A criança em nós, muitos nós

É possível aprender com as crianças, mas elas pouco são escutadas. Muitas vezes uma criança só deseja ser alguém. Ser vista e ser chamada pelo nome, ser amada por um pai e não desejada por um homem. Deseja e merece ser amada. Toda criança deveria ter  a chance de viver seu mundo curioso e não ser explorada e abandonada como um nômade, ou mesmo espancada como um criminoso.

Às vezes uma criança tem muitas histórias para contar, mas é muito fácil deixar suas histórias e fantasias de lado e simplesmente ignorar. É muito cansativo entrar no ritmo de uma criança, pois elas sempre nos deixam para trás, mostram que o que elas fazem com tanta facilidade nenhum outro adulto é capaz. Aliás, o problema do adulto fracassado é o de sentir-se confrontado por uma criança e tratá-la mal, como se sua arte fosse de seu pequeno tamanho, como se fosse banal.

A criança é um ser que está pela primeira vez no mundo. Ela nada sabe e sua lógica é acesa apenas com o tempo, aprendendo a partir do que vê e do que sente. Com o tempo ela também se serve do que sai da boca dos adultos para aprender com o que ouve, mas graças a Deus entende o mundo de sua maneira. Um mundo feito de brincadeira.

Porém algumas crianças são tratadas como a causa do fracasso sexual de um casal. Outras vêm ao mundo para fazer companhia a adultos solitários e suportar em seus minúsculos corpos toda exigência de fazer uma angustiada mãe feliz. Há também aquelas que são simplesmente um acidente. Tratamos uma criança a partir do que somos, do que fomos um dia, do que gostaríamos de ser ou daquilo que mais tememos ver.

Uma criança pode ensinar a um adulto aquilo que o adulto tenta lhe ensinar o tempo todo: o cuidado de si e do outro. Ensinar a brincar e a esquecer. Ensinar a viver. A criança é um grande espelho e ela nos testa, nos conduz a nossa infância. É olhar para uma criança e se fazer a pergunta milenar: quem sou eu? O que me tornei?

Ela nos desafia em jogos que só ela conhece as regras, nos ensina a correr, mesmo que fiquemos cansados de seu ritmo acelerado. Mas ela tem uma vantagem. Pois tem muito mais espaço, ela vê o mundo de baixo e não de cima, ela vê mais espaço do que nossos olhos podem alcançar. Elas nos vê e poderia com toda razão do mundo lamentar as mil limitações que um adulto se impõe.

Algumas crianças simplesmente têm tudo e precisam entender que o mundo não foi feito pra elas. Outras descobrem isso no primeiro ar em que respiram. Mas todas vão crescer. Muitas crescem indesejadas, outras crescem com a força do amor e por vezes sufocadas. Algumas se tornarão adultos ruins e perversos, alguns rancorosos, e muitos cronicamente preguiçosos. Lembremos sempre que olhar para uma criança é se ver. Ver uma criança é você ter a chance de se ver de uma outra maneira. É aprender a esquecer, brincar e ter a experiência de crescer. É rir das mesmas piadas. Aprender a sempre perguntar e não se conformar. Mas acima de tudo é aprender a experimentar, mais uma vez, a transformadora capacidade de amar. E amar com todo nosso ser. Aprender a inventar um mundo novo, um mudo impossível, pois quando sonhamos com impossível, é lá que vamos nos encontrar. É aprender a ouvir o silêncio. Aprender a viver junto sem precisar se entender.

Os anos morrem, os desejos não

Mais um ano se vai e o mundo envelhece  junto. Há a sensação de que muita coisa ficou para trás, mas a sensação digna da exaustão de doze meses e da possibilidade da renovação trazem uma magia que nos põe a desejar e suspirar novamente. As festas desta época são um momento de se esbaldar, de deixar as culpas de lado, de aproveitar ao máximo todo nosso exagero. Nosso corpo prova seu limite, nossos sonhos provam sua existência.
Ficamos a desejar, pois nós muitas vezes nos situamos no plano da queixa, da reclamação, clamando por aquilo que nosso pensamento desejante vislumbra a certa distância sem sequer tocar no que aparentemente contempla, excluindo-se da implicação: qual a parte que lhe cabe neste latifúndio? Há, inclusive, a desiludida posição da resignação diante da vida, há a covardia de não se pôr no mundo o considerado impossível. Mas qual a relação do impossível com o desejo?

Eu diria que todo desejo é impossível até que se realize, mas sua realização demanda toda uma consequência da responsabilização de fazer existir no mundo uma singularidade. O agravante disto é que o desejo não faz laço social, justamente pela singularidade e a inexistência de um padrão.
Em outros termos, e no clima de reveillon, programemos para o ano novo aquilo que há de mais impossível e estaremos lá onde desejamos estar. Em seguida, é tempo de se organizar toda  nossa alma para  realizar esse até então impossível.

Por mais absurdas que sejam as ideias que venha em mente, façamos delas uma possibilidade. Vamos supor que você deseje sumir do mundo e ir pra lua. A lua está tão perto quanto imaginamos, e os casais recém-casados até mesmo lhe dão sabor. Podemos repensar o que esse desejo lhe traz de impossível de se realizar, e mesmo daquilo que já está realizado, pois, em grande parte, já estamos lá justamente onde desejamos estar.

Pode ser que já se vive no mundo da lua, ou que é preciso se afastar ou repensar seus medos e exigências atuais, ou mesmo que uma viagem para aquele lugar tão impossível seja viável finalmente no uso de todo seu esforço. A dificuldade de se desejar o impossível não é sua realização, mas sua manutenção, e suportar sua concretização e singularidade. Não falo apenas de um indivíduo, mas mesmo a singularidade de um coletivo e suas impossibilidades.

O impossível exige um pouco de tudo o que podemos oferecer de si, sendo muito mais fácil nos mantermos na confortável condição da queixa compartilhada. Porém, essa pode ser a posição que se deseja estar e que se suporta viver, e por isto eu lhes proponho este exercício do pensamento: ao desejar seu impossível, repense que, não importa onde você esteja hoje, muito do que vive e experimenta (seja com sofrimento ou prazer) é parte de seu próprio desejo e acaba por lhe interpretar. Aliás, vale ressaltar que esta é a parte mais difícil de se elaborar, neste texto.

Enfim, espero que a caminhada de todos que acompanham este blog e o dão vida seja fértil e repleta de surpresas. Que vocês sejam capazes de bons encontros e capazes de terem a serenidade e responsabilidade de saber o que fazer com os maus encontros.
É um momento de aproximação, inclusive de seus supostos inimigos, ou em outros termos – o que dá no mesmo – é momento de repensar o que se tem feito para si mesmo.
Afinal, o mundo todo fica mais velho e precisamos rever a maneira de nos tratar.

Acredito que é preciso pouco, mas muito pouco para se ver feliz. E é justamente isto que lhes desejo: muito pouco!
Esperemos do ano novo somente aquilo que podemos esperar da gente.

Um excelente 2012!

Sinceros abraços renovados,

Alexandre V. Brito