Sobre a Sexualidade Infantil – Parte I [Glossário de Psicanálise]

sexualidade infantilA vida erótica não se inicia na adolescência, nem mesmo depende de uma maturação dos genitais. O prazer está deslocado de uma dependência direta com o encontro dos genitais, visto ser o resultado de um alívio de tensões. Desde muito remotamente, na “pré-história” de cada um de nós, a experiência do prazer se faz presente, inaugurando a vida erótica do sujeito.

Um olhar pode ser erótico, um beijo não o deixa de ser. A boca ocupa lugar privilegiado nesse acesso ao prazer. Não apenas ao prazer, mas ao mundo, pois é pela boca que se realiza, de maneira original, uma das primeiras organizações e formas de se relacionar com as coisas. Não apenas o dedo ou demais partes de seu corpinho, mas tudo o que um bebê – com seu jeito desastrado – é capaz de segurar, não há outro destino senão sua pequena e sensível boca. Um beijo também antecipa qualquer espécie de primazia dos genitais na satisfação erótica.

Antes de se organizar em um “eu” (ego), há um erotismo que tem como destino o próprio corpo. Antes dos beijos entre os sujeitos, há um corpo que se desdobra em si mesmo enquanto experiência de satisfação e sem diferenciação, sem saber os limites de si e do outro. No entanto, como esse “eu” não aconteceu – para criar um mínimo de organização – o auto-erotismo se define, portanto, como satisfação das partes do corpo radicalmente independentes entre si, sem dominância  ou continuidade entre elas ou enquanto um todo completo. O corpo com o qual o adulto se identifica e se vê inexiste nas primeiras aventuras da vida.

Ao dizer que a experiência do prazer se faz presente antes de qualquer sobreposição do gozo com os genitais, é justamente apontar e testemunhar que há uma organização pré-genital, e que apenas ao acaso os genitais serão prioridade nas futuras investiduras eróticas do sujeito. Dito isso, vou procurar desfazer um equivoco comum entre os estudantes e críticos da psicanálise.

Após essa breve apresentação, não formulamos outra coisa senão algo da sexualidade. O conceito que explica essa questão é a sexualidade infantil. Eis o equivoco! O termo induz ao erro. Aliás, é inerente à linguagem produzir equívocos. A sexualidade infantil não designa a sexualidade encontrada nas crianças de tenra idade ou uma sexualidade que venha a antecipar a adolescência. A sexualidade infantil seria uma forma de explicar a sexualidade humana, independente de idade cronológica. A infância seria apenas uma espécie de protótipo para se entender a vida erótica dos seres falantes. Aponta, portanto, que o sexual não depende, necessariamente, de um objeto fixo para uma satisfação corporal; que as partes do corpo podem ser, todas elas, zonas erógenas e independentes entre si; que os estímulos genitais não são o inicio da vida sexual, mas apenas consequência de sua iniciação desde a mais tenra idade.

A multiplicidade e a heterogeneidade da vida erótica dos seres humanos indica que suas formas são tão variadas quanto o número de pessoas que as experimentam. Digo que se trata de uma experiência (sobre o conceito de experiência, clique aqui), pois isso indica exatamente que há uma novidade, um inusitado na vida sexual de cada um de nós, uma singularidade, incomparável…

Por um lado, isso garante que não haja bússola ou uma natural normatização dos sexos…

Por outro, seja lá a forma que os prazeres venham a se configurar e assumir, o sujeito é plenamente responsável por suas investidas nesse campo.

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