A justiça mata, mas a morte não faz justiça

justiçaVivemos em uma sociedade que nos deixa cada vez mais lúcidos acerca de suas verdades. Em uma sociedade que se torna àquilo que ela mais condena. Ou seja, condenamos no outro aquilo que há de mais íntimo em nós mesmos. Podemos perceber isso em suas formas de fazer lei e a tal da “justiça”. No entanto, parece que o desejo de destruição se sobrepõe a qualquer outra forma civilizada de ser.

Hoje foi anunciada a morte de uma criança de dois anos por atropelamento de caminhão, na qual o motorista foi detido pelos moradores locais que atearam fogo no veículo e mataram o motorista a facadas. Não cabe isolar esse fato, criar análises sobre o mesmo ou atribuir culpa. Seria insuficiente adotarmos essa via, pois ela nos conduziria ao erro, reducionismo e ao preconceito. Porém, trata-se do fato de que nada nesse mundo justifica a perversão dos homens, ao passo que nada será capaz de impedi-la.

Seguindo o pensamento do texto anterior, desatando nós, desarticularemos aqui as ligações estabelecidas – nesse caso, no sentido de se realizar a justiça. Em nossa história, em cada época ligamos um ato a uma consequência. Em outros termos: inventamos o crime prescrito em lei – e pela sociedade – e em seguida ligamos (quase que arbitrariamente) uma consequência ao que passamos a considerar enquanto ato criminoso. Nessa história, a ligação que parece mais resistir ao tempo é a do imediatismo por reciprocidade: a lei de Talião. Diz respeito a se condenar pelo idêntico, por olho por olho e dente por dente. No entanto, olho por olho só conduz a uma sociedade cega. Além disso, temos de ir para além da “cena do crime” e perceber o que está envolvido e dá condições para que situações como essa aconteçam. 

Nenhum ato é capaz de se desfazer, e essa é a tragédia da vida. Além disso, o ato não está livre da responsabilidade. Caso uma conduta leve alguém a óbito, não há arrependimento ou ritual que traga um corpo morto à vida biológica. E quando um ato é coletivo, parece não haver responsabilidade, autorizando o ato enquanto algo comum a todos por uma espécie de convenção sem acordo prévio. Sendo assim, tornamo-nos aquilo que nos era condenável, pois matando quem matou, viramos ao avesso nossa própria sombra, dominando o que nos dominou, sendo ativos naquilo que sofremos de forma passiva.

Vale ressaltar que a lei simbólica não serviria para nos impedir de agir em conformidade com os desejos e gozos, ela também nos protege da invasão do mundo, do outro. Pois, se a lei não desse um mínimo de coordenadas ao outro – e sabemos que o mundo é muito mais forte do que cada um de nós – não sobreviveríamos.

Não acho que o impulso à destruição cessará um dia, mas cabe a nós colocá-la em uma balança e saber o que fazer com ela:

Criar e inventar…

Ou, com a desgraça do mundo, lucrar!