Afinal, o que é a liberdade?

liberdadeTodos os santos dias somos desafiados pela liberdade. Não há nada mais humano do que a liberdade, uma poderosa fonte de angústias, ao mesmo tempo em que pode ser fonte de felicidade. A rotina – no sentido mais comum do termo – não só produz sofrimento, como vive acompanhada deste estranho elemento. Afinal, se não existe liberdade, não há as inúmeras alternativas que se abrem, incessantemente, em nosso dia-a-dia. Por vezes, a repetição não é uma repetição do mesmo – como se fosse uma condenação – mas uma verdadeira manifestação do esmo. A repetição seria, portanto, uma forma de contemplar a diferença, de afirmar a liberdade, em contraste com a ociosidade. Somos confrontados pela liberdade quando, na repetição, percebemos que poderíamos não estar ali, ou que a ordem das coisas pode tomar novos rumos – mesmo que sejam rumos opostos – quando podemos decidir entre estar vivos ou mortos. Liberdade nada mais é que a capacidade de desvio, de ação, reversão, inversão, expansão. A liberdade é fonte de invenção!

Sendo assim, a liberdade nos angustia por oferecer a possibilidade de se realizar escolhas, e essa possibilidade se abre numa repetição incessante sem a qual estaríamos fadados a monotonia, ou seja, viver num só tom. No entanto, nos arranjos da vida, não vivemos num só tom ou numa mesma sintonia, mas numa heterogeneidade de tons e de possibilidade. Não há angústia em outros reinos animais e isso, por mais estranho que isso possa parecer aos olhos da moral, torna a vida ainda mais interessante. Afinal, os animais são marcados por instintos que merecem o reconhecimento de toda sua complexidade, e no mundo humano existem forças que também tentam regular a conduta e o ser (em referência a sua ontologia) por meio da moralidade. Do latim libertas, ser livre é a origem, por excelência, da liberdade. Diante de tantas possibilidades, é impossível desvincular a liberdade da questão da responsabilidade. Quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade.

Trata-se, portanto, de uma questão de uso, ou seja, das diferentes formas de uso da liberdade. Devemos esclarecer, antes de prosseguirmos, que não se trata de uma apologia à liberdade enquanto independência de todas as coisas. Pelo contrário, se há responsabilidade, há um limite estabelecido. O sujeito se posiciona diante das diferentes forças em jogo e das possibilidades: seja enquanto afirmação, seja em forma de resistência. Muito menos estou defendendo que todo ser humano é livre de toda determinação (biológica, institucional, afetiva, desejante), em que pode simplesmente se desligar de todas suas relações. Uma escolha é uma atualização da liberdade, sendo que a liberdade, por si mesma, só é percebida com a emergência da responsabilidade.

Isso aponta para um fato interessante, pois nem todo ser humano goza de sua condição e prefere optar pela não responsabilidade ou manter-se num ritmo que negue a liberdade e suas formas plurais. Vive no adorável mundo das queixas mas não age, ao mesmo tempo em que não se vê como um covarde. Negar, na verdade, não faz com que a liberdade deixe de existir, pelo contrário, negar é uma das formas de testemunhar a existência daquilo que se nega. Não devemos culpar o sujeito pela sua escolha (seja ativa, seja enquanto negação passiva), mas responsabilizá-lo diante de si e do mundo, pois, como vimos, é uma questão dos diferentes usos cotidianos que fazemos da liberdade que marcam uma diferença em nós e nas repetições.

Por fim, ser livre não é sinônimo de libertinagem, em que o gozo absoluto seria a ordem do dia. A liberdade não nega a existência do outro ou ultrapassa os limites do respeito, pelo contrário, a liberdade inclui o outro ao mesmo tempo em que o afirma, seja para criar forças contrárias, seja para agenciar-se e engendra-se com o outro. Não se trata simplesmente de abolir as instituições ou as relações. Ter liberdade não é simplesmente optar pela vida/morte de outrem, isso é violência – mesmo que o sujeito se responsabilize por isso. Liberdade é poder ter domínio, dentro do possível, das diversas dimensões da própria vida.

A liberdade, por si só, não é boa ou ruim. Ela não é regida pela moral antes de ser conjugada com a responsabilidade, e a responsabilidade aponta para uma ética da existência. A liberdade pode ser fonte de sucesso ou de fracasso do sujeito pois, mesmo o sujeito que se assujeita ao outro, voluntariamente, está exercendo sua liberdade em toda sua plenitude. Queixar-se também não deixa de ser uma forma de liberdade, em que se resiste à afirmação da possibilidade do novo, culpando-se o outro pelos próprios fracassos.

A liberdade é uma forma de se legislar sobre a própria vida, e está presente nas grandes e pequenas escolhas, nas pequenas decisões cotidianas, nas formas de se aproximar e se afastar do outro, dos desejos, das responsabilidades, do diferente, do incerto e de si mesmo.

É engendrar-se em trilhos que contemplem um desamparo diante do imprevisível das escolhas e das forças em jogo, sem deixar de trazer uma abertura para novas possibilidades.

trilhos

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4 comentários sobre “Afinal, o que é a liberdade?

  1. Só pra esclarecer : estou virando fã de carteirinha! 🙂
    Diria eu, que um dos maiores aprisionamentos humanos é a tal da liberdade e que muito de nós,não estamos inteiramente aptos , preparados para conviver com ela. Ser livre , como dito no texto requer responsabilidades,e ouso dizer que requer também extrema maturidade. A liberdade, quando de fato vivenciada, traz para nós a “culpabilidade” que poderíamos despencar no outro ao dizer que fomos obrigados,que não tivemos escolha e que fizemos assim porque alguém optou…Irônico e por vezes trágico, perceber que este alguém que opta e coordena nossa vida é simplesmente nós mesmos. Permita-me ignorar um pouco a obrigatoriedade laboral, as regras de conduta em sociedade, deixar de lado convenções que seriam consideradas “normais”… somos livres diante de vários apesar de : Apesar de não querer viajar preciso estudar, apesar de não saber como lidar, quero me relacionar, apesar de não saber aonde este caminho dará,quero continuar a caminhar… e assim a vida prossegue diante da mesma pergunta que por vezes torna-se uma inquietação : Afinal, o que é liberdade? E eu acrescentaria : será que realmente a merecemos ,ou melhor, será que verdadeiramente a queremos?
    Seus textos são de fato muito bons,por isso mesmo, continue escrevendo.rs E sobre meu comentário confuso,perdoe-me,nunca é fácil perceber na tal liberdade com tamanha intimidade.

    • Sem problemas!!! A confusão pode ser necessária, desde que você se entenda com ela. Se você não entende o que diz, não espere que o ouvinte (leitor) lhe entenda. Mas eu compreendi suas palavras…
      Vou continuar escrevendo, e esse texto foi um dos meus favoritos em escrever. Liberdade e culpa não combinam, mas liberdade e responsabilidade sim. Sou responsável por esse texto, e não culpado, por exemplo!
      Merecer a liberdade é uma questão moral…
      Querer é uma questão de consciência…
      No entanto, desejar a liberdade… é um ato de coragem!
      Agradeço, mais uma vez, pelas suas palavras!
      =]

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