O jogo dos números e os números em jogo na vida cotidiana

pi_31Para além de nosso nome próprio, criamos uma série de outras ordenadas na qual nos identificamos. O ato de se identificar não seria tomar algo como igual, mas a experiência de mudança de si a partir de um elemento novo (e externo) que, a partir de então, faz parte de nosso ser. Identificar é tomar algo do outro como nosso em que há, necessariamente, uma mudança, uma transformação. Nesse caso, a etimologia do termo identidade (idem = “o mesmo”) não vai oferecer suporte ao nosso pensamento, senão para indicar o oposto. Afinal, nunca somos os mesmos, mesmo quando nos repetimos, seja no amor, seja no ódio, há sempre um elemento novo.

Algumas pessoas, desde a tenra infância, não se interessam ou encontram dificuldade com os números. Mal são defrontadas com os números e já se desmoronam diante das leis da matemática – e por extensão, diante de outras leis também. Por outro lado, existem pessoas que gozam dos números como se fossem verdadeiros jogos de desafio, ou conseguem tirar do número propriedades para além de uma lógica tradicional, encontrando um para além da lógica e da exata. Mas, não importa sua relação com as matemáticas, viver uma identidade a partir dos números é comum a todos.

Somos ordenados, por exemplo, a partir de números em filas de atendimentos e avaliados em notas ao final de uma prova. Mas, de forma ainda mais duradoura e determinante, nos identificamos com o número de nossa idade, sendo que ele causa grandes efeitos sobre o corpo e na maneira de vermos a vida. O aniversário de quinze anos, ou os trinta anos, a maioridade, a terceira idade, enfim, são todos números carregados de afetos e de sentidos, produzindo transformações, mesmo que todo ser vivo envelheça na mesma medida. Além disso, há os números de nosso corpo, ou as “medidas”, como é o caso do sapato, da cintura, da altura, dos tamanhos, sem contar com os números atribuídos aos objetos, como é o caso do cálculo de calorias a serem in(corpo)radas. Seja vivido como externo (como no caso dos objetos) ou a partir de nosso mundo interno, o destino é sempre o corpo.

O número organiza nossos minutos, os dias que se foram e os que ainda nem vieram. Organiza nosso calendário em meses e anos. Os números também estão presentes por vinte e quatro horas nos cálculos e nas trocas materializados em dinheiro. Podemos usar como protótipo disso uma viagem a ser realizada. A partir dela calculamos os centavos, os dias, os ganhos e as perdas, as horas, os pesos, o troco, a gasolina, o número de pares, as peças de roupa, a chegada e a partida, etc. Enfim, números e mais números.

A vida também é quantificada e colocada numa balança, em que há pesos e medidas. Calculamos e recortamos a vida o tempo todo. Vale ressaltar que a partir assim produzimos formas de organização (como é o caso do tempo de mandato de um agente político, os prazos em geral, o trabalho, os jogos ou uma viajem); criamos sujeitos (como a adolescência e a terceira idade e as leis que regem cada uma delas); criamos sujeitos-identidades (como podemos perceber em manuais psiquiátricos em que cada transtorno recebe uma letra e um número); criamos agendas (como a convenção de calendários); fé (numerologia ou jogos de azar); sentenças (do tempo de castigo de pais sobre os filhos à decisão de um juiz); criamos leis e saberes… enfim, a lista seria interminável!

Um movimento duplo, pois criamos e somos criados por esses processos, e com eles identificamos e somos identificados. Mas nem tudo se resume ao número. Ele opera em nós, mas criamos caminhos para além das leis, das regras, da justa medida, desnaturalizando os números numa lógica inexata. Não é a toa que a própria especulação econômica envolvendo a bolsa de valores tem como pilar a subjetividade.

O número é uma invenção humana e um belo testemunho de nossa potência de simbolização. No entanto, tudo que entra e sai da máquina da subjetividade sofre transformações, por vezes, irreversíveis.

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