Sobre a mentira e a fantasia (Parte 2 – Primeiro caso)

No último texto, três casos, não por acaso. Há algo em comum que os une e os separa. Vamos pensar um por um, começando, por convenção, pelo caso um.

Um caso: A pessoa traz uma história que “não condiz com os fatos reais” e procura se convencer de sua realidade, acreditar na própria mentira, investindo noutra pessoa (neste caso, um psicólogo) para dar um mínimo de consistência para tal. Tenta se convencer de sua própria mentira, o que não traz prejuízo algum ao profissional. Mas haveria, neste caso, uma tentativa de se ver de outro modo, ficando na dimensão do “como seria bom se fosse assim”. Um ideal que infiltra um modo de ver o mundo, como se abolisse a relação entre a realidade e o mundo dos sonhos idealizado (ideal este composto por elementos da economia, da sexualidade, do capitalismo, da família perfeita, etc). Porém, não se conforma com as formas e acaba por “fugir das regras”, mas acaba por apenas relatar ao profissional seu país de maravilhas.

É possível separar – e no mundo humano o impossível é uma questão de relatividade – o afeto do relato. Por exemplo, um acontecimento cheio de afetos pode ser dito como se nada demais tivesse ocorrido. Em um tratamento com um psicanalista, por exemplo, é possível fazer o encontro entre afeto e memória. Porém, isto modifica o corpo, as memórias, os desejos… necessariamente,  o sujeito muda em análise. Muda! Fica mudo, pois nada mais importante que palavras plenas e o silêncio. Um ato de coragem.

Além disso, este caso traz a noção de fantasia: a janela pela qual se vê o mundo. Mentir para si traz um pouco do desejo (nem que seja em sua forma invertida) e do ideal de si em prol do outro. O outro se faz presente o tempo todo, pois quando se trata do eu, o outro se faz presente. A linguagem – neste caso, o relato – tem a capacidade de mentir. Nunca se diz, no final das contas, o que se quer dizer. Porém, o que se diz não deixa de ter uma capacidade de invenção e mesmo de transformação. Além da responsabilização pelo que se diz, implicando-se nas falas, pois dizer é fazer, dizer é viver, é ser. Vale ressaltar que o limite entre os “fatos reais” e a fantasia são tênues, e isto abordaremos com carinho no próximo caso.

A diferença básica que penso trazer ao leitor é a seguinte:

A mentira é da ordem da perversão, mas quem mente não é, necessariamente, perverso.  E a fantasia é da ordem do desejo, mas nem todo desejo provém de uma fantasia, mas uma operação desejante é capaz de formalizar fantasias tão numerosas quantos seres humanos no mundo. Na fantasia o sujeito, de alguma forma, se satisfaz, se realiza. É singular pois o desejo não é compartilhado enquanto normativo, mas faz – da mesma maneira que desfaz – laços sociais duradouros.

Em ambos é preciso se suportar, e por vezes não nos suportamos e ficamos, literalmente, insuportáveis. Livrar-se da fantasia não é eliminá-la, mas reinventar a si e mundo, é descolar-se de si. É como uma pele que descola para uma nova nascer, fazer trocas, respirar, ser vista e poder ver.

Amigos, o importante é trocarmos pensamentos ou forçar o pensamento por meio de termos simples e acessíveis a todos, mas não menos pleno de sentidos. Para não mais me estender, deixarei em aberto o exercício do pensamento (em forma de comentários ou em forma de leituras e pensamentos anônimos). Um grande abraço e até o nosso próximo caso.

Sobre a mentira e a fantasia (Parte 1 – Três casos)

Um caso: Uma pessoa procura um psicólogo e conta sua história recente, narrando, como que restritamente, apenas suas últimas semanas ou mesmo os últimos anos. A pessoa está sempre com os devidos cuidados de contar os fatos de maneira a manter uma boa aparência, em narrativas de um mundo com sucessivas felicidades, apesar de odiar seu emprego e de acabar de sofrer uma perda. Separa o conteúdo do afeto de algumas experiências, deixando-as vazias.

Outro caso: Uma pessoa diz que tem uma namorada, e que ela o ama incondicionalmente. Essa pessoa tem seis anos de idade e jamais o aceitaram em namoro. Ele sequer teve a coragem e astúcia de fazer algum pedido. Vive em dois mundos ao mesmo tempo e eles pouco se chocam.

Último caso: Uma pessoa diz que é capaz de muitos feitos e se promove à custa de seus relatos e de suas – por vezes falsas – promessas. Trata os outros de maneira cordial ou da maneira que lhe convém, na tentativa de manter sua imagem impecável e seus interesses íntegros. Conta histórias que surpreendem e que acabam por afetar quem as ouve. Não teme prejudicar alguém. A cada dez frases, nove são, exageradamente, sobre ela. De resto inclui um comentário em forma de julgamento, ou para agradar o ouvinte.

Desta vez, antes de apresentar uma elaboração do tema, deixo-lhes a pergunta para abrir comentários e debates:

Quais a suas considerações? Como os três casos se combinam e se distinguem?