Ninguém é feliz

Conheci pessoas que nunca experimentaram as aventuras de um parque de diversão, que jamais ganharam um presente que pediram de natal. Conheci algumas pessoinhas que nunca tiveram dinheiro suficiente para ter o que todos em sua escola poderiam ter em mãos, e pessoas que nunca conheceram seus pais. Conheci pessoas que nunca andaram de cavalo ou entraram no mar para pular as ondas que se formavam perto da areia quente. Conheço muita gente que não tem carro ou um lugar como uma casa própria para morar, ou que dividem seus quartos com desconhecidos. Já vi crianças que não sabem o que é brincar com outra criança, e adultos que não sabem conviver com outros adultos. Há mil pessoas que jamais frequentaram uma escola ou uma faculdade, ou que sequer sabem ler alguma coisa, uma linha qualquer.

Sabemos de milhares que tem pouquíssimas peças de roupa ou apenas um só calçado que já começa a apresentar o primeiro rasgado. Conheci algumas que pouco saem de suas casas para conhecer o mundo. Outras que mal têm um espelho e maquiagem para poder se ver e enfeitar, e nem mesmo uma câmera digital para registrar alguma coisa com a qual elas se importam ou que gostariam de compartilhar com outras pessoas tão importantes para elas. Conheci algumas que fazem dieta e outras que comem tudo que podem, mesmo com as proibições que lhes impuseram em nome de alguma doença. Há pessoas casadas e solteiras. Algumas pessoas que, por acidentes da vida, perderam um rim ou uma parte de sua visão. Mas percebi que todas essas e outras mil pessoas tinham algo em comum: todas elas tinham a altíssima capacidade de ficarem e se sentirem alegres. Mesmo com todas as suas diferenças, cada uma podia abrir um sorriso mágico em um pequeno gesto em suas vidas, em um instante sem grandes pretensões e um saber fazer algo com isso. E percebia que elas eram felizes nos momentos sem ideais. E aprendi que a felicidade e toda sua transitoriedade não é algo que se possui ou por algo que se possui, mas é um momento em que você simplesmente está lá sem saber muito bem o porquê.

Ninguém é feliz, nós temos momentos felizes. Não é ser, mas estar. E todas essas pessoas não dependiam em nada daquilo que elas não tinham para assim ficar. Então, entendi que a alegria está em outro lugar. Não nas coisas, nas aparências, na grama do vizinho, nos objetos que se tem ou que não se tem, nem sempre aquilo que te faz feliz vai ser o que vai me fazer feliz. Apesar de escutarmos as mães dizerem o oposto quando se referem a seus filhos.

Não tem nada a ver com os imperativos docemente disfarçados do bem-querer para o outro, nem mesmo com algo a que devemos a todo custo reivindicar. Definitivamente, a felicidade não está nas coisas. E esse lugar em que a alegria está não é nem mesmo um lugar. Não é em Paris que ela está, nem mesmo no Canadá. Pois mesmo no Brasil ela pode te encontrar. Mas não deixa de ser um encontro, mas um encontro imprevisto, sem programação, é o próprio encontro em si mesmo enquanto surpresa, é o próprio encontro com a vida e sua afirmação. Então há algo que não sabemos sobre estar feliz. E quanto menos se sabe sobre isso, mais felizes somos capazes de ficar, porque, quem sabe, a gente não para de procurar a felicidade em todo lugar.

 

 

 

Alexandre Vieira Brito

O autismo, um autismo

Aventuro-me neste pequeno texto em um tema que ainda trato com certa dificuldade mas com alguma luz.  O que apresento é uma entrevista sobre o autismo que tentei responder para alguns estudantes interessados no tema. Sabemos que há um certo desconhecimento do que vem a ser autismo, e partindo do pressuposto de que exista, vamos estabelecer alguns fios condutores acerca do tema sem grande aprofundamentos teóricos. Deixarei as perguntas dos entrevistadores de maneira literal, para que possamos juntos perceber o que se questiona e o caminho que tomamos.

Como a psicanálise entende a etiologia do autismo?

O autismo é precoce no que diz respeito ao seu surgimento, desde os primeiros meses de vida de um ser no mundo, apresentando uma relação direta justamente com esta condição primeira dos homens. A psicanálise entende este processo de etiologia como um ‘prejuízo’ na primeira construção do mundo humano do pequeno bebê.

A cabecinha do bebê, seu corpo e olhar, por exemplo, são sustentados por um desejo, por investimentos, o que dá forças para andar, falar e ser alguém no mundo, e é justamente este desejo que participa da inauguração do sujeito. O autismo surge nestas primeiras relações de objeto, como um prejuízo nesta primordial relação de imagem. As relações de objeto sem esta sustentação do desejo do Outro, que nos lança para o mundo, prejudica a constituição do bebê com o outro semelhante, afetando a construção do eu. No que concerne ao autismo, estamos em uma hipotética etapa anterior a esta construção do eu/outro e da articulação no universo da linguagem.  Tanto que o termo autismus tem seu sentido nesta “referencia a si mesmo”. Eis um jogo do desejo em que o autista “fica de fora”.

Parece que a psicanálise atribui maior influência às falhas envolvendo as funções materna e paterna, mas como são pensados os fatores biológicos?

Há funções e fatores biológicos neste processo, é impensável um isolamento, e eles são pensados como envolvidos mas não são negados e nem mesmo um campo de observação privilegiados. Se assim fosse, uma intervenção seria completamente efetiva mesmo se não levassem em consideração todas as relações que se estabelecem em torno do autista. Essas relações são fundamentais para entender o autismo, mas o biológico participa à sua maneira.

E a influência também está na relação materna, sendo o termo falha um pleonasmo, pois não há manual eficiente sobre o exercício da maternidade. Façamos um elogio às singularidades.

Como funciona a intervenção da psicanálise no sujeito com autismo?

Como com qualquer outro sujeito, sendo a análise conduzida no um-a-um, com a singularidade de cada caso. O autista geralmente vai de encontro ao analista por meio de seus pais, parte fundamental deste autismo. A intervenção pode ser em forma de acalmar o autista dos perigos do mundo, estimular o corpo, higiene pessoal, utilizar atividades sensoriais, e trabalhar seus pais e as redes de conexões estabelecidas entre eles e o autista. Isso são exemplos gerais para intervir justamente neste elo, nesta relação de objeto imaginária que sofre prejuízos no sujeito autista.

Muitas vezes o pequeno autista se interessa muito mais por objetos como uma máquina de lavar do que seus brinquedos comprados com zelo por seus pais. Sua libido não inclui o semelhante, o que não impede que a máquina seja um meio, e não um fim. Afinal, atualmente os laços sociais são feitos intermediados por máaquinas.

É possível a cura do autismo na psicanálise em caso de diagnóstico precoce? Se sim, como isso é possível? Outras teorias também compartilham dessa idéia?

O autismo pode ser completamente “curado” com um tratamento precoce. Quando me refiro a isto, estou falando por volta dos seis meses de idade, o que vem produzindo toda uma educação e mudanças na formação do médico pediatra nos últimos anos. Eles têm uma posição privilegiada para o diagnóstico devido ao seu contato com os bebês, havendo uma incidência nos cursos de formação em pediatria sobre o autismo. Esta intervenção, que mobiliza pais e o bebê, pode colaborar na emergência de um sujeito até então apagado na sua relação com o outro. Quanto mais precoce, maior a possibilidade de ser um sujeito ‘normal’, que tem seus prazeres, seus sofrimentos e capaz de erguer sua própria vida como qualquer outro ser humano. O que as outras dezenas de teorias dizem sobre isso, eu não sei, seria pretensioso de minha parte tentar responder se elas compartilham dessa idéia. Se não compartilham, vemos que o campo discursivo é marcado pela falta de dados comuns a todos, e que o mundo humano tem que ser construído. Desde o nascimento o objeto nunca é dado, não há o instinto para defini-lo, mas é construído com o outro, e o autista de primeira infância está aquém deste mundo.

E quando já não existe mais a possibilidade da “cura”, como funciona a intervenção?

A cura é um termo carregado de sentidos. Mas supondo que o autismo esteja marcado como uma tatuagem em determinado sujeito, pois assim o nomeia, o tratamento tende a envolver não só o sujeito mas as relações em que ele está imerso. É possível acalmar o sujeito sobre este mundo louco que é a humanidade que implora para que ele fale como os outros, sendo necessário dar espaço a sua singularidade, produzir contato e dar existência a este sujeito. Todos querem existir no mundo, e precisamos do outro para garantir que isto ocorra. Não há coisa pior do que não ser notado por aqueles que amamos, é como se não existíssemos. Não há nada pior do que ser ignorado, e o tratamento diz respeito ao jogo do desejo em torno do autista e das funções deste autismo no sujeito. São processos inconscientes que nem mesmo a boa vontade dos pais é capaz de mudar pelo simples querer. As estimulações, atendimentos familiares, passeios em lugares que o autista frequenta, jogos, dentre outros, são todos eles ferramentas válidas desde que estejam a favor do tratamento e que não sejam apenas de caráter recreativo. No final das contas, é ele quem orienta seu tratamento, suas preferencias, escolhas, e devemos ficar atentos à suas dicas. A psicanálise não se reduz às condutas do autista ou ao simples  modelamento de seus comportamentos.

Como é feita a avaliação de prognóstico do sujeito?

Sobre o prognóstico, é necessária uma avaliação de cada caso, mas a experiência nos ensina que o diagnóstico precoce acompanhado de uma intervenção pode ajudar a todos os envolvidos a “superar” esta condição autista. Os adultos nem sempre estão preparados para as surpresas da infância. Muitas vezes incurável, o tratamento colabora na relação do autista com seu corpo, com o outro, entender as convenções sociais de sua época (o que não tem nada a ver com adaptação), trabalhar sua relação com o outro sexo, aprender com a família a lidar com as implicações/condições de seu autismo, dentre outros. Importante oferecer todo apoio e nos servimos de toda nossa ética para aliviar os sofrimentos destes sujeitos e também acolher seus pais, que muitas vezes são os que mais sofrem. O prognóstico é impreciso, depende de diversos fatores, mas estamos em um terreno que, quanto mais cedo o diagnóstico, melhor.

Cabe lembrar mais uma vez que o autismo é um termo no campo do particular, mas cada autista tem o seu próprio autismo e está para além disso.

 

 

 

Entrevista com Alexandre Vieira Brito, cedida aos alunos de Psicologia Excepcional da UFES 2011/01.