A escola e suas interfaces [Parte 2 – Final]

Pudemos perceber no texto anterior que as escolas têm diversas dimensões. Dimensões que dizem, que fazem menções aos múltiplos, que não se reduzem a uma só e mesma categoria. A escola acaba por escapar a esta tentativa de unificação, padronização, mas muitos ainda não entendem este ponto e sua importância, e esta é a tragédia. Com isto acabam por uma posição reacionária, como dito no texto anterior, pois reage-se para trás a partir de velhas fórmulas. E estas já não funcionam mais, ou tem sua eficácia com grandes prejuízos. As lentes para se ver o mundo mudaram. Elas não melhoraram ou se aperfeiçoaram, simplesmente mudaram. Aliás, o relacionamento entre os seres humanos, entre os jovens, entre os membros de uma família, já não é o mesmo.

Vamos nos servir de uma escola para crianças. Dou grande relevância às crianças, pois elas estão pela primeira vez no mundo, é uma experiência de profunda importância, por vezes decisiva,  e que levamos para o resto da vida. Com quem estes jovens se relacionam na maior parte de seus dias? Com outros jovens seria uma resposta possível, caso leve em consideração a internet também. Assim como podemos pensar em seus pais, mas estes também têm mais o que fazer: trabalham, estudam, não tem tempo para si, para o casal… estão cansados. Os professores são aqueles que têm, geralmente, a maior disponibilidade de tempo com as crianças Em termos afetivos, são os que mantêm maior contato com as palavras dos jovens, com suas reações com os colegas, com as fobias infantis, e, principalmente, no contato corporal. Seja no olhar, seja no abraço, o professor tem uma posição privilegiada. No processo de invenção de um ser, temos a indiscutível importância do professor.

É possível perceber que estamos pulando os muros da escola, fazendo um movimento de aproximação das famílias, professores, mas não poderíamos negligenciar os pediatras e pedagogos. Aliás, o pedagogo tem uma interessante origem. Em Roma, eram os escravos que levavam as crianças as escolas, sendo este o primeiro sentido do termo paedagogus. O sentido atual é do grego paidagogos, “aquele que ensina”. Pais significa “criança” e aguein “guiar”. Hoje é praticamente obrigatória a presença do pedagogo nas escolas. Também do grego, pediatra significa pais + iatrós: aquele que cura as crianças. São profissões de extrema importância, pois ajudam a interpretar os jovens, contribuir com as angústias dos pais, ensinar e aprender.

São grandes professores em um país que lhes oferece um espaço pequeno, muito pequeno. É importante levar em consideração a política deste país que pouco investe em educação e nas famílias. É de se questionar se a sociedade visa o progresso. Aliás, este termo é motivo de grande cautela, e a ordem é um modo de calar a diferença e a surpresa. Ergue-se a bandeira de ordem e progresso. O que esperar de uma sociedade em que estudar é um direito, mas que para isto nada é feito? Precisamos novas formas de se ensinar, novas formas de aprender, mas ainda não poderemos mudar enquanto um velho mundo continuar, aquele mundo em que as escolas públicas não são o foco pois não são lucrativa$. Não é um alvo visado, pois parece que o investimento em sujeitos e cidadãos pensantes não é nada lucrativo nem mesmo interessante.

Já as famílias também estão, junto à tecnologia da informática, mudando de configurações. O diálogo é coisa do passado. A sociedade está num ritmo muito mais auto-erótico: fone de ouvido, computadores, smartphones, redes sociais, trabalhos repetitivos, consumo desenfreado… Há menos troca de olhares e mais torpedos, há menos palavras faladas e mais recados, há menos toque e mais ‘não me provoque’, mais medo de se envolver e se afetar do que morrer.

É preciso saber ensinar sem precisar se explicar, dando espaço à curiosidade, ao enigma, à imaginação

Saber unir apenas pelo ressoar

Saber transmitir sem deixar de afetar

Estar próximo…

Pois mesmo a um palmo, ainda estamos muito distantes!

A escola e suas interfaces [Parte 1]

Há poucos anos entendi minha dificuldade em história. O que eu decorava em sala de aula não tinha nada a ver com a minha história. Nem mesmo relação alguma com a história de todas as crianças que assistiam, em uma época, a história de outra época. Ir as aulas era como realizar uma obrigação, era a realização de um desejo anônimo. As importantes marcas cronológicas da humanidade, os intermináveis nomes de reis e regiões, as geografias… tudo muito distante. Não apenas separados por anos ou por oceanos, mas do outro lado de nossas fantasias, do outro lado de nossos cotidianos. Na física tanto as cachoeiras, os trens e as bolas de canhão tinham seu sentido calculado no tempo e no espaço, mas em nosso tempo e em nosso espaço eles não tinham o menor sentido.

Há a importância de se entender a relação da massa com as forças; das células com as partículas; do frio com o calor; da guerra com a paz; da soma com a subtração; do branco e do preto; das palavras com suas devidas regras. Mas geralmente tudo isso, em sala de aula, fica automático, burocrático. E com quem aprendemos mais? Aliás, o que é ensinar/aprender?

Quando algo não faz sentido – ou melhor, não ressoa em nós – não estamos diante de algo que tomamos como da ordem de uma experiência em direção à mudança e invenção de si, pois a experiência exige uma novidade (se isto não acontece, eis o vício, como vimos em outro texto). Aprender, do Latim apprehendere, significaria “agarrar, tomar posse de”. Trata-se de se apropriar com a experiência, que requer, necessariamente, uma diferenciação, uma modificação de si. Parece que as escolas estão preocupadas apenas em tomar posse dos alunos e não de utilizar seus desejos. Ensina-se retroativamente, pois tenta-se ensinar à luz da época do professor, sem incluir o aprendiz no aprendizado.

Aos que tem por profissão os seres humanos: antes de tentar enxertar qualquer perspectiva sobre a juventude de hoje, saiba que não somos nós que os interpretamos, mas eles que nos interpretam. As dificuldades não estão apenas no conteúdo da aula, mas no manejo intelectual e afetivo, pois um professor torna-se inesquecível pelo encontro que estabelece com o aluno, pela forma como os envolvidos se ressoam, como se aproximam e se afastam, e não apenas pelo conteúdo que ensinou. Professor é aquele que aprende enquanto ensina. Caso tente ver o ano de hoje à luz de anos passados, a comparação o levará apenas à nostalgia e se depreciará o mixado mundo de hoje. Afinal, as formas de vida hoje estão atualizadas e mostram-se inéditas e sem padrão com séculos anteriores, sendo assim impossível prever as formas de vida de amanhã. Ficará para trás com ideais que não se sustentam mais, pois há novas formas de amar, educar, crescer, trabalhar, adoecer, envelhecer e morrer. #ficadica

Uma comparação entre escolas, hospícios e presídios ainda pode ser feita. Em todos as grades e as portas servem para que ninguém saia. Ainda não vi alguém ser impedido de participar de uma aula, desejada, por grades ou portas fechadas. E nestes presídios, o que toca seus habitantes? Importante ressaltar que não é em toda a escola em si que há um movimento de prisão de sujeitos uniformes (afinal usam uniformes). Fora de sala de aula, (e por vezes dentro dela) a “confusão” está armada, desnaturaliza-se o objetivo fundamental de uma escola, e nela todos estudantes se entendem mesmo sem trocar palavras. Neste ponto, há uma liberdade interessante, pois deixa de se aprender – decorar – e passa-se a sentir, tocar, expressar. Na escola também mudam-se as perspectivas, pois o jovem vê um mundo diferente do seu seio familiar, e isto pode ser de grande importância para seu desenvolvimento. Larga-se a chupeta, aprende que se não correr fica pra trás, que a falta e a saudade tem sua importância, que perder faz parte e ninguém vai aliviar seus defeitos, aprende-se sobre meninos e meninas, a ganhar e perder amigos, aprende a chorar e esquecer, aprende a ter que se virar com seu português, ou melhor, aprende a falar por si. Portanto, a escola tem interfaces, não é boa ou má por si só.

Além disto, há que se considerar as convivências dos jovens de hoje e os modos de se relacionarem. Transitaremos por estes caminhos num próximo texto, ao abordarmos a internet e a vida desapegada, auto-erótica, e as mudanças no tempo/espaço. Poucos têm a paciência de ler um texto longo como este, por exemplo. Em seguida, tomaremos partido dos professores de hoje, último investimento dos partidos brasileiros.

Por hoje chega, pessoal, hora do recreio!