Desatando nós, todos nós!

imagesQuando um pai tem interesses sexuais em sua filha, no instante do interesse, ele deixa de ser pai para ser homem, e em alguns casos, agressor. Além de evidenciar a emergência de sua sexualidade, ele apresenta um interesse particular: uma criança. Isso também aponta que na sexualidade humana não há obviedade, não há uma justaposição ou mesmo uma relação padrão e pré-determinada entre os diferentes pares. Em outros termos, não é nada óbvio que homens se interessem por mulheres. Mas são poucos os que questionam esses acontecimentos, pois preferem matar a enxergar sua bissexualidade inconsciente.

No entanto, acredito que aqueles que se tornaram cegos para a diversidade da sexualidade humana são, necessariamente – e ao pé da letra – homossexuais, pois esperam um padrão homogênio de se relacionar: geralmente pregam (com pregos perfurantes) que a medida padrão é o casamento entre homens e mulheres.

Esse é meu primeiro texto da série “Desatando nós, todos nós!”, em que vou procurar criar disjunção no que se apresenta enquanto união. Daqui pra frente vamos operar as duas análises apresentadas no primeiro parágrafo. A primeira refere-se ao início do texto: ser pai/mãe é irredutível ao ser homem/mulher. A segunda análise apresenta uma espécie de disjunção entre o corpo e aquilo que ele elege enquanto objeto de satisfação.

Retomando o exemplo do pai que investe sexualmente em sua filha, já somos capazes de perceber que há uma disjunção entre ser pai e ser homem. Não há equivalência entre eles, pois se excluem mutuamente. A primeira análise pode nos ajudar a pensar em muitos elementos distintos. Afinal, há uma experiência que evidencia o inverso: quando uma mulher (ou um homem), por exemplo, se torna mãe e decide-se permanentemente pela maternidade, em detrimento da relação sexual que habitava seu lar. Outro exemplo é a polêmica que se produz principalmente a partir da reserva de direitos aos casamentos entre homens ou entre mulheres, unido ao fato desses casais decidirem-se pela adoção de um herdeiro.

A primeira objeção ao último exemplo diz o seguinte: Deus fez homem e mulher para serem pares perfeitos, e o que “sobra”, portanto, é imperfeito. A fórmula cristã torna homem equivalente à pai e mulher equivalente à mãe. Porém, o casamento entre homens e mulheres nunca foi e jamais será perfeito. Na verdade, nenhum par – e não importa a combinação que se faça – jamais será perfeito. E isto é ser demasiado humano; na verdade, um alívio!

A segunda objeção é o discurso científico: algumas psicologias, biologias e alguns estudos tradicionais em genética apontam a justaposição natural entre homens e mulheres, e somente assim a espécie poderia se reproduzir, se desenvolver e gozar de saúde. Aqui a reprodução e desenvolvimento entram no aspecto moral das relações de poder que se estabelecem.

A terceira é a objeção do Direito: as mulheres finalmente foram reconhecidas como cidadãs, e o casamento entre casais reconhecidos enquanto homossexuais apenas muito recentemente passou a ser possível, com ressalvas. Percebemos aqui que não há imparcialidade, mas interferências entre o Direito, a Ciência e a Religião. Íntimos como o peixe e o mar.

O que pretendo dizer, unindo as duas análises e sem mais me estender, é que a sexualidade não define o desejo de ser mãe. Ser mulher não pressupõe que essa deseje ser mãe, apesar da sociedade cobrá-la o tempo todo. Também não adianta se embasar na sexualidade para enfatizar ou argumentar que casais com o mesmo sexo biológico (ou mesmo uma pessoa solteira) não serão capazes de educar uma criança pra vida. Criou-se um nó cego. Enferrujado! Porém, e evito esse equívoco, também não é argumento para se dizer que serão suficientes ou melhores que outros casais, pois não estamos tomando partido. São questões sem respostas, que exigem invenções. Simplesmente não há fórmula na educação uma pessoa.

Além disso, muitos casais homossexuais ainda acabam por se modelar com o modelo reconhecido enquanto heteressexual: há sempre o homem do casal. E ao adotar uma criança, repetem um modelo padrão ao invés da invenção. E invariavelmente a criança um dia vai realizar uma pergunta filosófica e milenar (e isso toca na herança do discurso científico e religioso citados acima): Quem sou eu pra vocês? Quem me trouxe ao mundo?

Para lidar com a existência do outro, é preciso saber existir!

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