Novas dimensões [Parte2 – Sobre o espaço]

Há anos o homem propõe um princípio, o da impenetrabilidade: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Eis que o tempo faz alguma sintonia com o espaço. Porém, há exceções a toda regra, e apresento pelo menos uma exceção que não deixa de ser regra: na vida globalizada, podemos ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Temos a experiência e mesmo a sensação corporal e virtual de estarmos localizados e produzindo duas ou três coisas ao mesmo tempo. Mas esse espaço já não é um espaço localizado e definido como em um mapa.

Ao mesmo tempo em que se pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, muitos seres humanos sentem-se sem lugar, invisíveis. Não são localizados pelo que são, mas pelo que produzem, em acordo com uma lógica de mercado. Além disso, são valorizados pelo que consomem e não pelo que pensam, por exemplo. Plugados e desplugados com a mesma fluidez. Dedicarei o terceiro texto desta série a estas formas de se produzir pessoas invisíveis e descartáveis mas, por enquanto, situemo-nos no espaço.

A distância do Brasil ao Japão já não é mais o mesmo. Japão não é longe, é logo ali! Você conversa com pessoas, envia arquivos, tudo em questão de segundos. O espaço mudou! Além disso, por vias aéreas você chega ao Japão em questão de horas. O tempo e espaço podem se conjugar e se separar. Você pode estar no Japão e ao mesmo tempo no Brasil, no trabalho e ao mesmo tempo com seus amigos, na rua e em casa. Além disso, para onde vão os arquivos que guardamos na internet, por exemplo? E qual estatuto de sua existência quando desligamos nosso computador? O tempo também é relativo, como precisamos no texto anterior.

Não há mais tanta definição dos lugares ocupados, diluindo-se os espaços. As grandes empresas não têm mais um dono, “O” dono. São vários donos, sem uma cadeira definida, sem uma sala, e até mesmo sem reconhecimento. Mudam-se mesmo as questões políticas, pois não há mais um responsável pelos acidentes de trabalho, pois se trata de uma marca registrada que responde por si. De um território métrico, podemos pensar num espaço que se virtualiza, formando uma interface ao invés de uma só face. Os tablets e smartphones são um grande exemplo disso, acabam por não se enquadrar em nenhuma outra categoria anterior a eles mesmos, participando nas novas configurações dos espaços e ampliando seu espaço no mundo. São interfaces, com inúmeras possibilidades em poucas polegadas.

E as pessoas? Estas se sufocam em seus espaços. Paradoxo: as casas, metricamente falando, estão cada vez menores para caber todo mundo. Os espaços, apesar de ampliados e alterados pela rede global, nem sempre se tocam. Eis a música dançada pelos brasileiros: “cada um no seu quadrado”. Não nos localizamos apenas por um mapa, mas perdemos velhas referências e ainda não soubemos lidar muito bem com as novas que precisamos inventar. Qual espaço que damos aos amores, às nossas tradições, ao que acreditamos – em contraste com o que fazemos –, à família, aos pais e filhos, aos prazeres, ao sexo? Qual espaço para o diálogo?

As maneiras de se relacionar mudaram, e mesmo dentro de casa, os espaços se alteraram. A sala é de estar, mas ninguém está lá. O quarto é pra descansar, mas tornou-se um regime privado. A mesa de encontro pro jantar é enfeite. A comida é comida a qualquer hora e em qualquer lugar e de acordo com o tempo que resta. Vivemos em alta velocidade e dificilmente é possível parar, a não ser que se adoeça.

Não sou pessimista, acho que a vinda das novas tecnologias, das novas formas de existência, dos novos tempos e espaços pode ser de uso favorável sim, mas aqueles que não souberem inventar e disso se utilizar, para trás vão ficar.

Mark Zuckerberg $oube o que fazer.

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