As Substâncias Psicoativas e Nós [Parte III – Final]

matrixAo longo de sua existência, o ser humano promove inúmeros encontros. Alguns deles são criativos, outros são destrutivos – apesar de criação e destruição serem processos indissociáveis. E assim, buscamos diferentes saídas para as dores de existir. Sendo assim, podemos tomar a angústia enquanto fonte de criação, pois sem dor não há movimento, transformação.  Ou, por outro lado, tomá-la numa taça de resignação e puro sofrimento. Essa última opção, uma espécie de covardia moral, ainda aponta para o fato de que também habita em nós o desejo de “não-sentir” a vida, de não querer saber, e tudo que puder anestesiar essa dor será muito bem-vindo.

Diante da angústia, um dos encontros possíveis seria com substâncias que podem alterar significativamente nossa experiência cognitiva, pois possuem propriedades suficientes e fundamentais para se integrar e alterar nosso organismo. Essa alteração pode ser fundamental no enfrentamento de uma situação complexa ou banal, mas pode ser ela mesma, o problema final. A angústia pode ser aliviada – como se precisássemos de um anestésico para algumas dores indissolúveis –, novas escolhas e trilhamentos podem ser realizados, ao passo que as mesmas SPA podem aumentar significativamente nosso sofrimento.

E como vivemos num mundo com objetos de satisfação inesgotáveis em oferta – num curto-circuito que facilita o acesso direto a esses objetos –, com inúmeras possibilidades de escolha, em relações provisórias em que há um desuso cada vez maior da palavra, as substâncias vêm assumindo maior papel de destaque. E os laços que realizamos com elas são tão criativos quanto destrutivos.

A decadência da palavra, por exemplo, está associada ao fato de haver pouco espaço ao dizer, pois enfrentar a tragédia de si mesmo é um ato de coragem, e poucos buscam dialogar com suas angústias. Além disso, o processo de análise do sujeito é longo e incerto, e a ação imediata proporcionada pelas substâncias psicoativas responde ao estilo de vida que vivemos, em que as coisas precisam ser imediatas, numa espécie de curto-circuito da satisfação, pois nunca temos tempo nem mesmo para nós mesmos. Além disso, diferente da dificuldade com o outro e com as palavras, as substâncias produzem um encontro “direto e reto”, sem rodeios, o que o torna, por vezes, o parceiro principal de muita gente como a gente.

No entanto, elas não trazem felicidade. O uso de álcool, por exemplo, não fará o sujeito feliz, pois é impossível programar a felicidade ou ingeri-la numa dose qualquer. O dito popular já observa isso muito bem ao dizer que consumir bebidas alcoólicas é, na verdade, “afogar as mágoas”. O álcool pode ser fundamental num evento socializa-dor, mas o uso de substâncias psicoativas tem um efeito no corpo, intransmissível ao outro. Para transmitir um sentimento ao outro fazemos o uso das palavras – e é o melhor que podemos fazer – mas a afetação em si, o que se sente, é vazio de palavras, é singular, único e corporal. Algumas substâncias isolam o sujeito de modo que seus laços sociais sejam desfeitos, mantendo-se fiel apenas a essa experiência de corpo (geralmente destrutiva), abrindo mão de qualquer outro vínculo, mesmo com as pessoas que anteriormente era capaz de amar. Vive, assim, numa relação de exclusividade com a substância.

Por fim, não podemos julgar as substâncias pelo uso que fazemos dela, como se pudéssemos condenar o sol por não aquecer adequadamente a terra, deslocando a verdadeira questão. Afinal, elas curam sintomas, contribuem com os diversos tratamentos, ajudam a acordar e a dormir – como é o caso do famoso cafezinho. No entanto, vivemos de excessos e numa experiência de solidão mesmo quando acompanhados. Vale ressaltar as doses de coragem que as SPA’s podem proporcionar, além de poderem se fazer presentes nas constantes exigências de sermos uma versão perfeita de nós mesmos em que, muitas vezes, acabamos por viver como se fossemos duas pessoas ao mesmo tempo. Além de tudo, temos que suportar todas as responsabilidades de ser-humano diante de nossas decisões.

Criamos e destruímos o tempo todo a nossa maior invenção:

Nós mesmos!

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