Sobre a mentira e a fantasia (Final – Último caso)

Querendo ou não, percebemos com os últimos textos que há algo na fala que comporta uma série de questões. O que é necessário é uma presença fundamental: o outro. O outro é fonte e destino de muito do que enunciamos, desde as primeiras palavras de um bebê, de um enamoramento, até mesmo as palavras deixadas pelo suicida. Uma possibilidade que a fala dispõe é a mentira, e esta pode ser pensada enquanto convenção e não necessariamente algo de uma intenção individual, mas presente nas formas discursivas em geral.

A situação de que tratamos no último caso seria o de um sujeito que sabe o que é correto com toda a destreza possível do entendimento. Ele tem a clareza das convenções, dos pactos sociais, das seduções, e faz com que outro compre suas ideias. A consequência é que este acaba por pagar caro ao acreditar que este sujeito se venderia por tão pouco.  Por vezes paga com a própria ética, paga com o que não tem, e mesmo com a própria saúde. Mas o outro e sua condição de sujeito, frente ao sedutor, não são reconhecidos: o outro é um objeto.

Não se trata de classificar nosso último caso em perverso, ou um sujeito dito “político” para com o próximo, ou mesmo – de acordo com o português do dia-a-dia – um canalha. Mas é uma posição discursiva (visto ser uma forma de laço social) que encontramos em diversas instituições: a familiar, escolar, religiosa, prisional, etc… E claro, na linguagem em si. Em outros termos, sempre haverá essa peça nesses quebra-cabeças, independente de quem encarna. Pode ser qualquer um de nós. Em maior ou em menor escala.

O leitor pode pensar que isto se pretende uma teoria Universal, fixa e mensurável, mas situamos a questão, evitando os equívocos de se pensar em verdades. E neste último caso, o pronome eu é presente maciçamente.  Nada provoca mais cegueira do que ter olhos apenas para si mesmo. O mundo passa despercebido. O paradoxo é que o sujeito acaba por não se ver. No máximo se vê de outra forma a partir do olhar dos outros, dos comentários, posturas, etc. E olhe lá, se isso muda algo!

Este sujeito do último caso mente para si e para o outro, e tem plena consciência da maioria de seus atos. Porém, ele ainda não sabe muito bem o porquê disso tudo, não conseguiria parar por livre espontaneidade, apesar de que mudar não é opção, pois ele não se angustia com sua situação, mas leva, com propriedade, o outro à angústia. Promete, mas jamais se realiza!

E isto é o mais interessante: ele não pode existir sem o outro. O outro é sua condição, pois sozinho ele é um fracasso. Irônico, não!?

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