Sexualidade: se não existe, inventamos

A sexualidade é um tema que afeta profundamente os seres humano, pois ninguém está imune de sua própria sexualidade, mesmo os socialmente decididos pela castidade. Ela passa pelo campo dos discursos, um poderoso teatro com papéis bem definidos, além das forças biológicas que não se contrapõem ao primeiro em forma de um dualismo, mas que se alimentam reciprocamente. Por haver a necessidade de sucessivos discursos que possam orientar uma maneira de gozar – este saber sobre o corpo acaba por gozar dele, um poder sobre esta vida que deveria ser programada – percebemos que não há o guia comum no reino animal dos seres humanos de como viver seu prazer e até mesmo suas dores. Os pais e professores, por exemplo, tem a maior dificuldade para explicar a uma criança sobre a morte e o funcionamento do encontro dos genitais, mesmo que eles saibam que as satisfações sexuais não se resumem a isso.

O encontro com o sexo é traumático por si só, pois este agencia inúmeras questões contemporâneas, contradições, perversões, aversões, mutilações, inibições, satisfações, ereções, sangue, suor, olhar, punição, invenção, etc. O que funciona perfeitamente um momento pode falhar em seguida. Não há o a priori, e isto abre o incrível campo da invenção. Se não existe, inventamos. Segundo esta perspectiva, é impossível regular o gozo de um ser humano, de lhe impor o caminho de sua felicidade e de seus prazeres, mas apenas de sua singularidade. O prazer é o parceiro mais íntimo da dor, sendo que nós somos a unica raça capaz de extrair um mortífero prazer da dor.

Ser mais um é a opção de muitos de nós, que só consegue viver no conforto de um grupo ou na absoluta dependência dos braços de uma parceria amorosa. Há uma regulagem pela expectativa do outro, e a diferença deve ser combatida pois é a ameaça ao equilíbrio – apesar de sabermos que não é possível pensar em termos de homeostase no aparelho inconsciente. Em outros termo, podemos dizer que a satisfação é um empecilho. E em breves linhas podemos desfazer esta ingênua crença na tendência ao equilíbrio com um exemplo simples: Se um dia você já se sentiu satisfeito e ainda assim esteve cheio de vontade, ou se a gula era dos olhos e não da boca e seu aparelho digestivo, ou houve a prevalência da tensão e não a de um relaxamento… eis um pouco do que queremos dizer com isso.

Não é possível dividir os seres humanos em seres à parte, como tende nosso preconceito. Apenas os que querem a igualdade e uniforme  identidade sexual, o que chamamos de homossexuais, produzem o preconceito contra a diferença, pois não suportam que o outro não seja como ele mesmo se situa no mundo. São pessoas com um umbigo em constante expansão e que regulam o mundo a partir de si mesmas. Convoco vossa atenção nesta parte do texto para um esclarecimento, pois entendo que o homossexual não é o que se chama comumente de gay ou pessoas que decidem levar uma vida erótica com outras portadoras do mesmo material genital anatomo-fisiológico. Mas que pregam com firmes pregos uma maneira padrão de ser.

Sexualidade não é doença, mas pode adoecer, ao passo que pode ser fonte inesgotável de saúde. Nem sequer prever. Portanto, mesmo as escolhas sexuais de homens por mulheres não deixa de ser algo de um acaso. Hoje estamos situados em um mundo que é ainda mais imprevisível o que advirá de um corpo, pois as diferentes conexões e permutações são notavelmente intensas. Deslizam-se em parcerias com homens, mulheres, e inúmeros objetos, o que leva a considerações no senso-comum de afirmações de que o mundo é gay e apologias ao gozo desenfreado. Isto já seria uma orientação que suscita um certo poder discursivo sobre os corpos, pois hoje a singularidade pede espaço no campo da sexualidade, desconhecendo o padrão a que nomeamos e que tentam se impor.