Sobre a transferência – Parte I [Glossário de Psicanálise]

llEsse texto é dedicado a um fenômeno que comporta uma enorme simplicidade, ao mesmo tempo em que é da mais alta sofisticação e complexidade. Talvez “fenômeno” não seja o termo mais adequado ao tratamento desse conceito – que apresenta uma dedicada explicação a uma questão fundamental no tratamento psicológico – mas vamos tratá-lo assim apenas para explorar o que nos propomos e assim alcançar nossos objetivos.

Em primeiro lugar, trata-se de um termo psicanalítico, cunhado como transferência. Em segundo lugar, em se tratando de um discurso particular (a psicanálise), a transferência na forma que abordaremos ocorre apenas onde há psicanálise, sendo negada (apesar de reconhecida) ou mesmo foracluída (como se nunca tivesse sido sequer inscrita ou escrita) em outros campos do saber. No entanto, Freud a conceitua para responder a problemas reais de sua clínica.

Ressalvo que – abrindo mão de um tratamento histórico do conceito – desejo apenas esclarecer a questão da transferência para estudantes, profissionais e interessados na área, esforçando-me, assim, em manter uma linguagem mais comum sem perder a profundidade que o conceito apresenta. E esse primeiro texto será apenas uma apresentação para um maior aprofundamento numa segunda parte. Enfim, vamos ao que nos interessa..

Quando uma pessoa busca um atendimento com um (a) psicanalista (geralmente com formação médica ou graduação em psicologia), já se estabelecem as condições fundamentais para que a transferência se inicie, mesmo antes de ser realizado o primeiro contato – por telefone ou pessoalmente. Em outros termos, cria-se uma condição em que se demanda (e se oferece) ao analista um determinado saber sobre si, na qual o próprio sujeito desconhece.

Diante do analista, a pessoa se posiciona (discursivamente) a partir de sua própria singularidade, em que seu corpo e seu dizer são, até certo ponto, organizados numa rede de determinações inerentes a cada sujeito. O que interessa ao trabalho do profissional é que o sujeito presentifique – em atendimento e sem saber que sabe – seus sintomas, suas loucuras, seus desejos, medos, enfim, sua forma de se relacionar e de gozar das coisas e do outro. Em outros termos, a transferência permite que a pessoa adote uma postura, endereçada ao analista, em forma de repetição e deslocamento, atualizando seu inconsciente diante do analista. Em primeiro lugar, repetição no sentido de presentificar o sintoma junto ao analista (e assim o analista faz parte do sintoma, contribuindo na força da intervenção). Em segundo lugar, deslocamento, pois são posições do sujeito adotadas em outros campos da vida, como no trabalho, na escola, nos relacionamentos amorosos e eróticos. A transferência é uma abertura para o sistema inconsciente, uma janela para a fantasia e as imagens vividas pelo sujeito.

Os exemplos podem reduzir o pensamento e criar vícios nos leitores pouco acostumados com o assunto e com os termos (inconsciente, gozo, sintoma, etc.) mas, feita a ressalva, podemos nos servir deles para explanar o fenômeno e aprofundarmos alguns conceitos ao longo de novos textos.  Enquanto exemplo, podemos pensar no caso do sujeito que planeja seus dias e suas horas categoricamente, sendo pontual a cada atendimento. Ou mesmo o caso de um sujeito marcado profundamente pela perda ou por se colocar enquanto incapaz de realizar seus desejos e projetos e que acaba por desistir de sua jornada de análise “no meio do caminho” sem aviso prévio. Um analista atento pode até mesmo prever esse novo fracasso no currículo do sujeito. Também podemos usar o exemplo do sujeito que vive exigindo provas de amor e,  em transferência, pode testar seu analista o tempo todo com sua questão inconsciente: “você me ama de verdade?”. Ou ainda se apaixonar eroticamente pelo analista, independente de suas atribuições físicas.

Podemos notar, diante disso, a importância de um analista, pois este se torna parte da vida do sujeito, ao ponto do analisando sonhar com e para ele. Portanto, ser odiado, amado, investido sexualmente, ser esquecido, abandonado, situado enquanto amigo, enquanto professor, pai, mãe, conselheiro, etc., são posições que devem ocorrer, e é de fundamental que isso aconteça. Apenas assim o analista consegue ser parte das formações inconscientes do sujeito mesmo que, em todas as hipóteses possíveis, o analista jamais venha a (co)responder corporalmente ou discursivamente. O analista apenas faz semblante a essas questões/posições, pois caso incorpore ser pai, por exemplo, a análise tenderá ao fracasso e desembocará em outro âmbito, por vezes favorecendo os sintomas e angústias.

A transferência é um motor fundamental para análise, ao mesmo tempo em que pode ser a responsável pelo seu fracasso, cabendo ao analista interpretá-la.

Invariavelmente, a fonte da transferência é a mesma fonte de cura conhecida pela humanidade: o amor.

Vamos prosseguir, num próximo momento, com um pouco mais de profundidade.

Espero que o leitor tenha feito transferência com o texto e prossiga, com amor, nessa jornada.

Até logo,
Alexandre V. Brito

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