Experiência e vício

Há pouco tempo uma conversa suscitou-me pensamentos que jamais fui capaz de evocar em outras épocas, e trata-se de algo que diz respeito a uma distinção pouco recorrente e muitas vezes concorrente se não coincidente. Estou falando de frases demasiado conhecidas entre os funcionários de instituições e empresas, por exemplo, ao articularem duas variáveis como coincidentes: tempo e experiência.

Houve uma época em que ser um funcionário fiel ao seu emprego é digno de ser contemplado em uma graciosa foto pendurada para exposição nas paredes do estabelecimento de ofício. Uma época em que havia os ideais e utopias comunitárias exercendo muito mais força na produção de desejo, em que o interesse era ser, a partir de uma identificação, assim como um alvo visado. Fazia-se o hoje em função de uma promoção do amanhã, e seguir carreira dentro de emprego era algo fundamental e cheio de sentidos.

A produção de sentidos decai com a queda das utopias comunitárias em nossa contemporaneidade e, muitas vezes, manter-se no mesmo lugar de trabalho é algo que provoca mal-estar ao olhar coberto de expectativas do outro. Aliás, o nosso mercado tem o protótipo da descartabilidade e da mobilidade, tudo é vulnerável à política do ser descartável, além da capacidade de ser trocado nesta incessante oferta de objetos de gozo e posse (se é que não são a mesma coisa). Em outros termos, somos convencidos de que mesmo aquilo que funciona perfeitamente aos nossos fins pode ser substituído, mesmo sem estar com defeito ou envelhecido o suficiente para obter seu objetivo. As necessidades são inventadas e reinventadas. Um deslocamento radical em que há um triste agravante: os objetos em questão são os próprios seres humanos. Ou seja, de uma sociedade estática e bem localizada para uma globalizada, sem começo nem fim, tal qual a própria internet, em que os objetos são os seres humanos ou vinculam-se para um laço social cada vez menor e mais auto-erótico.

Por fim, retomemos o pensamento que provocou este texto: O que acontece com uma pessoa que se mantém em um mesmo ofício por longos e duradouros anos? Muitos dizem que estaríamos diante de um ser povoado de experiências pelo tempo que exerce sua atividade. Porém a experiência requer algo fundamental: a mudança! Não há experiência sem mudança, sem transformação. Se nada mudou, nada experimentou. E é absurdamente comum o equívoco de encher a boca com o apoio do tempo cronológico de trabalho para cometer o logro de se autorizar experiente e se conduzir a outro erro, o da certeza do saber. Tempo sem desvios não é experiência, repetição sem elaboração é vício. Experiência mecânica sem a surpresa do acaso torna-se vício. Quando se possui a paranoica convicção de saber tudo o que fazer a partir de um vício, isso é como ser cego, surdo e mudo para si mesmo, para as variações da vida e dos acontecimentos imprevistos.

Todos estamos suscetíveis de atravessar a experiência da surdez e da cegueira simplesmente com o ato de pensar, pois quem pensa nem sempre vê ou ouve o que se diz a sua volta, mas investe toda sua alma apenas em seu próprio mundo. São vícios de pensamentos que acabam por cegar toda uma equipe de trabalho em suas decisões e provocar uma grave surdez, principalmente das vozes dos novos e lúcidos membros de equipe. Muitos chamam de cultura, mas podemos também invocar algo como um vício até mesmo adoecedor.

O pensamento, ao mesmo tempo em que é um poderoso instrumento para mudar para que nada mude, instrumento que vicia e suporta uma sólida garantia sustentada pelo invariante, o pensamento é alvo e fonte de provocações,de invenções, algo de provoca-dor. Há, portanto, dois movimentos possíveis, e vício e experiência não se confundem. Mas, inevitavelmente, são parceiros indissociáveis. A experiência lhe tira do vício e do lugar-comum, pois a  afirmação da vida é mobilizar os contrastes, afirmar a diferença e o novo, e em contrapartida o vício já situa o ser naquilo em que ele não consegue mudar e acaba por guiá-lo em direção a isto que não muda: sua própria morte.

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