Sobre a mentira e a fantasia (Parte 3 – Outro caso)

O nosso segundo caso diz respeito a uma criança. A criança geralmente vive suas experiências enquanto “primeira vez”, e vive o tempo de outra maneira, pois não só os anos são longos, mas cada dia pode ser uma eternidade. Além disso, enquanto os adultos esbanjam ter experiência de vida, a criança responde com um gesto fantástico: ela pergunta quando não sabe. Ela experimenta o mundo com entusiasmo e medo, com curiosidade e risco, com liberdade e dependência. Mas esse mundo não é homogênio. O que um adulto vê de um ângulo, a criança vê de outro. E ainda mais: cada criança vê de um ângulo muito diferente.

É comum conhecermos o caso de uma pessoa que faz o relato de um pai ou de uma mãe que não corresponde ao pai ou mãe de carne e osso que ela tem. Como é o caso da mãe que não suporta a filha, mas que é tratada por esta mesma filha como se fosse a melhor mãe do mundo. Quem pinta esta cena e a vê de fora, se espanta com tamanha dedicação afetiva, pois numa lógica do senso comum, essa mãe nada fez por merecer esse amor sem equívocos. Mas não importa os pais que temos, por pior que sejam, são nossos pais. Por vezes, ao invés de odiar seu pai, o filho torna-se o pai, fica igualzinho. Cada um precisa saber viver a sua maneira, com o melhor ou com o menos pior que dispõe.

Pudemos perceber nos textos anteriores que há uma diferença básica entre mentira e fantasia. Na primeira você mente ao outro, na segunda você mente pra si mesmo, e acredita nisso. Parte da fantasia é consciente (e às vezes declaramos: “eu sei, mas não consigo mudar”), e outra parte é inconsciente. Podemos viver uma fantasia e um mundo singular pois nossos aparelhos perceptivos são atravessados não só de sinapses, do sistemos nervoso, mas pelos desejos, pelos medos, pelas palavras, pelo sistema social, pelo que se ouve, pelo que não se vê, pelo silêncio…

Uma criança pode se enamorar de outra criança simplesmente pelo desejo de ter a outra por perto, mas sem jamais declarar isso ou pedir em namoro. Diz, então, e sem dúvidas, que são namorados, só pelo fato de um ocupar um lugar fundamental na vida do outro, em uma espécie de espelho, uma espécie de companhia escolhida a dedo – mesmo que seja uma companhia à distância – , pois apenas um ser pequenino pode entender melhor do que ninguém um outro ser pequenino. E isto sem o recurso do diálogo, pois as crianças se comunicam afetivamente, corporalmente.

Neste caso, em particular, este enamoramento tem função importante no crecimento da criança, pois é uma forma de laço social, e isto realizamos a vida toda, uns mais e com mais desenvoltura, e outros menos. Somos seres em relação. Em relações! Mas os primeiros são insquecíveis e absolutamente sinceros, o que nos leva a entender que essa criança vive uma fantasia, e isto não pode ser encarado como uma mentira perversa, mas uma mentira que todo amor possui, aquela em que amamos no outro a si mesmo, em que amamos no outro aquilo que ele não tem, em que amamos no outro aquilo que ele não é.

Milenarmente se diz que precisamos amar o próximo como a si mesmo, mas nem sempre nos amamos e nem mesmo nos consideramos dignos disso, e assim damos todo o espaço ao ódio. Espaço importantíssimo, pois quem não conhece o ódio não pode dizer: isso sim, pra mim, é o amor.