Sobre a transferência – Parte II – Final [Glossário de Psicanálise]

quebra-cabeca-de-rostoO analisando coloca o analista em determinada posição, e isso pode ocorrer antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente. Acaba por endereçar um significante ao analista e, assim, produz uma demanda, como é o caso de esperar que o profissional saiba de como tratar suas dores, ajudar nos laços com seus amores ou curar seus temores. Ou seja, o analisando, no encontro com o analista, encontra aquilo que ele mesmo demanda e não algo do analista em si (a pessoa do psicanalista e sua personalidade, seus traumas, desejos, história de vida). Ressalvo que, na experiência clinica, o analisando – sem nada ou pouco saber de seu analista – cria laços afetivos de cuidados para com ele, enamoramento, visadas eróticas, dentre outras, como presentificação de si e não apenas por atributos pessoais do analista.

Não podemos reduzir uma transferência enquanto esse simples laço entre sujeitos, numa espécie de interação intersubjetiva, como se houvessem duas subjetividades em jogo. Isso seria conflitante ou mesmo não permitiria a emergência de algo novo, pois seria uma disputa entre dois “eu’s”, assim como acontece num diálogo ou numa conversa cotidiana. Seguindo esse raciocínio, vamos apontar, brevemente, o que a transferência não é.

Ninguém vai ao analista para conversar. Tanto o “di”álogo quanto a “inter”subjetividade, situam mais de um, em que é necessário que ambos mantenham sua condição de ser em detrimento do outro, garantir sua existência. Nesse caso, haveria um conflito em que ambos entram numa situação dialética, sendo que tal conflito pode se desenvolver para um confronto, em que haveria, por fim, a prevalência e dominação de um sobre o outro. No confronto há apenas um vencedor.

No entanto, numa situação transferencial não há conversa (em que cada um fala de si), ou um sujeito orientando outro (como no caso de um pai), ou mesmo ensinando (como numa função de professor). É de profunda importância ressaltar que, além disso, o analista não é um investigador ou um juiz que esta em busca de uma confissão das formas de gozo, ou inclinado em promover uma cura ou “endireitamento” do sujeito considerado desviante. A análise não é moral nem dual, mas ética, e segue a lógica do desejo. Trata-se de uma lógica que em nada se assemelha aos exemplos apresentados acima.

Retomando o inicio de nosso texto, o que o analisando busca é algo que ele mesmo oferece, em que o saber que fica em jogo está ao lado do sujeito e não do analista. Essa relação produz a existência do inconsciente e o discurso do analista favorece que isso ocorra. Se há relação, portanto, essa relação é do analisando com o próprio inconsciente que comparece na análise. Encontra-se com suas fantasias, seus gozos, na forma de se colocar em relação ao outro, em relação à angústia. Quando encontra-se diante do inconsciente há, necessariamente, uma mudança, uma transformação.

O sujeito muda sua posição, e aquilo que era certeza perde sentido, as fantasias sofrem fraturas, as acusações ao outro e ao mundo são transformadas, a responsabilidade é retomada, o sucesso é menos temido, além de perceber sua participação na arquitetura de seus fracassos. Algumas peças se encaixam e fazem sentido (“como nunca pensei nisso antes”) e outras são desatadas permanentemente, e já não servem mais de apoio (tanto para as queixas quanto em relação às fontes de sofrimento). Aliás, é muito difícil viver sem o recurso da queixa e a análise contribui para suportar o sucesso e abrir caminhos para a felicidade.

Portanto, a transferência surge como um amor a um outro que pode saber algo sobre mim que nem eu, nem ninguém, “soube saber” até então. Vale ressaltar que muitos amores são inaugurados assim, e a força desse amor é a força que contribuiu para uma análise que contemple o inconsciente, uma transformação do sujeito, força que oferece coragem para confiar num desconhecido.

Esse desconhecido, na verdade, não é o analista, mas algo que encontramos em nossos sonhos a cada noite…

O desconhecido em nós é tão íntimo que em apenas algumas situações podemos reconhecê-lo, assumi-lo (mesmo que para negá-lo em seguida) e deixar de estranhá-lo. A análise é privilegiada e permite que nos relacionemos com o inconsciente por meio do amor, o que não deixa de convocar o ódio por diversas vezes. O amor/ódio e a morte tem seu aliado em nós, e por isso não conseguimos viver amor puro ou simplesmente desejamos estar vivos a qualquer custo. Quando esses aliados podem surgir em análise, a partir do analista, temos o inconsciente como nosso aliado.

A análise é como uma batalha…

em alguns atendimento vencemos e noutros perdemos…

Mas a batalha, em si, possui um percurso em que, invariavelmente, não se sai o mesmo.

Sobre a transferência – Parte I [Glossário de Psicanálise]

llEsse texto é dedicado a um fenômeno que comporta uma enorme simplicidade, ao mesmo tempo em que é da mais alta sofisticação e complexidade. Talvez “fenômeno” não seja o termo mais adequado ao tratamento desse conceito – que apresenta uma dedicada explicação a uma questão fundamental no tratamento psicológico – mas vamos tratá-lo assim apenas para explorar o que nos propomos e assim alcançar nossos objetivos.

Em primeiro lugar, trata-se de um termo psicanalítico, cunhado como transferência. Em segundo lugar, em se tratando de um discurso particular (a psicanálise), a transferência na forma que abordaremos ocorre apenas onde há psicanálise, sendo negada (apesar de reconhecida) ou mesmo foracluída (como se nunca tivesse sido sequer inscrita ou escrita) em outros campos do saber. No entanto, Freud a conceitua para responder a problemas reais de sua clínica.

Ressalvo que – abrindo mão de um tratamento histórico do conceito – desejo apenas esclarecer a questão da transferência para estudantes, profissionais e interessados na área, esforçando-me, assim, em manter uma linguagem mais comum sem perder a profundidade que o conceito apresenta. E esse primeiro texto será apenas uma apresentação para um maior aprofundamento numa segunda parte. Enfim, vamos ao que nos interessa..

Quando uma pessoa busca um atendimento com um (a) psicanalista (geralmente com formação médica ou graduação em psicologia), já se estabelecem as condições fundamentais para que a transferência se inicie, mesmo antes de ser realizado o primeiro contato – por telefone ou pessoalmente. Em outros termos, cria-se uma condição em que se demanda (e se oferece) ao analista um determinado saber sobre si, na qual o próprio sujeito desconhece.

Diante do analista, a pessoa se posiciona (discursivamente) a partir de sua própria singularidade, em que seu corpo e seu dizer são, até certo ponto, organizados numa rede de determinações inerentes a cada sujeito. O que interessa ao trabalho do profissional é que o sujeito presentifique – em atendimento e sem saber que sabe – seus sintomas, suas loucuras, seus desejos, medos, enfim, sua forma de se relacionar e de gozar das coisas e do outro. Em outros termos, a transferência permite que a pessoa adote uma postura, endereçada ao analista, em forma de repetição e deslocamento, atualizando seu inconsciente diante do analista. Em primeiro lugar, repetição no sentido de presentificar o sintoma junto ao analista (e assim o analista faz parte do sintoma, contribuindo na força da intervenção). Em segundo lugar, deslocamento, pois são posições do sujeito adotadas em outros campos da vida, como no trabalho, na escola, nos relacionamentos amorosos e eróticos. A transferência é uma abertura para o sistema inconsciente, uma janela para a fantasia e as imagens vividas pelo sujeito.

Os exemplos podem reduzir o pensamento e criar vícios nos leitores pouco acostumados com o assunto e com os termos (inconsciente, gozo, sintoma, etc.) mas, feita a ressalva, podemos nos servir deles para explanar o fenômeno e aprofundarmos alguns conceitos ao longo de novos textos.  Enquanto exemplo, podemos pensar no caso do sujeito que planeja seus dias e suas horas categoricamente, sendo pontual a cada atendimento. Ou mesmo o caso de um sujeito marcado profundamente pela perda ou por se colocar enquanto incapaz de realizar seus desejos e projetos e que acaba por desistir de sua jornada de análise “no meio do caminho” sem aviso prévio. Um analista atento pode até mesmo prever esse novo fracasso no currículo do sujeito. Também podemos usar o exemplo do sujeito que vive exigindo provas de amor e,  em transferência, pode testar seu analista o tempo todo com sua questão inconsciente: “você me ama de verdade?”. Ou ainda se apaixonar eroticamente pelo analista, independente de suas atribuições físicas.

Podemos notar, diante disso, a importância de um analista, pois este se torna parte da vida do sujeito, ao ponto do analisando sonhar com e para ele. Portanto, ser odiado, amado, investido sexualmente, ser esquecido, abandonado, situado enquanto amigo, enquanto professor, pai, mãe, conselheiro, etc., são posições que devem ocorrer, e é de fundamental que isso aconteça. Apenas assim o analista consegue ser parte das formações inconscientes do sujeito mesmo que, em todas as hipóteses possíveis, o analista jamais venha a (co)responder corporalmente ou discursivamente. O analista apenas faz semblante a essas questões/posições, pois caso incorpore ser pai, por exemplo, a análise tenderá ao fracasso e desembocará em outro âmbito, por vezes favorecendo os sintomas e angústias.

A transferência é um motor fundamental para análise, ao mesmo tempo em que pode ser a responsável pelo seu fracasso, cabendo ao analista interpretá-la.

Invariavelmente, a fonte da transferência é a mesma fonte de cura conhecida pela humanidade: o amor.

Vamos prosseguir, num próximo momento, com um pouco mais de profundidade.

Espero que o leitor tenha feito transferência com o texto e prossiga, com amor, nessa jornada.

Até logo,
Alexandre V. Brito

Considerações sobre os primeiros contatos entre o psicólogo clínico e o paciente

11Há uma grande lacuna entre o despertar do desejo de se iniciar uma análise e iniciar, de fato, uma análise ou um atendimento clínico com um psicólogo. Existe, nesse processo, um movimento de aproximação e distanciamento dessa necessidade, que se torna algo central ao mesmo tempo em que se torna margem, onde é experimentado o medo e a coragem. Um motivo que podemos usar como suporte para elucidar esse desafio é o tenebroso encontro com o inesperado, mesmo que um trabalho psicológico não conduza ao caos. Outro fator que podemos citar é relacionado ao âmbito do sintoma, em que há uma queixa bem delimitada em relação ao mesmo, ao passo em que ele se repete e o sujeito se abraça ao que é vivido enquanto sofrimento e dor. Por vezes, manter o sintoma é prioridade e prevalece diante da demanda de tratamento.

Vamos supor, no entanto, que uma pessoa resolve fazer uma ligação para psicólogo/psicanalista. Há um relacionamento prévio com essa área do saber, mas geralmente o sujeito se antecipa e busca solução para suas questões de outras formas, seja numa tentativa de elaboração, pensamentos noturnos, conversar com pessoas próximas, escrever, confessar… Realiza, enfim, um telefonema ao profissional, o que não significa que ainda estabeleceu uma ligação, aproveitando os múltiplos sentidos que esse termo possa comportar.

Em relação ao profissional, criaremos a situação hipotética de que seja um jovem profissional que esteja recebendo suas primeiras demandas. Há toda uma preocupação de como proceder e, principalmente, como não fazer. O que dizer, como dizer, se falou demais ou se falou de menos, se foi simpático demais ou sério demais. Por fim, se acolheu bem o sujeito em demanda. Entre receber o telefonema e a pessoa comparecer pessoalmente e estabelecer determinada ligação há uma grande lacuna. Algo acontece nesse “entre-meio” que foge aos domínios tanto do profissional quanto do sujeito.

Na demanda, o sujeito busca, quando tem a opção da escolha, alguém de determinado gênero, de determinado campo teórico, e diante de um nome (uma indicação) em mente já inicia, por mais estranho que isso possa parecer, um processo de análise e entra, assim, num terreno que favorece o estabelecimento da transferência. Aliás, vamos contemplar a transferência a partir do próximo texto desse blog.

O medo e expectativa de ambos (profissional e analisando/paciente) é legítimo ao mesmo tempo em que podem servir apenas para contribuir para que a preocupação seja elevada ao estatuto de responsável pelo fracasso. Por outro lado, essa preocupação (verdadeira pré-ocupação) demonstra que estão determinados a fazer um bom trabalho.

O profissional não se interessa em encontrar uma cura, pois nem sempre há um a doença e não podemos reduzir a dor de existir a uma patologia. E se há muito sofrimento, esse não deve ser eliminado sem antes ser decomposto, contemplado, interpretado, um sujeito implicado… Isso alivia a exigência de curar a todo custo: o furor curandi. Vale ressaltar aos jovens profissionais que a maior dificuldade não é relacionada com a doença enquanto corpo estranho, mas o estranho da relação transferencial, lidar com o fato de se tornar parte do sintoma do outro, em suportar ser “abandonado” cedo ou tarde (o sucesso do paciente é justamente não precisar mais do analista), em não seduzir ou ser seduzido imaginariamente, em cuidar com o cuidado de não sair de sua posição de analista.

Eis a maior dificuldade: o fenômeno da transferência. Afinal, hoje as pessoas tem acesso a tanta informação e ao saber que já chegam ao consultório com o sintoma já bem interpretado e elucidado. Por fim, ressalvo apenas isso: acolher, saber que ambos estão ali pra contemplar o fracasso e sua complexidade, que não devem temer o sucesso e sua responsabilidade, criar implicações, caminhar junto sem guiar num vínculo que não é orientado pela moralidade, criar um contrato de horário, estabelecer o valor e as formas de pagamento, estabelecer regras (como é o caso de avisos prévios diante da impossibilidade de se realizar a sessão), o sigilo, etc. Deixar que o paciente (que em nada é passivo) ser ativo nesse processo e usar os erros a favor de ambos.

Afinal, os pacientes nos ensinam e a partir deles que encontramos nosso saber, pois o próprio Freud descobriu a necessidade de saber escutar quando no inicio da psicanálise uma paciente (Emmy) lhe impôs, em outros termos: “Deixe-me falar, Dr. Freud, não me interrompa!” A palavra tornou-se preciosa, enquanto que outra paciente (Anna O.) nomeava esse tratamento enquanto “cura pela palavra”. O paciente indica os caminhos e o profissional o implica nessa caminhada e a mantém viva.

Não há garantias nesse encontro. Não há manuais que respondam ao que se deve fazer quando se está pessoalmente com o sujeito. Não há regras do que se deve dizer e como dizer, tanto da parte do analista quanto do paciente.

Em análise a vida se repete.

Há o enigma do princípio de tudo…

sem a previsão de um fim.

O jogo dos números e os números em jogo na vida cotidiana

pi_31Para além de nosso nome próprio, criamos uma série de outras ordenadas na qual nos identificamos. O ato de se identificar não seria tomar algo como igual, mas a experiência de mudança de si a partir de um elemento novo (e externo) que, a partir de então, faz parte de nosso ser. Identificar é tomar algo do outro como nosso em que há, necessariamente, uma mudança, uma transformação. Nesse caso, a etimologia do termo identidade (idem = “o mesmo”) não vai oferecer suporte ao nosso pensamento, senão para indicar o oposto. Afinal, nunca somos os mesmos, mesmo quando nos repetimos, seja no amor, seja no ódio, há sempre um elemento novo.

Algumas pessoas, desde a tenra infância, não se interessam ou encontram dificuldade com os números. Mal são defrontadas com os números e já se desmoronam diante das leis da matemática – e por extensão, diante de outras leis também. Por outro lado, existem pessoas que gozam dos números como se fossem verdadeiros jogos de desafio, ou conseguem tirar do número propriedades para além de uma lógica tradicional, encontrando um para além da lógica e da exata. Mas, não importa sua relação com as matemáticas, viver uma identidade a partir dos números é comum a todos.

Somos ordenados, por exemplo, a partir de números em filas de atendimentos e avaliados em notas ao final de uma prova. Mas, de forma ainda mais duradoura e determinante, nos identificamos com o número de nossa idade, sendo que ele causa grandes efeitos sobre o corpo e na maneira de vermos a vida. O aniversário de quinze anos, ou os trinta anos, a maioridade, a terceira idade, enfim, são todos números carregados de afetos e de sentidos, produzindo transformações, mesmo que todo ser vivo envelheça na mesma medida. Além disso, há os números de nosso corpo, ou as “medidas”, como é o caso do sapato, da cintura, da altura, dos tamanhos, sem contar com os números atribuídos aos objetos, como é o caso do cálculo de calorias a serem in(corpo)radas. Seja vivido como externo (como no caso dos objetos) ou a partir de nosso mundo interno, o destino é sempre o corpo.

O número organiza nossos minutos, os dias que se foram e os que ainda nem vieram. Organiza nosso calendário em meses e anos. Os números também estão presentes por vinte e quatro horas nos cálculos e nas trocas materializados em dinheiro. Podemos usar como protótipo disso uma viagem a ser realizada. A partir dela calculamos os centavos, os dias, os ganhos e as perdas, as horas, os pesos, o troco, a gasolina, o número de pares, as peças de roupa, a chegada e a partida, etc. Enfim, números e mais números.

A vida também é quantificada e colocada numa balança, em que há pesos e medidas. Calculamos e recortamos a vida o tempo todo. Vale ressaltar que a partir assim produzimos formas de organização (como é o caso do tempo de mandato de um agente político, os prazos em geral, o trabalho, os jogos ou uma viajem); criamos sujeitos (como a adolescência e a terceira idade e as leis que regem cada uma delas); criamos sujeitos-identidades (como podemos perceber em manuais psiquiátricos em que cada transtorno recebe uma letra e um número); criamos agendas (como a convenção de calendários); fé (numerologia ou jogos de azar); sentenças (do tempo de castigo de pais sobre os filhos à decisão de um juiz); criamos leis e saberes… enfim, a lista seria interminável!

Um movimento duplo, pois criamos e somos criados por esses processos, e com eles identificamos e somos identificados. Mas nem tudo se resume ao número. Ele opera em nós, mas criamos caminhos para além das leis, das regras, da justa medida, desnaturalizando os números numa lógica inexata. Não é a toa que a própria especulação econômica envolvendo a bolsa de valores tem como pilar a subjetividade.

O número é uma invenção humana e um belo testemunho de nossa potência de simbolização. No entanto, tudo que entra e sai da máquina da subjetividade sofre transformações, por vezes, irreversíveis.