Complexo de Pedrinhas no Caminho

Pedra no CaminhoO Maranhão foi palco de uma cena que, para muitos, foi considerada obscena: a mutilação/decapitação de três homens que se encontravam acautelados no complexo de Pedrinhas. Mutilar remete a retirar e ser obsceno é ir para além da cena, em que ambos ultrapassam certo limite. No entanto, alguns limites se perderam em sucessivas mutilações operadas em terras brasileiras, sendo a tragédia no Maranhão antecipada por elas e mesmo enquanto uma forma de coroamento da verdadeira intensidade que elas comportam – pois, por vezes, surgem veladas. Afinal, mutilamos o respeito, a ética e a moral com nossos excessos, tocando os limites entre a vida e a morte.

Por vezes negamos o que existe em dolorosa intimidade conosco, mas é difícil sustentar a negação de práticas e Unidades penitenciárias como o Complexo de Pedrinhas. Vale ressaltar que um campo social possui todo um cenário político e econômico que favorece a produção de realidades, práticas/condutas e sujeitos institucionalizados. A tragédia comparece como um testemunho extremo de uma das formas de funcionamento dessas realidades. As condições físicas das Unidades Prisionais, por exemplo, não deixam de ser uma forma privilegiada de se interpretar um povo. Afinal, prisão origina-se em prehendere, “agarrar”, termo que deriva tanto apreender quanto compreender.

Em bom português, escolas, presídios e hospícios servem para a normatização de sujeitos. Mas, dentre outras coisas, acabam por produzir sujeitos a partir de práticas uniformizantes, reguladoras e “ortopédicas”. No entanto, nenhum argumento é capaz de se sustentar ao afirmar que são práticas exclusivamente “intra-muros”, e que em outras instituições – como a família – isso jamais ocorre. Além disso, merece nossa atenção o fato de que as tragédias  –  de modo geral, no sentido mais amplo do termo  –  traz perdas e ganhos. Caso vivêssemos numa harmonia perfeita, jamais precisaríamos de tantos investimentos (do libidinal ao financeiro) para “reparar” nossas imperfeições. E se repetimos um mesmo erro ou um sofrimento (seja individual, em casal, em família, social ou histórico) significa que há algum ganho nessa repetição, mesmo que isso não seja aceito ou percebido de antemão pela racionalidade.

Vamos centrarmos no fato de que há uma contribuição heterogênea e coletiva para que a carne humana seja cortada em detrimento da civilidade da palavra. Afinal, estamos realizando cada vez menos o uso do simbólico, numa verdadeira decadência da palavra. Vale lembrar também a questão dos valores, em que a vida perde sua preciosidade para objetos cada vez mais descartáveis, para o dinheiro, ou mesmo se perde para o próprio nada.

Temos, também, as contradições de nosso povo: jovens que assumem todo um repúdio contra a imprensa em que ainda assim consomem televisores cada vez maiores; feministas que acordam as filhas para ajudar na limpeza de casa enquanto os homens dormem sem serem incomodados; defensores da não segregação que realizam comentários preconceituosos quando um desconhecido ocupa algum de seus espaços; religiosos que acolhem pessoas desde que não questionem ou representem ameaças à organização de sua igreja e fé; homens e mulheres que pedem respeito, mas nunca estão satisfeitos com a aparência, difamando qualquer “defeito” que encontrar no corpo alheio; pessoas que querem autonomia, mas não conseguem se descolar do campo da expectativa do outro; a comunidade que reclama da sujeira no espaço público, mas joga todo seu lixo nos mares, rios e ruas; o sujeito que quer ser ouvido apesar de nunca dar a oportunidade do outro se manifestar; o indivíduo que pede lei e ordem mas, quando lhe convém – na primeira oportunidade ou necessidade – procura dar um “jeitinho”; o trabalhador que reclama de seu salário mas é adepto fiel da preguiça e do insucesso; pessoas que amam comida caseira e acabam por degustar as melhores comidas “caseiras” apenas em restaurantes especializados; o sujeito que quer ser reconhecido enquanto nação apesar de não ter um só ídolo nacional; familiares que, apesar do laço, não conversam e vivem cada um em seu espaço, independente de horários em comum; pais que desejam ter mais tempo com seus filhos mas que convivem com outras prioridades; pessoas que defendem o fato de dinheiro não trazer felicidade mas são pontuais nas lotéricas ou buscam casamentos afortunados; pessoas em que sua defesa aos animais se resume a postar fotos de cães maltratados em redes sociais; pessoas que defendem a morte de bandido (“bandido bom é bandido morto”) e que acharam brutal o que fizeram no complexo de Pedrinhas, na busca de um culpado que não seu “eu”; aprende-se que pra vencer deve-se destruir os inimigos; mata-se em nome do bem; enfim, moralismos que não se sustentam. Nossa moral serve apenas ao outro e quando a questão surge nua e crua, não a percebemos como nossa. Tão íntimo que estranhamos.

Cobramos do outro o que nem sempre exigimos o suficiente de nós mesmos. E culpar o outro serve para definir aquilo que se passou enquanto obra exclusivamente dele, e que, mesmo que nosso “eu” desejasse aquilo que o outro foi capaz de cometer, nosso “eu” garantiria a preservação dos desejos em segredo para manter sua integridade.

Por fim, para realizar uma mudança estrutural, acredito que é necessário que sejamos parte integrante da estrutura. Não adianta criticar uma questão política (enquanto partidária ou enquanto relação de poder), por exemplo, se não participamos e fizermos parte dela mesma. Para mudar ou combater um sistema é preciso entrar no sistema. É preciso tocar em sua raiz, assim como aprendemos na informática e com os sistemas operacionais.

O que acontece nessas penitenciárias acontece todos os dias, em todos os lugares, em todo o Brasil, em maior ou em menor medida. A questão é que vivemos de maneira desmedida, para além de qualquer possibilidade de homeostase, com inúmeras palavras de ordem e sem entender o que pode vir a ser um progresso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s