Sobre a Sexualidade Infantil – Final [Glossário de Psicanálise]

AfroditeSexualidade infantil não se confunde com sexualidade da infância, apesar de contemplá-la. Sexualidade infantil não remete às formas de prazer erótico de uma criança, mas do ser humano. Aponto que o gozo humano não se reduz ao seu ser ou a determinadas regiões anatômicas, mas sua experiência remonta antes mesmo do sujeito identificar-se consigo mesmo, com seu nome próprio, identificar-se com sua própria imagem. Um momento mítico, em que não se produz referencia a si mesmo ou articulação com o outro no seio da linguagem. Apenas encontros com o seio real.

Seria, portanto, inadequado o termo auto-erotismo para designar esse estado de coisas, visto não haver a possibilidade do “auto” acontecer, sem um ato psíquico que inaugure o narcisismo e , assim, a produção do eu (ego). Podemos até dizer que o afeto é presente antes mesmo da divisão psíquica em consciente e inconsciente, em que as sensações relacionadas às tensões internas e externas (nesse caso, o par prazer/desprazer) são inauguradas com a vida.

Apenas com a presença da linguagem e seu encontro com o corpo que a questão da sexualidade pode ser pensada como a testemunhamos no mundo humano. Afinal, sabemos que a sexualidade e suas satisfações podem advir de inúmeras fontes e assumir diferentes formas (polimorfismo), não havendo primazia dos genitais. Sendo assim, a sexualidade infantil não visa a adaptação ou a reprodução. Da masturbação aos fetiches, a sexualidade não é, a priori, boa ou ruim, desviante ou normativa. Apenas com a incidência da moral, por exemplo, que podemos dizer que a sexualidade pode se tornar desviante de um ideal, de uma norma, ou assumir a forma do mal ou ser tratada enquanto doença.

Nesta perspectiva, a sexualidade dos seres falantes é perversa – no sentido de não haver ponto em comum ou de identificação pela qual ela possa se orientar. Por outro lado, como vimos, seria polimorfa. Com o passar dos anos, o sujeito organiza-se de modos distintos a partir dos encontros com a vida sexual. Com isso, a sexualidade infantil é considerada polimorfa-perversa. Essa perspectiva adota um tratamento ético da sexualidade (afirmando a diferença e a heterogeneidade), em contraste com um tratamento científico (normal ou patológico), jurídico (legal ou ilegal), ou moral (bem ou mal). Geralmente a moralidade recai e orienta-se sobre uma biologização da vida erótica.

Enfim, a sexualidade incita as mais diversas curiosidades, descobertas, experimentações, imaginações, satisfações, identificações, mutações… E não importa o ser que atravesse a experiência da sexualidade, ela é traumática em si mesma – pois presentifica-se independentemente do sujeito, sem aviso prévio ou enquanto uma orientação unívoca (por exemplo, nunca há uma resposta satisfatória a uma criança quando esta pergunta a origem dos bebês ou sobre a diferença entre os sexos). Deixa marcas permanentes, seja na forma de se vestir, seja na forma de agir, relacionar-se com o próprio corpo ou com o outro.

É potência e fonte energética de muitas das grandes obras da humanidade, das construções às destruições, sendo necessário que saibamos, minimamente, como lidar com essa força estranha.

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