O real da coroa [Parte 1]

Momentos que nos deixam sem ar, sem palavras e sem chão. Não estou falando das síndromes do pânico nem da atuação de neurotransmissores. Neste jogo, é possível perceber o caráter simbólico de tais acontecimentos: “Fiquei sem palavras”. Porém isso é pensado no só-depois, pois no momento de seu acontecimento esta frase se presentifica literalmente na carne. E muitas vezes inúmeras experiências são arquitetadas desta forma durante nossas jornadas de vida, e entendidas no só-depois, assim como o final de um filme que modifica todo o seu início. O final de um filme, ao transformar seu início, é um bom exemplo de como mudamos nosso passado e alteramos as lembranças de maneira a atualizá-las de acordo com nossos trilhamentos, nossa singularidade. Espero que vocês possam me acompanhar nesse raciocínio, que inclui a memória, a vida, a linguagem, e as [novas] formas de ver o mundo…

Há um pensamento que pensa em nós. Aparentemente redundante, isto não é tão óbvio assim. O pensamento é uma força que opera de ponta a ponta em um ser e tem algumas especificidades na experiência humana. Nosso aparelho perceptivo tem como principal característica a de receber indiscriminadamente os estímulos, apesar de  ser, ao mesmo tempo, nossa defesa contra eles. Já produzimos um esboço disto em outra postagem. Em contrapartida, quando destes encontros com o mundo, nossos corpos também vão sofrendo alterações e diferenciações que nos acompanham pelo resto de nossas vidas: as memórias. Elas são indestrutíveis, porém não são imutáveis, seguindo mais ou menos a idéia do parágrafo anterior acerca das lembranças e do só-depois. Sufferre é o latim que designa o sofrer, e inclui em sua formação o “carregar sob”, “levar consigo”, ou carregar o peso de existir.

Para o homem, o encontro com a existência é traumático: To be or not to be? That’s the question. E só é questão pois há a intrusão da palavra enquanto registro simbólico, senão, não haveria a dúvida. Aliás, o encontro com a sexualidade torna-se traumática pela falta deste registro-comum, deste lugar comum para nos orientar acerca do sexo que, por obra desta subversão, pode ter qualquer forma. E como as palavras dançam, se misturam, fluem, colam e descolam, é possível pensar a partir deste ritmo um tanto musical, nas formas de se experienciar a atualização de uma lembrança. Seja com lacunas, seja com preenchimentos, assim como a música é composta: som e silêncio. Em outras palavras, a memória em nós é uma memória viva. Caso não estivéssemos tratando de um corpo vivo, não haveria um movimento capaz de produzir novas normas em si mesmo, novas articulações e elaborações. Aliás, o labor e a força do pensamento são este trabalho que podemos exercitar em que a repetição nunca é repetição do mesmo, além de ser um exercício cansativo.

Portanto, o pensamento é corporal. Como vimos, é um exercício como outro qualquer, mesmo quando estamos dormindo. Falando nele, vamos pensar juntos? Quando sonhamos, somos invadidos por imagens, palavras e sensações, e estamos neste texto mais interessados no sonhador do que no conteúdo do sonho. Não há outra maneira de relatar um sonho senão através do aparelho de linguagem, de sua própria interpretação enquanto tradução de imagens em palavras. Isto tem reverberações diretas em nosso corpo. Articulando com o labor, não é assim que quando uma pessoa esta angustiada e a flor da pele age: falando, falando, falando!!! Com ou sem interlocutores, não importa! E este caráter simbólico retoma o início de nosso texto.

A predominância do simbólico não foi por acaso. Estou pensando, em particular, no filme “O discurso do rei”, do rei ga-ga-go. Algo inibe a fala de um homem destinado a um reinado, e que possui cordas vocais perfeitas do ponto de vista anatômico. Mas se o pensamento é corporal, vamos ver as suas sutilezas reais, enquanto produtor de realidades e enquanto articulação com o rei. Neste jogo com posições bem definidas, o rei cai ou não cai?

 

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Avassala-dor

Estamos vivendo mais uma tragédia que deixa o mundo muito pequeno. É claro que o emprego do termo tragédia é privilégio de eventos que envolvem seres humanos e a presença da morte como o sentido inevitável da vida. A harmonia entre o homem e a mãe Natureza não está nos seus melhores dias, e as pazes ficaram altamente prejudicadas. A revolta da Natureza e sua força não reconhecem os planos e os dias milimetricamente calculados por nós, ignorando sem qualquer piedade o nosso ano novo, o carnaval, os vôos…O homem é tomado pela revolta e surge um desnorteante sentimento de impotência diante dos fenômenos naturais que tiram a vida de seus semelhantes, e não deixa de produzir lesões e novas formações discursivas a partir disso. É comum o pensamento de que se trata de desavisadas vinganças da Natureza diante das perversões que impedem o homem de cessar de suas agressões em direção a si e em direção ao mundo, ou de ocorrer a instauração da dúvida quanto à própria fé em Deus e nas garantias prometidas. E se dizer, claro, que é o fim do mundo.

Acredito que desde que o homem sabe de sua morte (ou do outro, pois o nosso eu se acredita imortal), esta produz diversas questões que gravitam ao seu redor. Somos incapazes da experiência da morte Real, e mesmo em sonhos, ela é vista em terceira pessoa. Eis um registro impossível no inconsciente, o que não impede que ela afete todas as produções subjetivas, assim como alguns melancólicos podem testemunhar de maneira declarada. A morte é condição da vida, e o fim do mundo que o homem se refere nestes momentos é o mundo em que ele vive, a extinção de uma raça. O parágrafo anterior tem um equívoco dificilmente evitado pelo narcisismo: tratar a Natureza como um sujeito. Um sujeito que, aliás, é capaz de se vingar. O sujeito é uma condição simbólica, um efeito dos processos de subjetivação, o requer a linguagem. E assim como nós também a situamos como mãe natureza. Tudo é possível de ser humanizado, são as metamorfoses do narcisismo. Outro equívoco do narcisismo, que em seus juízos de si e do outro, de dentro e de fora, acaba por promover a separação: homem x natureza. A imagem de si que montamos continuamente como um interminável quebra-cabeça é fonte de profundas ilusões e, neste percurso, há “falhas no sistema”, assim como vimos no texto anterior. E nenhum destes trabalhos suados e destas árduas edificações é levado em consideração nas tragédias naturais. Avassalador, deslocamo-nos da condição de senhor para a de vassalos.

Os efeitos de fenômenos trágicos como no início de 2011 no Rio de Janeiro ou a tsunami no Japão deixam o sentimento de um mundo reduzido, pequeno, e isto também é um uma herança da globalização em um impensável processo de expansão. Tão pequeno que é possível suscitar a idéia de que “poderia ter sido comigo”. A simpatia e a compaixão, apesar da semelhança (pathos) e diferença entre ambos, acabam por unir o homem por meio da identificação, realizando grandes eventos necessários para sustentar as dores de existir, para contribuir no luto de um velho mundo, de perdas vitais, e para a construção de uma nova casa. Luta(o) pela sobrevivência.

Mais uma vez a vida simplesmente se conjuga com a morte e não cessa de seus movimentos. O planeta sempre se rearranja, movem-se incessantemente as placas, gira, e inventamos um eixo pra ela, linhas imaginárias, dias cristãos, supostas previsões, dentre inumeráveis possibilidades do intelecto e da imaginação. É claro que o fantasmagórico (no que tange à fantasia e ao assombroso) e até mesmo o utópico dia do fim do mundo hollywoodiano, se referem ao mundo dos homens, pois é a melhor referência que o homem tem: a de si próprio. Aliás, muitos dos filmes atuais seguem essa tendência trágica, coroando seu final com a morte. No que diz respeito à vida insistindo pela vida, formar-se-iam novas normas, com ou sem o homem. Isto já seria impensável.

Enfim, não são poupados os bebês, os hospitais, os pescadores, os turistas, padeiros, museus, famílias inteiras… Somos lembrados de nossas impotências. E, afinal, porque mereceriamos ser poupados?

Em sua origem de palavra, do latim natura, derivaçao do verbo nasci, a Natureza significa nascimento. E a angústia pode ser importante para que novas possibilidades possam nascer e emergir, e isto têm feito o homem inventar. Inventar, inclusive, formas de viver com os ditos fenômenos naturais, pois o homem se inclui, se exclui da Natureza, nasce e morre com ela.

O corpo fala e cala

Qual a chave para interpretar o corpo? Só nos damos conta de que ele existe quando ele dá o ar da graça, seja em forma de dor ou prazer. Aliás, é muito tênue e imprecisa a fronteira entre estes dois conhecidos de todos nós, pois um mesmo estímulo pode ser causa de dor ou de prazer. Temos o costume hereditário de pensar em termos de “ou”, e a descoberta do inconsciente rompe com essa herança filosófica de milênios ao pensar em termos de “e”. Ele não reconhece a contradição, e muitas vezes, uma mesma pessoa, um mesmo corpo vivo, pode ter prazer na dor. Uma pitada de dor e prazer, a fórmula perfeita para muito daquilo de que nós gozamos. Temos a sensação de que é uma escolha sem escolha. Não estou trazendo nenhuma novidade para os não tolos, mas a consciência do corpo e seus enigmas são uma questão: “O que pode um corpo?”

A prisão de ventre, gagueira, vômitos, “broxadas”, vitiligo, desmaios, rubor, falta de ar, enxaquecas… Eis alguns momentos em que perdemos o suposto controle da situação e a garantia do corpo surge. O corpo é fonte e alvo. É amor e ódio. Fica difícil esconder o desejo ou a angústia, pois fica “estampado na cara”. É impossível escapar de si. Uma das maneiras de se pensar o corpo é em sua implicação simbólica, o nosso sistema binário, em outros termos, a linguagem e a experiência da presença-ausência. Toda palavra é de ordem, e ela se escreve nos corpos, seja na forma de invenção de si, seja no exercício do poder em forma de controle. Temos a atualização disto quando, por exemplo, se vomita (literalmente) por uma pessoa ou uma situação, ou quando surge a diarréia após um acontecimento, ou a insistência de uma idéia que tira o sono e causa dores de cabeça. Mas além de simbólico, o corpo é desconhecido, e não sabemos do que ele é capaz. Ele tudo pode e nem tudo pode. Sequer damos atenção devida a ele. A atenção suscita um investimento, uma tendência a alguma coisa, e uma tendência surge a partir de uma função, o que não implica necessariamente a realização desta função. O sistema digestivo tem a função de garantir a sobrevivência do ser vivo a partir do contato com o mundo externo a ele e assimilando deste o suficiente para tal. Esta função envolve, portanto, uma tendência, a da digestão-assimilação, mas não se implica necessariamente com a sobrevivência. Quando alguém perde a fome e os gostos pela vida, a perda de nossas respostas por meio dos instintos se esvaece e isso fica tão evidente quanto à certeza do encontro com a lua na madrugada, e assim a tragédia da vida se aproxima de seu fim que não muda. É possível ter a experiência de não mais sentir fome, apesar de na maioria dos casos ela ser insaciável e a satisfação ser um empecilho.  

Não damos atenção a nossa respiração e à maneira de se sentar. Um corpo cheio de não me toque, absurdamente regulado. Disto surgem absurdos como pedir que um cidadão beba moderadamente. As novas formas de delírio e as novas demandas de atendimento psicológico interpretam nosso contemporâneo, assim como viver estatisticamente, estaticamente. Vale ressaltar que não é suficiente implantar ideais ou culpar uma sociedade, muito menos pensar nas revoluções para resolver dialeticamente as contradições para um mundo melhor ou dionisíaco. Estamos em um pensamento ético. E quando se pensa em um ser humano, isto já inclui sua condição de um ser social, particular e singular, como já dito em outras postagens. Mas voltemos ao corpo, ele merece nossa atenção, senão ele esbraveja.

Este texto diz muitas coisas de formas interrompidas. Isto pode ser um convite ao pensamento, uma fonte de inspiração para um próximo texto em específico, sobre um tema a partir de sugestões de vocês a partir do que ele disparar em cada um de nós. Às vezes é necessária uma só frase para organizar toda uma vida. Este mesmo texto tem um corpo, uma consistência, o que é um efeito imaginário. Eis uma outra forma de se pensar o corpo: como imagem. Apesar disto, é impossível pensá-lo como perfeitamente unificado, ou sequer como parte pelo todo (como nos livros didáticos). Ele suscita experiências diversas em cada um de nós, a partir das sensações e do outro. O próprio afeto da angústia dá a sensação de fragmentação, da queda do porto seguro. Nestas situações, uma foto de si ou a própria imagem no espelho não condizem com a experiência psíquica da angústia. Não há justaposição e as ditas anorexias vêm testemunhar isso em nossa época.

É necessário um entendimento a partir de um novo processo, que inclui e está para além do nosso sistema binário. Pelo visto, não há chave para interpretar o corpo, é ele que interpreta a partir de seus movimentos, seja nos sonhos, nos gestos, apesar de que isso também não dá o direito de dizer que um sonho ou um gesto diz tudo de todo um ser. Incapturável e irredutível. Só podemos nos servir da letra neste espaço para tentar transmitir algo. O que mais haveria a dizer? Sempre há artificios de linguagem, são infinitos. Mas o corpo faz limite à escrita e ao imaginário…

A imagem é fonte de profundas ilusões.

 

 

 

 

 

 

A-ruina-do ser

Um dos motivos pela qual pensei em fazer o curso de psicologia, sem ter a menor noção do que me esperava por lá, era a idéia de que não há nada mais determinante e intenso no homem que seus próprios pensamentos, seu corpo, e as escolhas do que fazemos e da forma como fazemos. Meu primeiro vestibular para medicina fracassou, o que abriu esta possibilidade.

Quando uma mente viciada pelos hábitos de discurso, o chamado senso-comum, encontra-se com uma experiência que lhe tira desse status ou da condição de ignorância, seu encontro com o novo pode produzir desamparo, inquietação e expectativa. Quando o pensamento fica aberto a escolhas, a angústia de poder escolher e o peso da responsabilidade fazem com que alguns exijam e defendam a escravidão e uma orientação que uniformize novamente seus corpos. É o sofrimento da multiplicidade, das possibilidades e das escolhas, que implicam a responsabilidade e o suporte das conseqüências. Queremos a liberdade para nos aprisionarmos nela.

No fracasso, na dor, na dimensão do “erro”, somos todos iguais e solidários. Para viver em sociedade adotamos uma atitude passiva, pois enquanto um burro fala, o outro abaixa a orelha. Mas quando o homem inclui algo de si em suas realizações, este vai para além do grupo ao qual pertence, da união-comum. Nem todos suportam a condição de lobo solitário e de estar fora do campo da expectativa do outro. Nos acostumamos a receber o novo a partir de nossas antigas convicções, de maneira a não entendê-lo e nem garantir sua novidade. Entender, do latim intendere, significa estender, exigindo uma plasticidade do ser para compreender. Sem esta condição, pode haver os prejuízos do preconceito, tema postado anteriormente.  Justamente por se situarem em uma nova existência quando da realização de um desejo (sempre provisório, infinito e garantindo a motivação de viver) muitos não suportam seu êxito e arquitetam sua própria ruína. Arruinados, pede-se pra sair. As possibilidades de escolhas e as novas formas de ser são tantas quanto o número de pessoas no mundo, além dos deslizamentos incessantes e metonímicos característicos de nosso mercado.

Há uma espécie de satisfação auto-erótica, apresentando a decadência dos laços sociais, assim como são com os fones de ouvido, as telas de TV e computador, inclusive os livros. Pode-se viver sem  o outro, mas nunca sem o celular. Avesso ao diálogo, há uma predominante relação imaginária, o que produz a destituição da simbólica, em que você é aquilo que você consome. Há, inclusive, um novo status da familia, que não abordaremos neste texto mas decorrente desta lógica. Podemos finalizar o texto com este funcionamento de nossa forma político-econômica de viver um mundo em que se consome e se é consumido pelas imagens, em que a descartabilidade prevalece: cada um de nós é substituível rapidamente, sem apegos demais. Escolher um só é perder todo o resto sem a garantia do Um. Por ironia ou não, a diferença de luxo para lixo é de apenas uma só letrinha.

Os lutos estão cada vez mais curtos e de rápida “resolução”. Uma pessoa sofre quando descobre que a outra (e não é outra qualquer) pode viver sem ela, sem que se possa dizer o mesmo. Em época de aquecimento global, as pessoas estão cada vez mais frias.