Novas dimensões [Parte3 – Final]

As formas de relacionamento nos tempos atuais estão demonstrando fatos interessantes. Como e com que fluidez as pessoas se conhecem e se deletam? Como são identificadas e negociadas em seus empregos? Quantas palavras trocam por dia? Quantos abraços sinceros? Quantos jantares em família? Como vão o sono e os sonhos?
Falar de tempo e espaço foi crucial para que chegássemos ao ponto de nos articularmos com as relações humanas. Afinal, as pessoas reclamam para si um tempo e um espaço. Reclamam um amor. Porém, sentem-se sozinhas mesmo na companhia de uma multidão. Muitas preferem a companhia de um livro, celular ou de um fone de ouvido, porque “não confiam em ninguém”. Nem em si mesmas!
Por um lado, não conhecer todas as pessoas é uma importante obra da sociedade humana. Seria muito exaustivo saber da vida ou ter que cumprimentar a todos dentro de um restaurante, por exemplo. A ignorância – o não saber – é uma defesa e importante condição para a felicidade. Mas, neste caso, não significa que se está a só ou sob o olhar paranóico de desconfiança para consigo e para o mundo.

Aquele que não confia em ninguém está preso em sua solidão, mas ainda colado no campo do outro. É sozinho – quase a imagem de um abandonado – pois é o outro que não vale nada. Mas é diferente do ser singular e solitário que faz um caminho de sucesso sem dar consistência à expectativa do outro, mas porque não há em seus meio de convivência algo parecido, por isto se destaca,  torna-se único e sozinho em sua invenção. Forma novos laços.

Resta-nos pensar: os laços estão fragilizados ou mudamos a forma de nos relacionar? Tudo depende de um referencial, e se entendermos que a internet não pode ficar de lado em nossa análise, entenderemos que os relacionamentos também podem ser virtuais. Vamos tomar ao pé da letra o que se faz na rede: deleta-se, adiciona-se, atualiza-se, transfere-e, conecta-se, falsifica-se (fake)… O que isto difere da “vida real”, em nossos relacionamentos dentro de casa, no emprego ou no âmbito sexual? Somando-se às mudanças de tempo e espaço, temos a dimensão da velocidade: tudo mais rápido! Fast-food! Imediatismos! Além disso, para um adulto existe a sensação de que a vida passa muito mais rápida do que para uma criança! Vale ressaltar, no mundo adulto, a lei da produção. Como ser pensante ou não: produza!

A tecnologia está em busca da velocidade perfeita, além dela também facilitar consideravelmente os acessos: basta clicar nos ícones, passar o cartão, etc. Há, contudo, um retrocesso no exercício do pensamento e raciocínio, no processo de descoberta por si só, no estímulo a criatividade, pois as coisas estão em mãos à hora que bem entendermos, sem a necessidade de se pensar muito, apenas consumir. Excessos! Muita intensidade e pouca duração. As músicas que fazem grande sucesso hoje são esquecidas em poucos meses.

E assim nos relacionamos com os objetos (virtuais ou não). Cansou, descartou! Porém, não é menos possível de se pensar o quanto os relacionamentos humanos entram nesta lógica. Além da lógica da desconfiança: cada um por si, gozo pra todos. Ou seja, lógica do consumo e do uso, pois “se você não importa pra mim, você é deslocado, deletado”. São as pessoas-objetos, catalogadas, vistas como produtos.  E deletar não é menos distante histórico-simbolicamente do morrer. Na ditadura deletava-se.

Vivemos em nosso tempo um novo modo de ser. Temos crianças e adolescentes novos. Adultos e idosos inéditos. Muitas das facilidades contemporâneas são admiráveis. Os modos de satisfações e sofrimentos estão atualizados.

Laços fragilizados e imediatos ou novos laços? Fica a questão…