Novas dimensões [Parte1 – Sobre o tempo]

No que diz respeito à nossa história, os modos de se produzir relacionamentos entre os seres humanos apresentam profundas alterações na contemporaneidade. A globalização produz novas formas de laço social: novas formas de relacionamento amoroso, novas formas de se relacionar com o corpo, com o consumo, com os pais, com o trabalho, com o outro, consigo e com a morte.

Em primeiro lugar, mudaram-se dois pontos que não me foi possível negligenciar para desenvolver este texto: o tempo e o espaço. Em síntese, o tempo mudou significativamente, a velocidade das coisas mudou, a velocidade da vida já não é a mesma, a duração de uma aquisição e sua descartabilidade está relativa, e nem mesmo podemos mensurar o tempo junto ao espaço em uma relação proporcional. Nos tempos de hoje, ler um texto é perda de tempo, pensar sobre a existência é coisa dos filósofos do passado, dar um bom dia e conversar com o porteiro é um atraso de vida, esperar por horas por uma compra é inadmissível para a (im)paciência de hoje. Há um novo tempo para a família, para o novo, para as crianças, para si…

Vale lembrar que a afetos mudam o tempo, basta observar, por exemplo, uma pessoa apaixonada. Ela acaba de se despedir da pessoa que ama e já sente sua falta. Ou quando diante de um acontecimento cheio de paixão ou de medo, o tempo vivido não condiz com o que se passou no relógio: “pareceu uma eternidade”.  Somos capazes de várias inversões. Mas o tempo de contato entre os seres humanos hoje é curto, curtíssimo. Dificilmente percebemos as pessoas se interessando uma nas outras, conversando olhando nos olhos sem cronometrar o encontro. Nem sequer temos tempo pra pensar em si e no mundo, e acabamos por aceitar a primeira ideia que nos vendem. Relacionamentos fast-food.

Raramente se lê um livro e, não menos impacientemente, não se vê um canal de TV sem passear pelos outros 76 canais finalmente considerados inúteis. Já tenho dúvidas de quem é o inútil nesta historia toda. Aliás, os que não sabem ler e considerados marginais da sociedade padrão, também vivem fortemente influenciados sob esta lógica. As coisas perdem valor rapidamente, e é tempo de consumir desenfreadamente. E onde está o valor das coisas, das pessoas? A vida ou o relógio? Opta-se pelo relógio. Um relógio que cronometra a vida mas não pode medir o tempo de um bom encontro apaixonado, por exemplo.

Não temos tempo nem mesmo pra morte, vive-se muito pouco a própria morte e a morte do outro. Vive-se a negação da morte, e são diversas as técnicas e tecnologias para tal. É contraditório dizer “viver a própria morte”, mas podemos pensar que morremos a cada dia em nossos excessos. Seu excesso é sua sentença. Também não nos despedimos bem de nossos mortos, e até a eles nós queremos consumir egoisticamente, manter vivo a cada custo, poder gozar mais deles. Por vezes tentamos substituir um morto por um produto. As crianças hoje são “poupadas” de saber perder, e assim preparamos adultos que não admitem frustrações, perdas, a incompletude, o provisório…

Não seria o tempo, num balé com os afetos, um dos responsáveis pelo valor das coisas? Não seria o fim de todas as coisas o motivo de seu valor? Por vezes mantemos um luto antecipado e desprezamos a vida, os outros, os objetos, depreciando a si em uma covarde depressão moral. Mas, invariavelmente, tudo acaba! No entanto, e justamente por acabarem, é que elas inventam seu valor. Diferentemente do que podemos encontrar nas ciências, eis um tempo sem referências. Podemos desistir de nos perguntar de qual é o verdadeiro valor da vida quando percebemos que é a vida que dá o valor às coisas.

Como nunca, vida e morte se conjugam, tempo e espaço se reinventam. Neste ponto daremos tempo ao tempo e no próximo texto daremos espaço ao espaço.

Até breve!

Psiquiatria e Psicologia: semelhanças e diferenças

psicologia e psiquiatriaHá uma dúvida simples acerca da diferença entre duas profissões nada simples. Qual seria a diferença entre um psicólogo e um psiquiatra? Um dos motivos da confusão ocorre desde o início da pronúncia. Ambos comportam um prefixo em comum, iniciam-se com “psi”. O prefixo psi origina-se em PSYKHÉ:  “mente, alma, espírito”. Dentre suas semelhanças, também podemos destacar a marginalidade destes saberes. A psiquiatria é uma área marginal dentro da medicina devido a sua ampla elaboração sem grandes fundamentos empíricos, o que não é garantia de uma (in)eficácia enquanto tratamento. A psicologia trata de comportamentos e processos de subjetivação. E ainda é marginal no âmbito da saúde no Brasil, além de  o psicólogo ser o último dos recursos, isto quando não se recorre a amigos ou igrejas, tratada como uma profissão que “só conversa”.

Deixo ao leitor o mérito de ir associando outros inúmeros fatores que aqui poderiamos abordar e se lembrar sobre essas profissões. Vamos, portanto, direto à dferenciação principal e um tanto reduzida, pois escrevo para leigos.

A confusão se dá no fato de que estas profissões intervém sobre a mesma coisa – atendimento terapêutico – de  modo diferenciado. Abordarei aqui apenas a psiquiatria e a psicologia clínica. A grosso modo: o psiquiatra é um médico, trata-se de alguém que fez medicina e especializou-se em psiquiatria. Ele acompanha uma pessoa com menos frequência, e muitas vezes apenas para alterar o medicamento e avaliar o quadro. Ou seja, ele trabalha com a parte corporal do psiquismo, medicando e, assim como o psicólogo, também se serve da palavra, orientando o tratamento visando um quadro normativo.

O psicólogo fez um curso de psicologia de, no mínimo, cinco anos. Ele trabalha o funcionamento do psiquismo, o comportamento, os processos mentais (sonhos, desejos, auto-imagem, medos, frustrações…) e de subjetivação. O psicólogo acompanha a pessoa semanalmente e não medica de maneira alguma. Elabora-se as questões com a palavra e atos. Vale ressaltar que por vezes é completamente possivel associar um psiquiatra (parte medicamentosa, corporal) e o psicólogo (parte da elaboração de sua vida ou de modificação de um comportamento) em um tratamento.

Decidido a um texto curto, não abordarei questões éticas e epistemológicas. Os acréscimos ao texto deixo aos leitores em seus frutíferos comentários.

Abraços!

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