A perversão brasileira é o seu jeitinho

O brasileiro se orgulhava por ser um povo que não tinha grandes catástrofes naturais, como furacões, terremotos, maremotos. Mas hoje nevar, por exemplo, já não é um espanto em terras verde-amarelas, e o calor é desértico. Porém, a grande tragédia que vivemos também não é uma novidade: a relação humana.

A cada dia é possível perceber que as pessoas são as que menos importam. O que importa são os importados. As pessoas entram em um abismo profundo entre o que desejam e o discurso que fazem de como esperam que o mundo seja. Por exemplo, o jovem que diz que sua família é tudo o que lhe importa, mas jamais ouve as palavras de sua mãe ou visita sua frágil e delicada avó em sua residência vizinha. Os valores entraram em um curto circuito, pois os fios condutores das condutas e dos valores se tocaram, se separaram e se multiplicaram.

Acredito que família e educação não se dissociam. Educação é o processo de modificação do ser em seus inúmeros encontros durante a vida. A família é uma importante fonte da vontade de viver e um dos principais, senão o principal encontro na inauguração de um sujeito. Mas as famílias (enquanto referências) estão falindo, e o Brasil vive sua perversão em grande potência.

A frase balizar da perversão é: “eu sei, mas mesmo assim…”. Sabe-se o que se deve fazer, o que se deve evitar, o limite que deve se respeitar, mas mesmo assim há uma ultrapassagem. Há uma dificuldade terrível entre os pais para dizer não, para permitir que seus filhos possam errar. Pior ainda são aqueles pai-monhas que permitem que seus filhos realizem todos seus apetites insaciáveis, colaboram para tal e ainda justificam um comportamento desrespeitoso de seu eterno bebê com sentidos e explicações inesgotáveis. Negam o que podem ver na ponta de seus narizes e oferecem a si e aos seus filhos um mundo ilimitado que não existe. E esta cultura da perversão entra e sai pela porta das casas.

Ao andarmos nas calçadas, por exemplo, podemos resolver qualquer impasse, pular a necessidade de qualquer espera e o adiamento das satisfações. Para tudo se tem um jeito no Brasil, é o jeitinho brasileiro, orgulho de um povo. Mas e a ética? Vivemos em um mundo em que o importante é conseguir o que se precisa, e o dinheiro está concorrendo com a vida, com a família… tem mai$ valor. A família é a longo prazo, o gozo e os objetos de consumo são imediatos e ilimitados. A morte seria a única fronteira.

O cuidado com o outro está fadado ao fracasso com o jeitinho brasileiro. As relações humanas ficam em último lugar, e podemos ver que se investe hoje apenas naquilo que dá rápido e satisfatório retorno. Não um retorno afetivo ou se ‘pré-ocupando’ no que é necessário se fazer para que as coias possam dar certo (apesar de se saber exatamente o que é necessário), mas um retorno marcadamente corporal e financeiro.

O  público alvo de hospitais, das escolas e das comunidades ficam todos completamente de lado neste processo de perversão. O tratamento de saúde e nossos doentes, os alunos e o ensino, assim como as demandas comunitárias tornam-se segundo (terceiro, quarto) plano. Isto quando ocorre o processo inverso nestes lugares, como a morte por negligência em hospitais. Não importa o que se visa, seu oposto estará tão ou mais presente do que se espera. É necessário dar um jeito no jeitinho que produz atropelamentos cheios de danos irreparáveis, pois passa-se um por cima do outro. A perversão não está em outro plano do universo, mas em nosso dia-a-dia, em nós nos pequenos atos.

O que podemos fazer? Não sou pessimista, mas não acredito que isso tudo acabará um dia. Talvez mude suas formas. Aliás, o jeitinho brasileiro poderia ser uma forma de se exercitar nossa criatividade e não nossa perversidade, mas “dando um jeito” nos impasses o que nos levaria a inventar novas tecnologias verde-amarelas. E tudo a serviço de uma ética, de um coletivo.

E há muita gente que resiste a este histórico jeitinho de ser mudando suas perguntas. Mudando seus hábitos. Mudando suas desconfianças; mudando seus medos; mudando seus comportamentos. Nunca se acostumando, jamais se habituando… muito menos se adaptando! Mudando sua covardia e seus atos de coragem. Mudando…

E nunca é demais lembrar: ordem e progresso são inversamente proporcionais. Sem um mínimo de desordem, não se sai do lugar.