(Des)conhecer-ser: o estranho em nós

Ser EstranhoAté que ponto o ser humano é capaz de conhecer? Qual o limite do conhecimento? Ou melhor, o que é o conhecimento e como ele é possível? Claro, quem acompanha os rumos desse blog sabe que não há a menor pretensão em responder tais questões. Aliás, afirmar que uma resposta universal e idêntica a si mesma seja da ordem da impossibilidade, já seria uma resposta suficiente a nossos propósitos.

Vivemos num mundo de diferenciações. Ou seja, as coisas são marcadas pela oposição entre si, pelas diferentes formas de afetação em que, mesmo na repetição, há a diferença e não identidade. Sendo assim, como nos orientar diante de tantas excitações oriundas de nosso mundo interno e do mundo externo? Afinal, há um momento em que elas se confundem e formam um compromisso, que pode durar por toda a vida do sujeito ou mudar conforme as exigências da vida. Geralmente essa mudança é percebida como a “queda do porto-seguro”, erguendo novas construções diante da vida.

Orientamo-nos naquilo que temos fé, no sentido de investir naquilo que acreditamos e obter satisfação a partir disso. E geralmente o desejo e a fé ultrapassam os limites do conhecimento, pois desejamos aquilo que mal sabemos explicar. Quando nos deparamos com o desejo do outro, o julgamos como algo “fora da realidade” ou incompreensível, pois, de fato, o desejo não partilha tanto do senso comum, ele vai para além. Mas, de certa forma, ele nos orienta. Parte dele nós conhecemos, mas há sua face enigmática. No entanto, apesar de parecer surreal, ele se realiza na realidade.

Apesar da dose de ignorância que possuímos de nós e do outro, ele nos dá pista de quem somos. O outro tem função de espelho, mas há a experiência de viver como se fossemos um outro em nós. Não estou insinuando uma patologia como uma bipolaridade ou de “personalidades múltiplas”, mas afirmo que pouco conhecemos do mundo e principalmente de nós mesmos. Por vezes, diante de si ou do outro, nos apagamos. E nosso ritmo favorece que a gente se afaste mais ainda.

A filosofia recorreu ao conhecimento para dar respostas, a psicanálise apresentou a face da vida “sem-resposta”. As instituições são formas de organizar a humanidade (visto não sermos seres de instinto) ao mesmo tempo em que cada uma apresenta suas diferentes respostas. Mas as instituições estão cada vez mais afetadas e o ritmo que vivemos hoje produz cada vez mais conhecimento e, concomitantemente, menos conhecimento. A contradição é desfeita quando entendemos que ter mais respostas é a garantia de que não há uma resposta definitiva que possa dar o conforto definitivo. Estamos, portanto, fora da zona de conforto e isso prolifera as criações. Mas tudo tem consequências, e essa multiplicidade proliferam, na mesma medida, as angústias.

Nosso ritmo contemporâneo nos distancia. Conhecemos menos a nós mesmos, conhecemos menos os gostos dos filhos e os filhos sabem pouco da vida dos pais. Conhecemos uns aos outros apenas com a condição da distância, como é o caso da internet, em que vivemos mais a experiência da letra do que a da voz ou do olhar. Aliás, o anonimato é desejado e a vida privada cada vez mais consolidada.

Tudo depende do uso que fazemos das coisas. Não podemos culpar uma invenção humana (como é o caso da internet ou dos medicamentos) pelo uso que é feito dela. Não podemos culpar nossa ignorância com nossos filhos usando o trabalho como vilão da vida familiar. Não é admissível que o tempo seja fonte de sofrimento, pois burocratizamos nossos horários da mesma forma tanto para aquilo que declaradamente amamos quanto para o que, por insistência, odiamos. Conhecimento significa, na etimologia do termo, “junto” + “saber”.

Mas até que ponto estamos interessados em saber nossa verdade?

Até que ponto estamos dispostos a andarmos juntos?

Um tempo sem tempo

Monstro do tempo - jacek yerkaTemos tempo, sempre temos tempo pras coisas!

Temos tempo pra estudar, pra viajar, pra se encantar, se apaixonar, trabalhar, ler o que ainda não leu, cuidar de si ou de alguém que precisa de ajuda. Temos tempo pra ver aquela série completa de nosso seriado favorito, de ir no show de nossos sonhos, de terminar aquilo que falta pra mais um sucesso em nossas vidas.

Tempo de se dedicar a um curso, iniciar um projeto, tempo pra se encontrar com velhos amigos, tempo para conversar. Temos muito tempo pra fazer o que sabemos que precisa ser feito e em como ocupá-lo ou otimizá-lo com precisão! E sabemos, racionalmente, quando estamos “desperdiçando” nosso precioso tempo, enquanto poderíamos estar aproveitando-o de outra forma…

Mas não somos tão precisos, mesmo em nossa relação com o tempo, somos demasiadamente humanos. Por vezes desejamos parar no tempo ou ter tempo pra não ter que se preocupar com aquilo que nos ocupamos em todo nosso tempo.

O que temos feito com nosso tempo? O que o tempo tem feito conosco?
Damos tempo ao tempo e pedimos mais tempo…

mesmo quando está sobrando tempo!

Complexo de Pedrinhas no Caminho

Pedra no CaminhoO Maranhão foi palco de uma cena que, para muitos, foi considerada obscena: a mutilação/decapitação de três homens que se encontravam acautelados no complexo de Pedrinhas. Mutilar remete a retirar e ser obsceno é ir para além da cena, em que ambos ultrapassam certo limite. No entanto, alguns limites se perderam em sucessivas mutilações operadas em terras brasileiras, sendo a tragédia no Maranhão antecipada por elas e mesmo enquanto uma forma de coroamento da verdadeira intensidade que elas comportam – pois, por vezes, surgem veladas. Afinal, mutilamos o respeito, a ética e a moral com nossos excessos, tocando os limites entre a vida e a morte.

Por vezes negamos o que existe em dolorosa intimidade conosco, mas é difícil sustentar a negação de práticas e Unidades penitenciárias como o Complexo de Pedrinhas. Vale ressaltar que um campo social possui todo um cenário político e econômico que favorece a produção de realidades, práticas/condutas e sujeitos institucionalizados. A tragédia comparece como um testemunho extremo de uma das formas de funcionamento dessas realidades. As condições físicas das Unidades Prisionais, por exemplo, não deixam de ser uma forma privilegiada de se interpretar um povo. Afinal, prisão origina-se em prehendere, “agarrar”, termo que deriva tanto apreender quanto compreender.

Em bom português, escolas, presídios e hospícios servem para a normatização de sujeitos. Mas, dentre outras coisas, acabam por produzir sujeitos a partir de práticas uniformizantes, reguladoras e “ortopédicas”. No entanto, nenhum argumento é capaz de se sustentar ao afirmar que são práticas exclusivamente “intra-muros”, e que em outras instituições – como a família – isso jamais ocorre. Além disso, merece nossa atenção o fato de que as tragédias  –  de modo geral, no sentido mais amplo do termo  –  traz perdas e ganhos. Caso vivêssemos numa harmonia perfeita, jamais precisaríamos de tantos investimentos (do libidinal ao financeiro) para “reparar” nossas imperfeições. E se repetimos um mesmo erro ou um sofrimento (seja individual, em casal, em família, social ou histórico) significa que há algum ganho nessa repetição, mesmo que isso não seja aceito ou percebido de antemão pela racionalidade.

Vamos centrarmos no fato de que há uma contribuição heterogênea e coletiva para que a carne humana seja cortada em detrimento da civilidade da palavra. Afinal, estamos realizando cada vez menos o uso do simbólico, numa verdadeira decadência da palavra. Vale lembrar também a questão dos valores, em que a vida perde sua preciosidade para objetos cada vez mais descartáveis, para o dinheiro, ou mesmo se perde para o próprio nada.

Temos, também, as contradições de nosso povo: jovens que assumem todo um repúdio contra a imprensa em que ainda assim consomem televisores cada vez maiores; feministas que acordam as filhas para ajudar na limpeza de casa enquanto os homens dormem sem serem incomodados; defensores da não segregação que realizam comentários preconceituosos quando um desconhecido ocupa algum de seus espaços; religiosos que acolhem pessoas desde que não questionem ou representem ameaças à organização de sua igreja e fé; homens e mulheres que pedem respeito, mas nunca estão satisfeitos com a aparência, difamando qualquer “defeito” que encontrar no corpo alheio; pessoas que querem autonomia, mas não conseguem se descolar do campo da expectativa do outro; a comunidade que reclama da sujeira no espaço público, mas joga todo seu lixo nos mares, rios e ruas; o sujeito que quer ser ouvido apesar de nunca dar a oportunidade do outro se manifestar; o indivíduo que pede lei e ordem mas, quando lhe convém – na primeira oportunidade ou necessidade – procura dar um “jeitinho”; o trabalhador que reclama de seu salário mas é adepto fiel da preguiça e do insucesso; pessoas que amam comida caseira e acabam por degustar as melhores comidas “caseiras” apenas em restaurantes especializados; o sujeito que quer ser reconhecido enquanto nação apesar de não ter um só ídolo nacional; familiares que, apesar do laço, não conversam e vivem cada um em seu espaço, independente de horários em comum; pais que desejam ter mais tempo com seus filhos mas que convivem com outras prioridades; pessoas que defendem o fato de dinheiro não trazer felicidade mas são pontuais nas lotéricas ou buscam casamentos afortunados; pessoas em que sua defesa aos animais se resume a postar fotos de cães maltratados em redes sociais; pessoas que defendem a morte de bandido (“bandido bom é bandido morto”) e que acharam brutal o que fizeram no complexo de Pedrinhas, na busca de um culpado que não seu “eu”; aprende-se que pra vencer deve-se destruir os inimigos; mata-se em nome do bem; enfim, moralismos que não se sustentam. Nossa moral serve apenas ao outro e quando a questão surge nua e crua, não a percebemos como nossa. Tão íntimo que estranhamos.

Cobramos do outro o que nem sempre exigimos o suficiente de nós mesmos. E culpar o outro serve para definir aquilo que se passou enquanto obra exclusivamente dele, e que, mesmo que nosso “eu” desejasse aquilo que o outro foi capaz de cometer, nosso “eu” garantiria a preservação dos desejos em segredo para manter sua integridade.

Por fim, para realizar uma mudança estrutural, acredito que é necessário que sejamos parte integrante da estrutura. Não adianta criticar uma questão política (enquanto partidária ou enquanto relação de poder), por exemplo, se não participamos e fizermos parte dela mesma. Para mudar ou combater um sistema é preciso entrar no sistema. É preciso tocar em sua raiz, assim como aprendemos na informática e com os sistemas operacionais.

O que acontece nessas penitenciárias acontece todos os dias, em todos os lugares, em todo o Brasil, em maior ou em menor medida. A questão é que vivemos de maneira desmedida, para além de qualquer possibilidade de homeostase, com inúmeras palavras de ordem e sem entender o que pode vir a ser um progresso.

As Substâncias Psicoativas e Nós [Parte III – Final]

matrixAo longo de sua existência, o ser humano promove inúmeros encontros. Alguns deles são criativos, outros são destrutivos – apesar de criação e destruição serem processos indissociáveis. E assim, buscamos diferentes saídas para as dores de existir. Sendo assim, podemos tomar a angústia enquanto fonte de criação, pois sem dor não há movimento, transformação.  Ou, por outro lado, tomá-la numa taça de resignação e puro sofrimento. Essa última opção, uma espécie de covardia moral, ainda aponta para o fato de que também habita em nós o desejo de “não-sentir” a vida, de não querer saber, e tudo que puder anestesiar essa dor será muito bem-vindo.

Diante da angústia, um dos encontros possíveis seria com substâncias que podem alterar significativamente nossa experiência cognitiva, pois possuem propriedades suficientes e fundamentais para se integrar e alterar nosso organismo. Essa alteração pode ser fundamental no enfrentamento de uma situação complexa ou banal, mas pode ser ela mesma, o problema final. A angústia pode ser aliviada – como se precisássemos de um anestésico para algumas dores indissolúveis –, novas escolhas e trilhamentos podem ser realizados, ao passo que as mesmas SPA podem aumentar significativamente nosso sofrimento.

E como vivemos num mundo com objetos de satisfação inesgotáveis em oferta – num curto-circuito que facilita o acesso direto a esses objetos –, com inúmeras possibilidades de escolha, em relações provisórias em que há um desuso cada vez maior da palavra, as substâncias vêm assumindo maior papel de destaque. E os laços que realizamos com elas são tão criativos quanto destrutivos.

A decadência da palavra, por exemplo, está associada ao fato de haver pouco espaço ao dizer, pois enfrentar a tragédia de si mesmo é um ato de coragem, e poucos buscam dialogar com suas angústias. Além disso, o processo de análise do sujeito é longo e incerto, e a ação imediata proporcionada pelas substâncias psicoativas responde ao estilo de vida que vivemos, em que as coisas precisam ser imediatas, numa espécie de curto-circuito da satisfação, pois nunca temos tempo nem mesmo para nós mesmos. Além disso, diferente da dificuldade com o outro e com as palavras, as substâncias produzem um encontro “direto e reto”, sem rodeios, o que o torna, por vezes, o parceiro principal de muita gente como a gente.

No entanto, elas não trazem felicidade. O uso de álcool, por exemplo, não fará o sujeito feliz, pois é impossível programar a felicidade ou ingeri-la numa dose qualquer. O dito popular já observa isso muito bem ao dizer que consumir bebidas alcoólicas é, na verdade, “afogar as mágoas”. O álcool pode ser fundamental num evento socializa-dor, mas o uso de substâncias psicoativas tem um efeito no corpo, intransmissível ao outro. Para transmitir um sentimento ao outro fazemos o uso das palavras – e é o melhor que podemos fazer – mas a afetação em si, o que se sente, é vazio de palavras, é singular, único e corporal. Algumas substâncias isolam o sujeito de modo que seus laços sociais sejam desfeitos, mantendo-se fiel apenas a essa experiência de corpo (geralmente destrutiva), abrindo mão de qualquer outro vínculo, mesmo com as pessoas que anteriormente era capaz de amar. Vive, assim, numa relação de exclusividade com a substância.

Por fim, não podemos julgar as substâncias pelo uso que fazemos dela, como se pudéssemos condenar o sol por não aquecer adequadamente a terra, deslocando a verdadeira questão. Afinal, elas curam sintomas, contribuem com os diversos tratamentos, ajudam a acordar e a dormir – como é o caso do famoso cafezinho. No entanto, vivemos de excessos e numa experiência de solidão mesmo quando acompanhados. Vale ressaltar as doses de coragem que as SPA’s podem proporcionar, além de poderem se fazer presentes nas constantes exigências de sermos uma versão perfeita de nós mesmos em que, muitas vezes, acabamos por viver como se fossemos duas pessoas ao mesmo tempo. Além de tudo, temos que suportar todas as responsabilidades de ser-humano diante de nossas decisões.

Criamos e destruímos o tempo todo a nossa maior invenção:

Nós mesmos!