Luto pela vida

A história de todos os seres vivos é marcada pela presença da morte. Presença na ausência, esta é uma forma do homem lidar com esta companheira que pode ser pensada como o único sentido da vida. Mas ao falarmos de história e de sentido, estamos estritamente no campo dos seres humanos, que tem a capacidade de contar suas histórias, produzirem infinitos sentidos, mas pouco sabem dizer sobre a morte. Aliás, é por viver em torno dela que arquitetamos boa parte de nossas vidas, criamos e perdemos os sentidos, mesmo que o nosso eu não admita o fim de sua existência, pois este se pensa imortal. Como toda regra há exceções, os melancólicos são os únicos em que a primeira pessoa do singular é identificada com a morte, coroando esta relação com seu próprio fim, neste caso, um suicídio.

Poucos são os confortos diante da tragédia que é a vida. Isto pode conduzir as pessoas a diversas tomadas de decisões: da resignação à invenção. Muito da arte se produz neste encontro com o trágico da existência, mas a depressão e toda sua covardia e falta de criatividade também são posições subjetivas possíveis. As crianças são seres de notável capacidade de invenção, e suas teorias sobre a sexualidade e sobre a morte são de grande utilidade para suportar a vida. Mas negar a morte não evita sua presença, e negar a vida é o prejuízo que estão fadados todos os que vivem de rígidos costumes e tradições, perdendo-se de seu próprio tempo por uma ilusão.

Assim como as crianças, senão ainda mais do que elas, os adultos são completamente despreparados para a morte e para as surpresas da vida. A vida é a própria surpresa! Assim como a história de uma criança que manteve em segredo um abuso sexual que sofreu de um adulto, pois queria poupar os outros adultos responsáveis por ela desta situação, tendo em vista que eles não saberiam resolver senão se matando. Sexualidade e morte são temas que apresentam toda nossa falta de guias, sendo um campo em que não se normatiza, levando-nos a dizer que é impossível regular um gozo, fazer com que todos gozem da mesma maneira ou que seus lutos sejam programados, assim como nosso mercado exige.

No que diz respeito ao luto, este é um processo que envolve a presença da morte. É impossível viver a morte de alguém, sendo que a própria frase é contraditória. Como se vive uma morte? Mesmo se sonhamos com nossa morte, ou a assistimos em terceira pessoa ou acordamos no momento chave. Dela ninguém porta a chave. Não há registro da experiência de morte em nossa memória, em nosso inconsciente. Mas somos capazes de experienciar a perda de alguém e isto é completamente necessário no luto, pois algo de nós mesmos se vai.

Acredito ser de extrema importância, nos dias de hoje, que todos os que deram e dão alguma importância ao sujeito que acaba por morrer, compareçam ao seu enterro, façam sua despedida. Todos sabemos o quanto é angustiante e aterrorizante a dor de quem perde um amor sem saber o destino de seu corpo. Na vida a dor é parte importante, é um de seus sabores e, neste caso, necessária para que sua elaboração dê espaço para alguma capacidade de prazer após o luto e que se volte a investir no mundo, em si mesmo. O castigo não é saber que um dia os corpos morrem, pois isto é o que dá todo o valor para a existência das coisas, mas o castigo seria a pretensiosa vida eterna. Este pensamento não nega a existência de quem se foi, mas que este não mais se encarna, insubstituível, apesar de muitos tentarem reviver seus mortos das maneiras mais perversas possíveis.

Há o caso de uma mulher que teve seu primeiro filho morto com apenas meses de vida, e após um doloroso trabalho de luto foi capaz de gerar uma nova vida, sem substituir o primeiro, mas tendo este como o filho mais velho que já se foi. Isto tira todo peso mórbido do novo bebê e desta mãe de dois filhos. No luto parecemos seres vazios, mas a fome não dá o ar de sua graça, é uma ferida na alma. No luto, luta-se pela vida. Os sentidos se desarranjam, há pouco conforto, mas muitos fazem fortunas inventando sentidos para o inexplicável. No que diz respeito à fortuna, nos tempos de hoje, muitos lutos estão com a aparência descartável de nosso mercado: fast food. Uma cerimônia e sepultamento pela manhã e um churrasco ao final da tarde.

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Sobre a traição

Esta é mais uma das entrevistas que dei para estudantes do curso de jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo. Vou manter a fidelidade, já que estamos no campo da traição, das perguntas que me foram feitas e minhas respostas, sem edições. Elas apresentam questões um tanto populares acerca do tema, pois é algo em que todo ser humano tem algo a dizer. Isto deixa óbvio que o assunto não se esgota. Sem mais prolongamentos, vamos às questões.

01)     Por que as pessoas traem?

 As pessoas muitas vezes traem a si mesmas, em primeiro lugar, se é que assim podemos dizer. É impossível responder essa pergunta no registro do Universal, muito menos definir o que é traição, mas isto não impede que o façamos razoavelmente. A traição, do latim traditio, derivado de tradere, seria entregar, passar adiante. Tradição também surge desta mesma palavra, mas na traição é uma entrega com prejuízos aos costumes. As pessoas muitas vezes traem porque não sabem o que fazer, ou para se aventurar em um campo desconhecido e nada convencional, por algum ganho para além do tradicional, o que não as alivia da responsabilidade de sua traição. A traição só é assim autorizada quando há um vínculo e acordo a ser sustentado, o que inclui uma profunda incidência do campo do simbólico, do mundo humano.

 02)    Insegurança pode levar (ou tem algum tipo de relação) a trair?

 Pode-se trair um laço social, um padrão, uma convenção, uma tradição, um dito, uma promessa, um sentimento, um segredo. E tudo isto é erguido sob condições simbólicas em que o homem se estrutura razoavelmente a fim de evitar o mal entendido, viver em sociedade e saber lidar com o outro, pois não temos uma bússola em comum que nos oriente. Os arranjos que os casais estabelecem são sem referencial comum, o que não nos autoriza a julgar uma traição, nem mesmo a compactuar o que vem a ser a lealdade. A insegurança desta condição precária mas não menos eficiente, pode levar o homem a mudar suas certezas da noite para o dia, e mesmo aqueles que jamais pensariam em trair um parceiro, por exemplo, podem fazê-lo. A insegurança pode levar à traição, mas nem sempre isso reduz a insegurança, apenas a evidenciaria.

 03)    Quem tem mais predisposição a trair: homens ou mulheres? Por quê?

 Não há predisposição marcada ao gênero acerca da traição, as inúmeras possibilidades de existência e a posição sexuada de uma pessoa não são regidas estatisticamente. E isto não faz laço direto com a questão da traição para se afirmar sobre predisposição, não é a anatomia que comanda ou que está programada a trair. Estamos avançando no desuso destas estereotipias e mulheres se aventuram nas convencionais posições masculinas e vice-versa. A própria tradição que diz que ‘o homem trai mais’ está sendo traída, pois vivemos em um mundo discursivo, e nele as coisas mudam, tendem a se relativizar, sendo preciso contextualizar a traição para que ela seja chamada assim, descolada de gênero, cor, estatura, classe social, etc. Este mundo de discurso produz leis e lugares, e quando algo fica fora de lugar, abala-se todo o sistema.

 04)    Porque geralmente as mulheres que traem escondem o fato da sociedade com mais intensidade que os homens? 

 Se alguém trai e tem isso como tesouro de sua capacidade de sedução para mostrar à sua pequena audiência, estamos provavelmente no campo do exibicionismo e dos serial lovers. Mas, e isso é bem possível na experiência do ser humano, uma mulher discreta pode ter um homem para seu gozo e outro para o amor. Isso não é exclusividade de sua anatomia, mas é uma possibilidade, pois a pergunta é sobre mulher, e sobre ela o mundo diz mil coisas há milênios, não sem conseqüências para seus comportamentos. Pode-se negar uma traição até a morte, como se diz, mas de maneira a conservar sua imagem, seu laço matrimonial e a imagem de mulher que todo mundo quer ver e que garante sua “integridade”, para não ser jogada na fogueira que criamos nos dias de hoje pelas heranças machistas que ainda existem.

 05)    O que leva um pai de família dedicado a ter um caso e continuar casado – amando a esposa? O que se passa na cabeça dele?

 As pessoas ficam frustradas quando um ideal cai por terra, e este é o caso do homem, “pai de família dedicado”, que mantém uma relação extraconjugal, seja com outra mulher ou homem. E mais intrigante ainda é saber que ele realmente ama sua esposa com toda sua alma, mas mesmo assim trai. Estamos em um terreno que não é habitado pelo senso comum, por isso o estranhamento, pois o próprio amor exige exclusividade. Não podemos dizer o que se passa na cabeça dele, não temos pretensões divinas, mas pode justificar este comportamento supondo que trai por questões unicamente de gozo, de realizações sexuais. Talvez ele faça com as “outras” e/ou “outros”, o que ele não se atreveria fazer em casa com sua “mulher de respeito”. Não sabemos se é o caso.

Aparentemente, e por mais contraditório que a consciência possa conceber, uma traição pode vir “a favor” do casal.

 06)    Por que é tão difícil para alguém admitir para os outros que já foi traído?

 Vale lembrar que muitas vezes a pessoa acaba por se trair. Muitas vezes experienciamos algo passivamente mesmo quando estamos empenhados de maneira ativa. E admitir que já foi traído(a) alguma vez na vida pode estar vinculado a assumir sua impotência, mesmo que imaginária: impotência diante dos desejos do outro, do imprevisto, da capacidade de manter um relacionamento, de não ser a única pessoa no mundo para aquela que justamente o era para você, dentre outros pensamentos que invadem a tranqüilidade de quem é traído. Mas ainda mais difícil de admitir a traição, é admitir que perdoou o traidor, o que muitas vezes desperta a ira dos amigos que ainda acreditam na ilusão de um padrão a ser estabelecido, de amor perfeito.

07)    Como reagir a uma traição? Qual pensamento se deve ter em mente?

 Cada um reage à traição a sua maneira, de acordo com sua (des)organização e experiência diante dela, mas nunca podemos prever e sim contextualizar. Muitas vezes uma pessoa se surpreende com sua reação, que podem ser desde a raiva destrutiva ao perdão. Pode ser um momento decisivo para os envolvidos. Importante é tentar respirar, ter seu tempo/espaço e pensar sobre o acontecido, pois a traição retira um pouco da lucidez que o amor já teve o trabalho de prejudicar gravemente.

 08)    A idade da pessoa influencia em algo? Em que? Como?

 Como já dissemos, os arranjos que os casais estabelecem não são necessariamente orientados por padrões, nos dias de hoje. Não se une mais por um sobrenome ou arranjos familiares, mas por uma escolha, sendo uma união muito mais responsável. Casais de idosos podem terminar um relacionamento de décadas com uma traição e um casal adolescente pode se perdoar e manter o laço estabelecido, mas isso pode influenciar de acordo com os envolvidos e do retrato atual de seu relacionamento e da traição. A traição não é exclusividade de uma idade ou gênero.

 09)    Problemas pessoais podem levar à traição? Como evitar que isso ocorra?

 Problemas pessoais podem levar a traição ou ao rompimento do relacionamento, depende do sentido que ele faz para a pessoa e sua posição nele. Pode variar em acordo com o casal e seu pacto de amor, que nunca é sentido de maneira igual por cada um, e para que determinado problema possa levar à traição, geralmente é uma questão que diz respeito ao casal e não uma questão individual. O diálogo, apesar de seus eventuais mal-entendidos, deve ser mantido e assegurado para ambos acerca de qualquer assunto, por mais difícil e desconcertante que seja, e comprometidos com suas coerências evitando as “bolas de neve” conflituais. Importante que os desagrados sejam ditos, para que o relacionamento não se torne mal-dito e cheio de segredos. Não há fórmulas.

 “Cuide bem do seu amor, seja quem for”.

É necessário o cuidado de si para que não se construa a própria forca.

Entrevista de Alexandre Vieira Brito, cedida ao jornal Primeira Mão – jornal experimental dos alunos do 6° período de jornalismo da UFES 2011/01.