O luto de quem matou (Parte 2)

espelhoO texto anterior, escrito no dia dez de dezembro, foi uma abertura de um tema incomum: o luto de quem mata. Incomum, pois raramente temos a oportunidade de conhecer pessoas que participaram da morte de outrem e se aproximar de seus lutos, suas lutas. Este texto, evidentemente, é uma sequencia do primeiro. Mas como as continuidades nunca deixam de estar submetidas às contingencias, um acontecimento imprevisto, quatro dias depois, torna-se notícia mundial. E suas reverberações tocam nossa sequência.

Adam Lanza, no dia quatorze de dezembro, foi protagonista da morte de vinte e seis pessoas. O norte americano de vinte e quatro anos fez um percurso particular ao executar seu plano, o que mostra que na morte ainda existe (e resiste) alguma lógica. No caso dos suicidas, geralmente existe uma racionalidade admirável (e não menos angustiante) antes de realizarem o ato, pois se pondera a morte e a vida numa balança. Por incrível que apreçam, é a mesma lógica de uma decisão como em qual emprego ficar, ou se deve iniciar um namoro ou não: há pontos positivos e negativos.

Neste caso, Lanza teve um roteiro, na qual vou reduzi-lo ao máximo. Antes de mais nada – fato curioso – ele usou a identidade de seu irmão, Ryan Lanza, no dia do ato. Em seguida matou sua mãe, e seguiu em direção a uma escola de Newtown, onde matou – com disparos de arma de fogo – vinte crianças e seis mulheres adultas. Com a chegada da polícia ao local, efetuou sua última morte: cometeu suicídio.

Mesmo que as informações não estejam completamente fiéis ao caso, vamos ao que nos interessa. E não nos interessa categorizar o caso ou o rapaz, como toda uma literatura costuma fazer, buscando em casos inusitados como este – e inusitado significa “sem lugar” –, uma patologia pra compreender e principalmente prever o imprevisível que toma a sociedade e sua “ordem natural”. Interessa-nos menos ainda tentar encontrar as causas de tal acontecimento. Ocupa-nos o luto e o suicídio. Portanto, vamos ao suicídio!

Como dito, pretendo esclarecer o luto de quem foi protagonista da morte de outrem, mas este caso faz um nó em nossas análises: como pensar o luto de quem, ao final do ato, se mata? Seria adequado chamá-lo de a-tira-dor?

Para dissolver esse nó, partiremos da suposição de que a morte já era presença viva para o rapaz, e que era tão viva que ele foi de encontro a ela. A morte fazia referência a ele, sendo que o próprio termo suicídio tem origem no latim suicidium, formado por sui, “si mesmo”, mais caedere, “matar”. Além disso, há o fator cultural, pois sua modalidade suicida não foi, por exemplo, com bombas amarradas na cintura. Mas foi um suicídio que deforma o corpo em sua aparência, modalidade mais comum no lado masculino.

Outro fator a ser levado em consideração é o dele ter prolongado, estendido (socialmente, mundialmente falando) o alcance de seu suicídio, pois de certa forma, todo suicídio é endereçado. É pra lembrar e ser lembrado! Deixa-se uma carta, um telefonema, o lugar do ato pode fazer referência a alguém, morre-se por uma fé, pela pátria, visando outro mundo… etc.

Como eu disse anteriormente, este jovem rapaz trazia certa lógica (mesmo sendo uma lógica que tocava numa dimensão que exclui toda lógica possível, como no caso da morte) e de alguma maneira não esteve imune ao luto. Ou seja, e isso desfaz ainda mais o nó que encontramos: ele viveu um luto por antecipação. Trata-se do mesmo luto de quem não contempla algum acontecimento da vida justamente por sua provisoriedade, como deixar de admirar algo porque sabe que em breve vai acabar de maneira definitiva. Por outro lado, muitos de nós somos capazes de esperar, se vestir e se preparar para admirar os fogos do réveillon em família ou com amigos, mesmo que durem apenas dez minutos. Admirar o previsível e ainda extrair disto o valor das coisas. Seria a finitude que daria o valor das coisas.

Não há história sem sofrimento, e a deste rapaz não foi diferente. No entanto ele esgotou qualquer possibilidade de prolongar seu sofrimento e de viver a responsabilização por seus atos. Responsabilizar-se é saber que o que se diz e o que se faz no mundo não é sem efeitos, efeitos que temos que assumir. Não se trata de culpabilidade, mas de responsabilidade.

Afinal, e essa é nossa tragédia, sofre as dores da vida e as dores do luto apenas quem está vivo.

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O luto de quem matou (Parte 1)

Apolo e JacintoTodo mundo passa ou já passou por perdas significativas. Seja uma perda de emprego, perda de uma oportunidade, perda de um animal de estimação, término de um namoro, morte de um familiar, dentre outras. Nas decisões, por exemplo, temos apenas a certeza de que perdemos as outras opções, e que a escolha feita pode vir ao fracasso. Hoje vamos abordar apenas as perdas que deixam marcas, e para isto há uma condição fundamental a ser levada em consideração para que todas essas perdas façam todo sentido: o amor.

Amor ao trabalho perdido, à ideia perdida, ao companheiro perdido, à oportunidade perdida. Sem um mínimo de afeto entre os pares, essas rupturas não teriam significado. Naquilo que amamos nós investimos todo o corpo, todo interesse, imergimos no desejo, inventamos novas formas de ver o mundo. As coisas fazem sentido ou as “coisas de sempre” começam a ter novos sentidos. Porém existe uma economia dentre essas relações, a economia libidinal. A libido é a energia que junta os seres, é a energia do amor, e sua economia consiste na seguinte condição: o que invisto de libido em um, deixo de investir em outro. Claro, cada um tem sua própria forma de viver um amor, não é – e jamais será – uma matemática exata, pelo contrário. Cada par, cada casal, cria sua própria lógica.

Mas e quando perdemos um amor? Neste caso, nossa energia morre junto, uma parte nossa se vai, se desfaz. Há uma desintegração, morremos egoísticamente. Este processo é necessário, não é doença, não deve ser evitado: é o luto. No luto há o encontro da vida e da morte. E se faz necessário para que, com o tempo, aprendamos a sentir novas alegrias e novas dores, a investir no mundo sem ignorar nossos amores.

Toda uma psicologia está empenhada em trabalhar o luto de quem perde um amor, promovendo uma grande literatura acerca do tema. Mas sempre a partir de uma posição: o luto de quem perde um amor para a tragédia da vida (ou da morte, tanto faz!).

Meu propósito é virar as lentes que ocupam o estudo do luto e questionar: e o luto de quem é protagonista da morte de outrem? Neste caso, focarei atenção apenas à morte de seres humanos, pois, como vimos, podemos pensar em inúmeros lutos possíveis. A morte entre humanos tem considerações que gostaria de elucidar.

Ao invés de propor pensarmos no julgamento de qualquer espécie para o responsável pela morte de uma pessoa, ou de colocar toda uma sociedade e suas práticas institucionais em questão, levarei em consideração apenas que quem mata não está imune dos processos de luto e suas dores, e atravessa essa experiência de uma maneira muito particular. Já existem outras instituições responsáveis pelo julgamento (oscilando entre culpado, inocente e vítima ) de quem mata e literaturas que realizam a análise sobre as formas de tratamento destas pessoas; nós avançaremos por outras vias.

E não são vias menos fatais de se pensar, pois é preciso a morte e o luto de toda uma tradição de pensamento para que esse texto hoje seja possível.