Considerações sobre os primeiros contatos entre o psicólogo clínico e o paciente

11Há uma grande lacuna entre o despertar do desejo de se iniciar uma análise e iniciar, de fato, uma análise ou um atendimento clínico com um psicólogo. Existe, nesse processo, um movimento de aproximação e distanciamento dessa necessidade, que se torna algo central ao mesmo tempo em que se torna margem, onde é experimentado o medo e a coragem. Um motivo que podemos usar como suporte para elucidar esse desafio é o tenebroso encontro com o inesperado, mesmo que um trabalho psicológico não conduza ao caos. Outro fator que podemos citar é relacionado ao âmbito do sintoma, em que há uma queixa bem delimitada em relação ao mesmo, ao passo em que ele se repete e o sujeito se abraça ao que é vivido enquanto sofrimento e dor. Por vezes, manter o sintoma é prioridade e prevalece diante da demanda de tratamento.

Vamos supor, no entanto, que uma pessoa resolve fazer uma ligação para psicólogo/psicanalista. Há um relacionamento prévio com essa área do saber, mas geralmente o sujeito se antecipa e busca solução para suas questões de outras formas, seja numa tentativa de elaboração, pensamentos noturnos, conversar com pessoas próximas, escrever, confessar… Realiza, enfim, um telefonema ao profissional, o que não significa que ainda estabeleceu uma ligação, aproveitando os múltiplos sentidos que esse termo possa comportar.

Em relação ao profissional, criaremos a situação hipotética de que seja um jovem profissional que esteja recebendo suas primeiras demandas. Há toda uma preocupação de como proceder e, principalmente, como não fazer. O que dizer, como dizer, se falou demais ou se falou de menos, se foi simpático demais ou sério demais. Por fim, se acolheu bem o sujeito em demanda. Entre receber o telefonema e a pessoa comparecer pessoalmente e estabelecer determinada ligação há uma grande lacuna. Algo acontece nesse “entre-meio” que foge aos domínios tanto do profissional quanto do sujeito.

Na demanda, o sujeito busca, quando tem a opção da escolha, alguém de determinado gênero, de determinado campo teórico, e diante de um nome (uma indicação) em mente já inicia, por mais estranho que isso possa parecer, um processo de análise e entra, assim, num terreno que favorece o estabelecimento da transferência. Aliás, vamos contemplar a transferência a partir do próximo texto desse blog.

O medo e expectativa de ambos (profissional e analisando/paciente) é legítimo ao mesmo tempo em que podem servir apenas para contribuir para que a preocupação seja elevada ao estatuto de responsável pelo fracasso. Por outro lado, essa preocupação (verdadeira pré-ocupação) demonstra que estão determinados a fazer um bom trabalho.

O profissional não se interessa em encontrar uma cura, pois nem sempre há um a doença e não podemos reduzir a dor de existir a uma patologia. E se há muito sofrimento, esse não deve ser eliminado sem antes ser decomposto, contemplado, interpretado, um sujeito implicado… Isso alivia a exigência de curar a todo custo: o furor curandi. Vale ressaltar aos jovens profissionais que a maior dificuldade não é relacionada com a doença enquanto corpo estranho, mas o estranho da relação transferencial, lidar com o fato de se tornar parte do sintoma do outro, em suportar ser “abandonado” cedo ou tarde (o sucesso do paciente é justamente não precisar mais do analista), em não seduzir ou ser seduzido imaginariamente, em cuidar com o cuidado de não sair de sua posição de analista.

Eis a maior dificuldade: o fenômeno da transferência. Afinal, hoje as pessoas tem acesso a tanta informação e ao saber que já chegam ao consultório com o sintoma já bem interpretado e elucidado. Por fim, ressalvo apenas isso: acolher, saber que ambos estão ali pra contemplar o fracasso e sua complexidade, que não devem temer o sucesso e sua responsabilidade, criar implicações, caminhar junto sem guiar num vínculo que não é orientado pela moralidade, criar um contrato de horário, estabelecer o valor e as formas de pagamento, estabelecer regras (como é o caso de avisos prévios diante da impossibilidade de se realizar a sessão), o sigilo, etc. Deixar que o paciente (que em nada é passivo) ser ativo nesse processo e usar os erros a favor de ambos.

Afinal, os pacientes nos ensinam e a partir deles que encontramos nosso saber, pois o próprio Freud descobriu a necessidade de saber escutar quando no inicio da psicanálise uma paciente (Emmy) lhe impôs, em outros termos: “Deixe-me falar, Dr. Freud, não me interrompa!” A palavra tornou-se preciosa, enquanto que outra paciente (Anna O.) nomeava esse tratamento enquanto “cura pela palavra”. O paciente indica os caminhos e o profissional o implica nessa caminhada e a mantém viva.

Não há garantias nesse encontro. Não há manuais que respondam ao que se deve fazer quando se está pessoalmente com o sujeito. Não há regras do que se deve dizer e como dizer, tanto da parte do analista quanto do paciente.

Em análise a vida se repete.

Há o enigma do princípio de tudo…

sem a previsão de um fim.

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