Sobre o Sentido e a Significação

vazioÉ muito comum as pessoas se esforçarem o tempo todo em produzir sentido ou preencher as lacunas que a vida oferece. Criamos, assim, um mundo pleno de construções imaginárias, em que há uma mistura indissolúvel entre nossa realidade e a do outro, entre nossa janela da alma e a realidade das coisas. Podemos perceber que o sentido da vida tornou-se uma questão milenar nos povos, pois apenas para o sujeito humano a vida pode ser uma questão, pois, para os outros animais, a vida simplesmente se identifica a ela mesma. Afinal, um esquilo não perde sua identidade na relação com outro esquilo, não faz conferências para se organizar enquanto espécie e muito menos escreve para tentar interpretar a vida. Nós escrevemos. E esse é o nosso caso.

Alguns insistem em dizer que há um sentido perdido para a vida. Se ele está perdido, é justamente por existir e não existir ao mesmo tempo. Podemos oferecer inúmeros sentidos ao signo vida, seja a partir de um discurso, um delírio, uma construção poética. No entanto, parece que quando tentamos interpretá-la, assim como acontece com as obras de arte, é justamente ela que nos interpreta. Ou seja, nessa perspectiva não damos sentido para a vida, mas ela mesma que dá o sentido às coisas. O signo vida pode ter e dar sentidos, e em suas articulações produzir significações.

Nesse ponto faz-se necessária a distinção entre sentido, significação e significado. O primeiro seria as possibilidades que determinado signo pode formalizar em si, apresentando (um mesmo signo) infinitas possibilidades de sentido. O signo manga, por exemplo, pode ser referente à camisa, à fruta, um apelido, etc. A concretização de seu sentido irá depender de sua articulação com outros signos para, assim, criar uma significação por retroação.

A significação seria, portanto, um “fechamento” para o sentido de manga a partir da relação entre signos. Dizer manga, por si só e sem circunstâncias, não quer dizer nada, mas ao dizer “a manga está madura”, cria-se uma significação, uma espécie de gestalt ao conjunto, em que numa linearidade (tempo e espaço), os termos delimitam seu sentido numa consistência. O último termo, nesse caso “madura”, dá sentido ao primeiro, sendo que na vida não experienciamos isso de forma muito diferente quando, muitas vezes, as coisas só fazem sentido/significação muitos anos depois – quando novos elementos surgem. No entanto, isso não é algo restrito ao universal, pois podemos criar outros sentidos ao dizer “a manga está madura, acabou de passar pela puberdade”. Um termo biológico atribuído a uma fruta.

A significação é, portanto, singular a cada sujeito, cada povo, cada sonho ou pesadelo. Cada amor, cada medo, cada um cria relações que podem produzir inúmeras significações. Às vezes uma mesma frase possui duas ou mais significações. O significado, por outro lado, seria uma significação congelada, como podemos encontrar nos dicionários. Mas como os signos têm vida própria, os dicionários crescem cada vez mais. Lembrando que sentido, significação e significado são parceiros indispensáveis.

Mas existe aquilo que não tem sentido, que causa estranheza, angústia, ao mesmo tempo em que pode forçar a produção de sentidos. Uma verdadeira fonte de criação.  Caso a vida possua um sentido real, esse seria a própria morte. E essa, por sua vez, (re)cria sentidos, produz e dissolve significações, inquieta os significados.

Saber viver essa vida que nos tira a palavra, afirmando a existência do sem-sentido, é um desafio doloroso, trágico e com a força da criação…

…em contrapartida, viver uma vida buscando controlar, interpretar e completar as infinitas possibilidades de sentido das coisas não deixa de ser um exercício ainda menos torturante.

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