Amar é padecer no próprio paraíso [Parte 1]

Para falar de amor, o que é necessário? Eis um assunto de que todos nós somos capazes de dizer inúmeras coisas a respeito sem esgotar a fonte. Alguns odeiam o fato de um dia ter amado, presos em seu próprio jogo sobre os lados da moeda. Outros são capazes de ficar horas testemunhando seus percursos amorosos, narrando verdadeiros contos que só eles mesmos foram capazes de ver. Eis uma cegueira ou outra maneira do apaixonado ver o mundo sob intervenção de seu desejo, o que também nos lembra que a paixão, herança do latim passione, está de mãos dadas com o sofrimento, com o padecer. Amar é padecer no próprio paraíso.

Podemos pensar o amor como uma das paixões, mas o leitor tem a liberdade de definir como bem entender acerca de seu amor. Afinal, qualquer coisa é passível da experiência do amor, e em se tratando do ser humano, estamos em um terreno um tanto quanto fértil. É possível amar uma manhã, um amanhã, um momento, um instante, um cafuné em um ponto bem localizado de nossa anatomia profundamente libidinal. É possível amar a luz do sol em um horário bem apropriado a este encanto. O amor se encontra em qualquer canto. Amamos um canto, uma música inteira, ou, se formos capazes de perceber com um pouco mais de fineza este encontro que nos afeta profundamente, amamos justamente apenas alguns poucos dez segundos de uma canção. Pode ser a um brinquedo ou objeto qualquer que destinamos todo nosso amor e apego, assim como faz um abraço esmaga-dor de uma criança com toda sua energia. Além de também amar a um animal doméstico e dar um nome bem humano a este, nisto que o termo conduz ao d’homesticar, pois o amor também nomeia pra deixar de ser um tanto esquisito e justificar-se, como se no amor houvesse justificativas razoáveis para tal. Afinal, amor é sem razão, ele a desconhece. Ama-se um vento que sopra e que carrega nosso pessimismo, e que pode ser acompanhado de um fechar de olhos para que se possa senti-lo como se fosse um instante eterno, promovendo a possibilidade das contradições do impossível que só o amor é capaz.

É possível amar um filme, ou amar um filme nos minutos em que sua trilha sonora é posta em cena e toca, e o que ela toca é justamente a alma daquele que não apenas assiste, mas faz parte dele. Tudo isto diz de um exercício de entrega completamente sem garantias, de uma vulnerabilidade, de uma conexão muito próxima como a de um circuito fechado. Afinal, o amor promove a (des)união, move uniões, possibilita a loucura de que dois sejam um só. Pode-se amar a vida, uma profissão, um pai que nunca foi visto, uma fotografia e ter a força que jamais se imaginou sentir um dia. Nestes trilhos, o homem acaba por encontrar ou acreditar naquilo que ele jamais poderá encontrar em outro lugar: a perfeição. Falamos de ilusão da perfeição, mas não é ninguém senão aquele que ama que permite essa condição para, muitas vezes, suportar a dor da existência. Só o amor é capaz de curar o incurável. Também conheci aqueles que eram apaixonados por pessoas que eles jamais viram antes, ou mesmo por pessoas com quem eles nunca trocaram uma só palavra, mas que passam ao seu lado todo santo dia, e não mais do que isso, sendo esta justamente a sua condição e o que a sustenta: o impossível.

Estamos em um terreno em que, assim como o impossível, tudo é possível, e o amante promove seu amado a um lugar que nem mesmo este tem a ambição de chegar, e onde mal saberia se sustentar. Um olho, uma parte qualquer do próprio corpo ou do outro, pode ser vítima do amor, e, para todos os efeitos, amar um só pedaço implica em suportar todos os inúmeros defeitos. Estamos percebendo que tal complexidade vem tomando grandes proporções, pois até o momento admitimos todas as mil maneiras de se amar, e a essa altura do texto estamos indo de encontro com o outro, amar outra pessoa. O amor é altamente seletivo, é exigente e ao mesmo tempo dependente, ciumento e invejoso, e nem todos são dignos dele, em contraposição com a premissa de amar a todos como a ti mesmo. Vamos falar sobre o percurso do homem e suas fragilidades, implicações e turbulências no incrível campo do amor no próximo texto, que teve este como sua introdução, além de abordar o grande parceiro do amor. Afinal, é até mesmo possível, por mais desafiador que seja, reler grande parte deste texto trocando a palavra amor pela palavra ódio, seu parceiro inseparável.

 

Com amor,

Alexandre V. Brito

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Como uma onda

Estive pensando em uma dificuldade que me inspirou o primeiro texto deste blog e outro assunto que já foi um pouco elaborado por aqui e que retomo hoje. Há diversas formas de lidar com a dificuldade, e o que estamos diante neste momento é da experiência da escrita. Esta é a primeira dificuldade: transmitir os afetos, as idéias, o pensamento em fluxo e condensado. Mas outra dificuldade ainda mais provocadora, no que ela provoca-dor, é um dos acontecimentos que permitem que a condição humana seja de graça e desgraça. E assim, vamos pensar em algo que o homem tropeça desde quando aprendeu a falar.

Qual a garantia que o homem tem de sua existência? A resposta mais imediata seria: Nenhuma! Ela vive se deslocando, se desfazendo em seu contrário, desaparecendo, surgindo com acréscimos e perdas. Erguemos nossos próprios portos seguros. Não há uma tendência, e o homem vive em torno da produção de instituições e suas satisfações. Já perceberam isso? Se não, este é o outro problema, naquilo em que problematizar nos põe em movimento em diferença com a solução de problemas que paralisa toda questão. O problema: a percepção. Mas antes, um pouco mais das instituições.

Vocês estão se acostumando com a prática deste blog de operar as palavras que me sirvo para montar meus textos. Fico satisfeito de que possamos acompanhar juntos alguns movimentos sobre as origens das palavras, mesmo que seja para lhes provocar um novo sentido diante do já instituído, assim como foi pensado no texto sobre a Mãe não tem gene. Isto tem muito a ver com nosso tema de hoje, mas ainda vamos ser um tanto literais, mesmo que não estejamos livres das interrupções do devir, o que vai nos orientando para direções inusitadas diante da invenção do texto. E nisto nos encontramos com a instituição e seu latim instituere, que de forma aproximada seria estabelecer (o que não se confunde com estabelecimento) no que tange ao in (em) e ao statuere (fazer ficar de pé). E assim o homem vem provocando suas (des)construções. Em outros termos, nada é óbvio em nossas produções, não há o a priori, o instintual como bússola acerca do outro, do sexo, do corpo, dos poderes em exercício, dos costumes, das posições, etc. Pensemos em algo óbvio ou que suscite a aparente relação de ser algo digno da naturalidade dos homens: a vida privada, a família, a escola, o dinheiro, a escrita, os rituais, a alimentação, o trabalho, os médicos dentro dos hospitais, inclusive o mar e o sol… Nenhum desses é algo que tem por merecimento o “desde sempre”, pois nem mesmo o sol (que ainda tem o status de ser o centro do universo) deixou de ser alvo dessa condição em que, para o homem, tudo é possível, inclusive o impossível.

Sobre a percepção, retomo esta noção que, ao mesmo tempo em que nos desloca, pode produzir todos esses pré-juizos do “desde sempre”. Em outros termos, na experiência da percepção, há uma perda (ou um ganho, tanto faz) fundamental, que, aliás, funda as mais diversas realidades do homem e suas instituições. Não há palavras que capturem o objeto para dizer: Eis isso! As ondas da vida são incapturáveis, não podemos guardá-las em uma caixinha e, simplesmente, de pólo a pólo, mesmo que sem início ou fim precisos, seguem seu fluxo. No que tange a experiência da percepção, abre-se o campo das possibilidades, pois o que vemos ou sentimos não é igual para todos nós, visto que estamos sob a intervenção da palavra como produtora de realidades. Afinal, o objeto pode ser alucinado ao atravessar a experiência da linguagem e dos órgãos do sentido sem jamais ser visto ou vivido por outro ser humano. O homem que procura o chifre na cabeça do cavalo o encontra. Mas quando criamos conceitos ou pressupostos a partir de uma experiência e os encarnamos como algo da eternidade, isto nos leva aos juízos do preconceito, profundamente infiltrados pela moral. Estamos, mais uma vez, tratando das produções discursivas e suas invenções/produções.

Cada um tem uma janela pela qual vê o mundo e, podemos afirmar que de certa maneira estamos fadados ao mal-entendido. A angústia desta condição gera inúmeras possibilidades de escolhas responsáveis: da invenção à depressão.

Cada cego vê o mundo de um jeito, cada surdo ouve sua música, cada criança tem sua própria perspectiva em seu primeiro encontro com a vida e o louco, que inventou a psicologia pra zombar dela, nos ensina novas maneiras de viver. Para além do certo ou errado, eis um mínimo de ética e  respeito em desuso que poderíamos exercitar, pois somos só mais um dentre infinitos e surpreendentes mundos dispostos a se confundirem com o nosso.

“Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo” (Lulu Santos)

O real da coroa [Parte 2 – final]

Nina nasceu de um fracasso. O Rei nasceu coroado por seu destino. Ambos, aparentemente, estão destinados a suceder, no que tange ao latim succedere: “vir depois”. Mas não é uma sucessão comum, eles sucedem e se destacam, assim como sugere o “cedere” enquanto deslocar-se. A bailarina protagonizada em Cisne Negro coroa a sétima arte com a tragédia, agonizando em seu ballet da vida. Ela implica o espectador que lhe vê por meio da expectativa e das cenas, e sem ser obscena, ela convida-nos a passear pela sua dor. Conheço homens que se angustiam por não terem a capacidade de colocar no mundo seu sofrimento e sequer transmiti-lo ao outro o seu indizível. A personagem de Nina não só é capaz de afetar aquele que a vê, como é capaz de fazê-lo sentir a dor de sua pele sendo descascada do dedo ao arrancá-la na base da unha. A relação dual das imagens é imediata se desconsiderarmos a mediação simbólica, e identificamo-nos com ela em nossa própria carne. Não é a toa que chamamos de arte. Das diversas mutilações, muitas eram alucinadas. O corpo também é tocado de maneira singular na experiência do rei, que a princípio, não tinha cabeça para sua coroa.

O Discurso do rei é, literalmente, correr ao redor do trono. E diz de um curso um tanto conturbado pelos impedimentos da enunciação da fala. Ele, então, ga-ga-gueja. Sua esposa o aceita em casamento por essa garantia do corpo: Um gago jamais será um rei e, assim, ficamos protegidos! Estamos diante da inibição do corpo e, nestes movimentos do texto, vamos dançando com nossa bailarina e ver onde isso vai dar. Em um compromisso com a sinceridade, digo-lhes que não faço a menor idéia do que estar por vir nos textos enquanto estou no exercício laborioso da escrita. Não sei o final deste e tenho a alegria de partilhar isso com vocês que estão nesta exata parte do texto.

Retomando a noção de destaque e sucesso do início do texto, percebemos que há uma exigência fatal nisto: A de ser único. Qual de nós realmente quer isso? Será que seríamos capazes de suportar a realização de nossos desejos abrindo mão da condição confortável de sermos queixosos para com a vida assim como qualquer semelhante? Sucesso é morte e nascimento. Mas me parece comum tropeçar e se arruinar para evitar a condição de ser único e solitário.

Aliás, qual o problema da solidão? Há tanta depreciação para com esta. Eis um texto em que se interroga mais do que responde, pois é a dúvida que gera o movimento. A solidão também gera movimentos, e cada um de nós tem que fazer as pazes com ela. E a condição de sucesso implica nesta solidão que não inclui a receita de como lidar com ela. Lembremo-nos que a noção de inconsciente não surge do sucesso, mas (in)justamente dos fracassos, de nossos tropeços, pois se fossemos uma coerência perfeita com o mundo, com o sexo, com o outro, com o corpo, a experiência do inconsciente não haveria de existir. Muitas vezes nossas singularidades estão nestes acontecimentos pontuais, irredutíveis ao universal, arquitetando nossa maneira de existir. Em particular, lembro-me bem do momento em que o rei, lutando bravamente contra a muralha que lhe impede a fala, mesmo que a partir de cordas vocais perfeitas, consegue um discurso coerente e fluido regido por aquele que se torna seu amigo ao final do filme. Amigo que, dependendo do umbigo que assiste a esse filme brilhante, o interpreta como sendo um psicólogo, ou fonoaudiólogo, ou um terapeuta, um maluco.. Neste momento final, o rei ‘deixa’ uma gaguejada se produzir, para que assim seus ouvintes possam reconhecê-lo indubitavelmente. Fascinante! A palavra é mutilada, mas ela também mutila. Nina, nossa bailarina que dança, inclusive, pelos desejos da mãe em direção a suposta perfeição, faz corte e recorte e encontra nada mais do que a morte. Ela dá seu sangue por isso!

Um mesmo passo é capaz de ir em direção ao encontro de uma feliz realização ou para uma devastação.

Em nossa história da vida real, qual a parte que nos cabe? Acredito, que por mais arruinado que se esteja, se está onde se deseja.