O luto de quem matou (Final)

59No último texto nossa atenção inclinou-se para um caso de suicídio em particular: o homicídio seguido de um suicídio. Em muitos casos, apenas assim o objetivo se completa. Hoje completaremos nosso pequeno ciclo, pois abordaremos algo do que acontece com o luto de quem protagoniza (e agoniza) a morte de outrem.

Usei um exemplo de um americano no último texto, mas no dia-a-dia de um povo brasileiro – pois o povo brasileiro não é um só – a presença da morte é evidente e constante. “Mata-se por pouco”, no sentido de uma inversão de valores: Isso é um assalto, a bolsa ou a vida? A vida tem o valor de uma bolsa, e não precisa ser das mais caras, nem mesmo ter algum conteúdo em seu interior. Além disso, existem pessoas que matam e morrem – e não estou ao lado das metáforas – por amor, por vingança, por um ideal, por sexo, por ciúmes, por encomenda, por nada.

Porém, como dito no primeiro post do tema, aqui não faremos análises ou julgamentos acerca do fenômeno. Nem pretendo fazer uma teoria geral desse assunto, apenas apresentar o que aprendi em minha experiência clínica com pessoas que realizaram o ato ou participaram do homicídio. Mas o interessante é entender que grande parte dos considerados homicidas não ficam desligados, ou na linguagem popular, ficam “frios” diante de suas tragédias. Sua elaboração é tão complexa quanto a de qualquer outro ser humano. Afinal, os “frios” são considerados desumanos. Veremos que, na verdade, alguns deles vivem os afetos da maneira mais “pura” possível, como se não houvesse contraste: vivem, por exemplo, “só o ódio”.

Quando ainda estão em momentos recentes de seu ato, muitas pessoas que presenciaram a morte de outrem ou foram responsáveis por ela são acometidos por sintomas parecidos com os de quem sofre um luto: insônia, medo, insegurança, o mundo fica sem sabor. A vida fica sem sentido, senão o da morte, do vazio. Porém, geralmente apresentam uma experiência vívida da pessoa que veio a óbito em forma de alucinações visuais durante a noite, antes do adormecer e auditivas ao longo do dia. A linguagem, no sentido da elaboração da experiência por meio da palavra, ainda não é suficiente.

Comum também ouvirem frases por meio de alucinações, e são frases de dois tipos: de condenação ou de conforto. A primeira são percebidas enquanto perturbadoras e fazem com que a experiência subjetiva torne-se realizada no âmbito do corpo. A subjetividade é corporificada e o afeto da dor (seja da culpa, seja do gozo de matar alguém) pode ser encarnada em forma de autoflagelação. As frases de conforto, e geralmente as alucinações são com a imagem e voz de quem morreu, tem a função de aliviar o sofrimento, como se a pessoa estivesse, apesar de morta, perdoando tudo o que aconteceu.

No luto de quem perde alguém é comum a culpa ascender, mas com outras formas de expressão (em forma de pensamentos como, por exemplo, “se eu não tivesse feito aquilo, pode ser que ele estivesse vivo ainda”). Também é comum criar fantasias que envolvem a pessoa perdida, mas no caso do homicídio as alucinações tem prevalência sobre as fantasias. Também é comum nos enlutados as frases de conforto, mas elas têm ponto de partida em outro lugar, pois geralmente são os parentes quem as realizam.

Como sabemos, o tempo psicológico não é justaposto ao tempo cronológico, e a duração dos lutos pode ser sem prazo de validade. E muitos podem durar algumas semanas, como é o caso de quem já cometeu mais de um homicídio. Mas mesmo nesses casos, geralmente a primeira experiência é a que permanece mais vívida, como se fosse a mais recente. “Na minha primeira vez, tremendo, matei um homem, chorando, mas matei”.

Na verdade, há sempre um pouco de suicídio nos atos de homicídio, a cada morte o sujeito morre junto, e a elaboração do luto (tanto para quem mata, quanto para quem perdeu alguém) é uma tentativa de poder viver a vida apesar de…

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