no que esta palavra convoca desde sua etimologia para atender e se inclinar para, pois evitaremos as paralisias das respostas, mas convocaremos sempre o movimento de novas questões, atualizando as problemáticas. E esta forma de se referir aos pais é a herança que temos da ciência em nossa cultura e poucos percebem isto. Não foi a toa que o inconsciente foi “descoberto” tão recentemente.

Vamos fazer o doloroso exercício do pensamento. O que os programas de televisão vivem promovendo ao importar a ciência ao seu palco? São feitos inúmeros exames de DNA, pois é este que garantiria a maternidade e paternidade, ou seja, que decifraria seu pedigree. Então associamos a maternidade aos genes. Bobagem! Mas é disso que sofremos, de bobagens. Alguns casais vão mal e por vezes se justificam com pesar dizendo que vivem brigando por suas bobagens. Esta bobagem tornou-se séria em nossa época, e orgulhosamente se apresentou o projeto genoma. A decifração dos códigos genéticos também é oportuna ao momento atual, tudo é quantificável e decifrável, assim como vimos na postagem anterior. É uma ferramenta poderosíssima e necessária, mas incapaz de decifrar a maternidade.

Em meio a tanta tecnologia, a mãe segue sem genes e não se confunde com a imagem de uma gravidez provida de photoshop. As mulheres não suportam mais serem confundidas com a obrigação de ser mãe. Mãe e mulher não se confundem. É uma tarefa delirante e perversa a de obrigar um desejo ao outro. A crueldade também está na mania que se tem em dizer e angustiar o outro ao se referir a sua mãe de verdade. Nunca vi uma mãe dessas, são todas ficções! A antropologia nos fornece muitas lições sobre isto. E ficção no sentido de que ela é produto/produção, assim como instituições como o hospital que a princípio não era lugar dos médicos, a família que não era a responsável pelo cuidado dos filhos, a escola que vem perdendo todas suas referências balizadoras e os pais de hoje que são assim autorizados e identificados geneticamente. Isto inclui o direito e as escrituras da lei, que, aliás, sempre exigem nome de papai e mamãe. Proveitoso para quando se engravida de um famoso milionário e se ganha, por exemplo, um programa de TV por isso.

Mas um sujeito nasce fruto de um desejo que sustenta seu pescoço, seu andar, sua voz, seu nome e sua vontade de viver. Falamos a língua materna. Assim como um x, qualquer um pode ocupar esta função de mãe, mas nem todo mundo pode. Somos adotados por um desejo. O sujeito adota e é adotado nestes encontros imprevistos da vida, adotado por aquele que ensina uma realidade fazendo que esta também se torne sua própria realidade. Nada impede que este encontro também seja uma justaposição – mesmo que nunca seja tão justa e por vezes sem posição, afinal, não há manual para o status de “bons pais”– entre aquela que parir um bebê de seu ventre e parir um sujeito de um desejo. É artístico quando uma criança inventa seus próprios pais e a si mesma nesta primeira aventura da vida. E querendo ou não, somos todos filhos adotivos e ninguém sai ileso disso.

 

Até a próxima,

Alexandre V. Brito

Nem tudo são cores

O anúncio diz: “Bem estar: como viver mais e melhor? Como melhorar a qualidade de vida?” Mais uma vez, a vida adjetivada.

Ao contemplarmos um arco-íris, o que mais nos mobiliza não seria justamente em não saber onde começa ou onde termina, tentar perceber todas as cores possíveis, vislumbrar sua admirável forma no ar, o intocável…? Não é a toa que ele surge em tantos desenhos infantis e em suas histórias com tantos mitos, abrindo terreno para nosso fértil exercício de imaginação.

Para nossa própria proteção, as percepções são limitadas a certos níveis, que podem ser bem explicadas pelos físicos e biólogos. Vamos tentar entender isso? Cada cor tem uma freqüência de luz própria (fator quantitavivo), e nossos órgãos são capazes de atender até alguns níveis dessas freqüências e assimilar como cores (fator qualitativo). Algumas não podem ser percebidas pelo olho (lembrando que este não se confunde com o olhar), assim como a infra-vermelha e a ultra-violeta. As cores também são infiltradas pelo cultura do simbólico e muitas vezes associadas às emoções nos poemas: você sabe o que significa a cor vermelha? No caso das alucinações, as percepções estão para além deste pensamento linear de recebimento de um estimulo e sua assimilação pelos órgãos e suas fisiologias, incluindo a linguagem em sua produção.

Este pequeno esboço traz algumas idéias sobre as primeiras perguntas, pois ele cinde nosso arco-íris em dois. A qualidade enquanto diferença da quantidade. Este é o pensamento que convoca as perguntas que eu proponho a partir de um programa de TV, que alcança tantos brasileiros. Viver mais, melhor e com qualidade é algo que surge como um mando disfarçado para que se exerça o controle sobre os corpos alegando que, se você me obedece, é melhor para você mesmo. Isso exclui as singularidades no rebanho.

O encontro com a imagem que lhes proponho do arco-íris exclui qualquer possibilidade de padronização ou de se pensar quais as freqüências de luz estão ocorrendo ou quais receptores cerebrais e oculares estão envolvidos nisso. Este encontro contingencial gera mais inquietações e afetações do que interpretações. É o próprio arco-íris que nos interpreta. Algo próprio das obras de arte.

Havia uma tradição em que as pessoas preferiam morrer lentamente para poder ter a chance de viver seus últimos momentos com o outro. Viver a própria morte seria uma afirmação da vida. Vejo em nossos dias o desejo de se morrer sem sofrimento ou consciência disso: “Prefiro morrer dormindo!”. O ‘viver mais’ é algo na qual qualquer um é capaz de opinar, pois isso inclui a responsabilidade e implicação sobre a própria existência e em dar os pitacos na do outro. Multiplicidade! Por isso todo mundo tem um vizinho como médico, padre, psicólogo, conselheiro, etc… Dizer que é possível melhorar a qualidade de vida é dizer que há um ponto de referência para algo sem medida. Algo muito próximo do que já pensamos na postagem anterior. E porque esse medo padrão de morrer cedo? Aliás, o medo é de morrer e não se quer saber disso, o tal do ego se acredita imortal. O filme traduzido (e já vimos sobre a tradução) como “À espera de um milagre” propõe o inverso: A vida muito longa como o castigo da existência. Mr. Jingles sobreviveu a gerações inalcançáveis.

Assim nosso juízo fica comprometido, quando algum diabético diz, com suas doces lágrimas, que prefere se deliciar com os prazeres de uma sobremesa com açúcar do que viver uma vida sem sal e se cuidar como está nos manuais, ou quando um o menino viciado em jogos prefere aumentar o grau de seus óculos a ter de parar os jogos no computador. Nossos prazeres e dores, este gozo do corpo, ultrapassam o senso comum. Postarei sobre isto em uma próxima oportunidade.

Abraços,

Alexandre

Adoecer e novo ser

Há um tempo estive pensando acerca das doenças. Afinal, o que é uma pessoa doente e quem definiria este novo estado, novo ser? Definir é sempre problemático, pois requer certa medida justaposta e quantificável. Os aparelhos eletrônicos de alta definição são os últimos recursos disponíveis da tecnologia, e parecem ser uma resposta ao momento em que vivemos de se fazer tudo o mais próximo da perfeição, pois tudo é quantificável. Eu sou quantificavel, tu és quantificável, nós somos, eles são, elas… Bom, elas eu já não sei!

As medidas então suscitam uma norma, o normal. Normal tem uma origem interessante, pois seu latim “normalis” quer dizer “esquadro”, palavra cunhada pelos pedreiros e carpinteiros romanos. É a justa medida, sem pendências para direita ou para a esquerda. Lembra-se da física? Normal é a linha perpendicular a outra formando um ângulo reto. Na ótica era justamente esse traçado perpendicular entre os ângulos de incidência e de reflexão. Aliás, neste blog, nosso pensamento busca recursos de outras áreas como a física e matemática para aprender alguma coisa, já que muitos destes mesmos físicos avançam em suas áreas, propondo relatividades muitos mais interessantes desde Einstein do que nosso preconceito pode alcançar.

Logo entendi que é o doente que se percebe como tal, de acordo com suas próprias experiências do que ele é capaz, do que se sabe de suas próprias capacidades. Não estou falando das bobagens da homeostase de um ser vivo ou de retornar ao estado perfeito, ideal. Muito menos da inserção social. Lamentavelmente para os nostálgicos, a vida é irreversível. Não é isso que eles nos ensinam sugando todo nosso ser? E quanto à perfeição, esta só é possível para os apaixonados. Não há padrão para dizer sobre sua dor de existir, e se adoecemos, adoecemos por inteiro. Não é possível dizer que um rim está doente, que um baço adoeceu ou generalizar e dizer que toda sociedade está doente. Neste sentido podemos dizer que somos indivisíveis, por isso o mais interessante é acompanhar um indivíduo [que não se divide]. Sabem o que chama atenção nisso? Percebemos isto o tempo todo, mas essa experiência nem sempre se precipita para nós desta forma.

Uma vez perguntei sobre uma senhora que estava se sentindo fraca e debilitada, e me disseram que ela parecia estar melhor, pois sua voz ao telefone estava “mais viva”. Ouvi dizer que a vida luta pela vida, mas vale lembrar que também se conjuga com a morte. Ao adoecer, alteram-se as células, as relações do corpo, as relações com o outro, as vontades… nossa voz adoece, as palavras se esvaecem. Não é possível pensar em corpo/mente como dissociados. Como se especializar sem levar em consideração os movimentos que a vida faz sem se importar com nossos especialismos? Tragicamente, é a vida que professa. Os manuais sempre vão pifar ao tentar escrever as formas que ela inventa, quando não se atende às singularidades, pois nunca é a mesma. Seria necessário incluir no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) um número para cada ser humano vivo. Mas isso já seria quantificar, pois os mesmos números exigiriam alterações logo, logo.

Para finalizar, uma historinha: Uma pessoa que eu acompanhava em um hospital, sempre me cumprimentava com um sorriso cansado assim que eu chegava na enfermaria de hemodiálise. Sempre que eu lhe perguntava sobre ele mesmo, a resposta imediata e já previsível era de que estava tudo muito tranqüilo. Dizia-me que era uma pessoa tranqüila e que sempre foi assim, e eu era capaz de ficar horas ouvindo suas lembranças de uma juventude calma e serena. Certo dia ele foi levado com devida pressa para uma salinha de pequenas cirurgias um tanto desconfortável, pois precisava de alguns medicamentos e refazer o local que a máquina de hemodiálise se ligava com o seu corpo, a chamada fístula. Neste dia cheguei e fui em sua direção para saber o que havia acontecido. Ele só me disse que estava tudo bem, tudo muito tranqüilo. E prosseguiu me dizendo: “Sabe Alexandre, eu sou tão tranqüilo, mas tão tranqüilo, que meus rins pararam de funcionar.”

Transmissão sem tradição

Olá!!

Este é um espaço para que eu possa tentar transmitir algo do que venho estudando e aprendendo em minhas experiências cotidianas. Acredito que escrever é a melhor maneira de se transmitir e passar algo para o mundo de maneira que se possa compor com outras pessoas, dando a oportunidade de que todos possam aprender a partir disso. Não se trata de um aprendizado “copiar-colar”, isso nunca foi aprendizado, mas o fato de haver provocações e mudanças. O menino que cola na escola na hora da prova aprende mais na arte de colar do que o conteúdo da prova. É desse aprendizado que estou falando, e do estilo.

A história do homem é feita de descontinuidades, e os registros por escrito de seus momentos podem contribuir para o pensamento atual. O próprio fato de escrever é algo completamente inventivo e de extrema complexidade cerebral de nossos aparelhos de linguagem. O simples fato de falar uma palavra já é um exercício de seleção: “Qual palavra que melhor definiria isso?” Se me permitem generalizar, todos nós temos uma dificuldade enorme ao tentar dizer algo por escrito. Seja para alguém que você envia uma carta, seja um texto acadêmico, um texto para homenagear alguém, um texto sobre você mesmo.  É claro que se couber em um texto o “quem sou eu?”, você não deve ser lá grandes coisas. Mas a dificuldade está justamente nesse abismo que o homem encontra em sua existência em dizer o indizível. Por exemplo, a linguagem convoca a seleção e a combinação, a metáfora e a metonímia. E nesse percurso sua singularidade vai dando o ar da graça.

Tenta-se regular porque a palavra pode ser reguladora, as frases obedecem ao tempo e a orientação espacial. Trata-se da ortografia. Para tentar que nossos caminhos também se façam da ignorância para o saber, ja pararam pra pensar na ortografia, afinal, não é essa a norma para se escrever? Orto, vem de órtos: reto, direito. Aliás, falar e escrever também tem justamente esse caráter terapêutico, de regular, do latim regularis: regras para orientação, mover-se em linha reta. “Orto-pedia”? O terapêutico não deixa de estar vinculado ao normal, mas se há um caráter moral nesta historia toda, é assunto para outro momento.

Este abismo é fundamental, é como se entre o que se sente e o que se diz, sempre houvesse erro de tradução. Somos essa máquina pifada, o pior tradutor do mundo, pior do que o Google tradutor. O sentimento é isso, sente e mente. É quando algo incomoda e não se sabe detectar o que é. Não há fio condutor para o outro ter acesso direto de seus afetos (Graças a Deus!). Mas as palavras tem muita intensidade. Elas não serviriam para informar, por em uma fôrma, mas para inventar realidades. Por isso disse logo que é um aprendizado, uma experiência que gera mudanças. Quando um médico dá um diagnóstico (mesmo equivocadamente) ao seu paciente de que há uma doença degenerativa nos membros inferiores, a pessoa já sai mancando do consultório. A palavra toca o corpo. E é assim que penso na transmissão, pois ao ensinar, aprende-se, modifica-se. E como aprendemos com nós mesmos, não é verdade!? Mas às vezes é preciso o exercício do pensamento para isso, o que é muito exaustivo, e a maioria das pessoas preferem evitar a fadiga. Sempre uma escolha! Preferem repetir, se conformar e manter alguns padrões médicos, econômicos, etc.. É a qualidade de vida que elas compram à custa de não ter que pensar muito, porque pensar realmente dá muito trabalho. Compram um adjetivo. Acho que sequer chegariam a esta parte do texto.

Vamos continuar com nosso aparelho de tradução pifado, pois é dessa forma que ele toma força para nunca parar de trabalhar e criar novas traduções, bifurcações; Aliás, tradução surge do latim traditio, derivado de tradere, que significa entregar, passar adiante, assim como surgem tradição e traição: ‘entregar com prejuízo’. Toda tradução é uma traição. Não pretendo ser preciso nestes textos, podendo haver discordância sobre o que escrevo. As discordâncias que derem o ar da graça nos leitores a partir de algumas idéias apresentadas, seja neste blog, seja neste mesmo texto, me deixariam contente, pois o abismo entre nós surge para nos fazer tocar um ao outro ao mesmo tempo em que nos afasta.  Trata-se da multiplicidade da vida. A vida são polaridades.

A vida é ou a vida são…?

Pifou de novo!

Abraços,

Alexandre