Ontologia e poder

?????????????????????????????????Em diferentes épocas, o ser humano se organizou de modos diversos. No mundo contemporâneo há uma notável presença da mudança na cena da tecnologia, das instituições, dos saberes, dos relacionamentos amorosos, dentre outros. Na verdade, o mundo sempre mudou, a vida sempre viveu o incessante e repetitivo processo de surgimento e desaparecimento. A diferença é a seguinte: a velocidade em que a transformação acontece. Caso você não seja capaz de contemplar as variações, as novas existências, vai acabar ficando para trás e ainda resistir: “na minha época era bem melhor”.

As novas formas de ser se multiplicam cotidianamente, mas há sempre um modo vigente. Basta escutar o que alguns profissionais da área social dizem e ouvir o que deveria ser lastimável repetir: “a família hoje está desestruturada”. Ou seja, ainda vivem à luz de um ideal e operam sua profissão a partir de um modo vigente, um “como deveria ser”. Ficaram para trás ao se resguardarem em sua cristandade, e nisto se instala uma relação de controle de conduta, ou em outros termos, relações de poder. Vale ressaltar que esse é só um exemplo, não para reduzir, mas para facilitar a visualização daquilo que pretendo expandir.

Eu me referi às condutas, mas as condutas hoje não são necessárias ou enquanto critérios fundamentais para se condenar/absolver alguém (discurso jurídico) ou para diagnosticar (discurso médico). Não é preciso que se roube ou que se apresente sintomas para ser parte de uma categoria, e esta categoria ser parte de alguém. Categoria e categorizado se insinuam reciprocamente, se modificam, se afetam, resistem um ao outro, e mesmo se apropriam um do outro como numa entrega apaixonada.

Com tantas mudanças, mudam os paradigmas e as formas de lidar com o doente, com aquele que viola as leis sociais, com o que foge do esperado. Muitas vezes o vigente exclui ou elimina sua contradição. Isso se dá pois somos muito incompetentes para lidar com a diferença e a velocidade das mudanças que nós mesmos produzimos. Vale ressaltar que o vigente não é uma maioria em termos quantitativos, pois uma minoria (mulheres e crianças, por exemplo) pode existir em maior número e não ser o padrão social.

Retomando ao âmago do texto, não se exclui, condena ou categoriza simplesmente em acordo com as condutas – e essa é a questão – mas a partir de outro lugar: a ontologia. Nem mesmo é preciso ter nascido para ser objeto de discussão. Nem é preciso ter nascido para ser elemento de relações de poder. Nem mesmo para ser classificado. Repito o termo pois ele é nosso aliado para as análises: o ser. Um Estado pode cuidar, matar, tratar, prender um ser, não pela conduta, mas pelo ser de seu ser. A sociedade cria inimigos ontológicos. Um trabalho pode escravizar e gerar “zumbis”. E isso não depende do sujeito e seus atos, sua conduta, pois o ser é da ordem da ontologia, da particularidade. Não se avaliam as singularidades, o um-a-um, mas as particularidades (ontologia), realizando uma pulverização do ser.

Isso não é exclusividade do outro, dos especialistas, governantes ou do vizinho. Cada um de nós realiza o exercício do poder e das classificações cotidianamente. E desde a infância pulverizam-se os seres, pois ensinam para a criança que todo mundo é tio ou tia. Na escola as disciplinas (que termo interessante para se falar em poder) também se distanciam, como se fossem independentes, com alunos uniformes. Pulverizamos sempre que não singularizamos, pois um bebê em situação uterina pode ser considerado, e assim tatuado em sua existência, pela nova tecnologia de criação de seres (a genética), enquanto potencial esquizofrênico.

As tatuagens das palavras doem e são mais permanentes do que qualquer outra feita de agulha.

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