O que é uma família (des)estruturada?

família desestruturadaAs novas configurações da família se atualizam em formas pouco ou jamais vistas na história da humanidade. As pessoas são acostumadas – e nisso reside a tradição que pode resistir ao novo – a um modelo familiar. Tal modelo afirma uma estrutura parental representada por um pai, uma mãe e o(s) filho(s). Trata-se de uma forma regida por leis que se impõem como fundamentais, necessárias, fundadoras do seio familiar e das relações sociais.

Essa lei é, por excelência, simbólica, aproximando o universal (instintual) do simbólico. Isso significa que a lei (nesse caso, a interdição do incesto) aproxima o humano dos animais pelo seu caráter universal, mas o afasta pelo estatuto simbólico. Em outros termos, há, necessariamente, uma estruturação na construção da família e de sua função social. No entanto, essa lei possui variações de acordo com a cultura, época de determinado povo ou região.

Sendo assim, há inúmeras configurações possíveis na estruturação familiar: posições definidas, trocas estabelecidas, leis, funções, etc. Um exemplo dessa função simbólica é a paternidade. O pai nunca é óbvio. Trata-se de uma função que depende de inúmeras determinações, com determinada função social no seio familiar. Não podemos confirmar uma paternidade simplesmente por um teste da medicina genética. Em algumas civilizações, o pai é o irmão da mãe. Esse exemplo nos mostra que as estruturas se comportam de maneira móvel e determinam lugares e funções, são produto e produção.

No entanto, a partir de uma moral estabelecida ou por uma visão pré-estabelecida de uma unidade familiar enquanto universal, há quem reduza a família ao triângulo (pai, mãe e filhos) que citamos no inicio dessa abordagem. Antes de estarmos satisfeitos com esse trio (o que já evitaria muitos equívocos caso os considerassem enquanto função simbólica), devemos levar em conta que o discurso maior sobre o assunto ainda produz uma nova redução identificando o pai ao homem, a mãe à mulher e o filho ao sujeito fruto de uma relação carnal entre pai e mãe. Ou seja, o filho deve ser parido pelo ventre de uma mulher que, nesse caso, seria sua “mãe verdadeira”. Já nos aprofundamos sobre essa questão em outro texto denominado Mãe não tem gene. Afinal, para dar um passo para além dessa identificação entre função e posição sexual, como é o caso de marcar uma diferença entre ser mãe e ser mulher, é necessário perceber que o filho, por exemplo, nasce do ventre da linguagem e do desejo, e não de uma herança carnal ou genética.

Afirmar que uma família é desestruturada, é desconhecer a noção de estrutura e seus arranjos, é congelar a família num protótipo que regularia o julgamento de quais famílias estão de acordo com determinado modelo e quais são desafortunadas quanto ao cumprimento ideal dos papéis familiares. Não existe família desestruturada. Por um lado, essa afirmação indica que há uma necessidade de atualizar os modos de se entender a família contemporânea, desvinculando as imagens pai = homem provedor, mãe = mulher cuidadora. A utopia da família ideal leva a praticas de correção familiar e mesmo a explicações – baseadas nesse protótipo – de quando algo “dá errado” num dos membros da família. Dessa forma, alguns profissionais que atuam na área social quanto à sociedade em geral, insistem em responder ao fracasso do sujeito ou de seu desvio da “normalidade” se servindo do argumento de que algo faltou ou foi desviado no percurso natural da família. E temos a infelicidade de ouvir que tal sujeito está imerso numa família desestruturada. Tanto os usuários de drogas quanto atores de atos infracionais e os “pestinhas” das escolas são exemplares e alvos desse discurso.

A família é uma estrutura dentre inúmeras estruturas. Todas se atualizam com o passar do tempo, com as novas práticas, tecnologias, arranjos nas relações amorosas e sociais, novas leis, com a força da linguagem e os novos enunciados. As famílias possuem estruturas que ultrapassam a inteligibilidade do modelo vigente nos séculos passados. Isso não quer dizer que devemos retomar antigas fórmulas para resolver novos problemas, retomando simplesmente um discurso de retrocesso e nostálgico.

Não existem famílias desestruturadas, mas análises equivocadas.

Alexandre V. Brito

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14 comentários sobre “O que é uma família (des)estruturada?

  1. Sério, com o eterno devir cada momento em determinado espaço e tempo estrutural e conjuntural criam expectativas,
    Uma família desestruturada é uma família em desarmonia e isso independe do conceito de família e dado momento histórico, que é efêmero, que é passageiro.
    Lyncoln Toledano
    Assistente Social
    Especialista em Políticas Públicas
    toledano3088@gmail.com

    • Agradeço pelo comentário!
      A harmonia não dependeria da desarmonia? Ou seja, a harmonia não seria determinada por um modelo, por uma certa ordem previamente estabelecida, em que as fugas a tal ordem seriam a desarmonia? Sendo assim, a harmonia não dependeria de um dado momento, de um ideal, de uma conceito enquanto referência?

      Até logo!

  2. Sim, mas mesmo essa desarmonia precisaria de parâmetros.
    Digo que a realidade se molda conforme ela mesmo se experimenta.
    A ordem sempre é moldada conforme a conjuntura de determinada sociedade em determinado espaço/tempo da história humana.
    A desestrutura familiar aqui discutida não leva em consideração conceitos de organização familiar e sim a falta de conexão cognitiva entre seus pertencentes.
    E isso se deve á uma base que já não é mais levada em consideração ou que talvez nunca tenha se formalizado . Isso na visão dos atores. A desestrutura aqui discutida se deve a falta de uma simbise característica de “família” que independe de conceitos pré—estabelecidos e que podem se desviados para o preconceito.
    Família é família e isso de uma forma ou de outra todos entendem como uma “coisa” que apesar de parecer complicada é muito simples, pois a amálgama desta estrutura social é o amor em suas diversas facetas e nuances.

  3. Concordo com a proposição que afirma que os moldes são temporais. Fico em dúvida quando diz da atemporalidade: “família é família”.
    Quando diz desestrutura, está se referindo ao desacordo (afetivo ou de papéis) entre os membros familiares? Esta simbiose não depende de uma norma construída socialmente, bem como animais simbióticos dependem de uma norma pré-estabelecida entre eles?
    Por exemplo: há civilizações em que o pai da criança é o irmão da genitora do bebê. Família não teria relação com código genético, mas laços simbólicos. Esses laços, para existirem, podem se abastecer de amor ou não. Caso não tenha amor ou conexão, isso seria uma família desestruturada? Sendo assim, a referência seria o amor? As formas de amar são históricas e, portanto, seriam também pré-concebidos com espaços para pré-conceitos? (Ex: https://alexandrevbrito.wordpress.com/2016/07/28/tres-tipos-de-amor-eros-philia-e-agape/ )

    Abraços

  4. Vemos aqui uma clássica discussão em que ambas as partes concordam mas procuram uma forma de se sobressair sobre a outra . percebes que determinada ordem seja parental ou não carrega em si determinada responsabilidade e é este o ponto da desfragmentação/desestruturação familiar. quando não responsabilização haverá desestruturação.

    • Não entendo esse diálogo enquanto um querendo se sobressair ao outro, mas apenas duas questões: o temporal e o atemporal aplicada a um determinado tema.
      A responsabilização é importante para a manutenção dos vínculos de forma saudável. E concordo no fato de que é importante os pares familiares se assumirem pois, caso não o façam entre si produzirão (para além do núcleo familiar) novos laços, novos arranjos, novas estruturas.

  5. Tragédia ou vitória. Enfim esta é sina dos pensadores descobrirem em qual ou quais situações intervir.

  6. Prezado Alexandre.
    Boas Colocações!

    Sou Educador Físico, meu conhecimento sobre o assunto é limitado!
    Mas considero o tema interessante pois representa um universo a ser explorado!
    Diante dessa pluralidade de interpretações, analisando seu posicionamento,vejo que a problemática sobre o uso do termo (Família Desestruturada), não limita-se apenas na análise de composição da família (membros que integram), mas de uma análise de um fator que projeta a idealização de base, de um ambiente saudável que possibilite o desenvolvimento de potencialidades e uma educação eficiente.
    Segundo o dicionário a palavra desestruturada significa: Que acabou de se desestruturar, que deixou de possuir estrutura. / que deixou de possuir sustentação; que não tem ordem;; desordenado; Diz-se da pessoa cujo referencial (modelo) foi abalado ou destruído; perturbado.

    Em alguns debates, conversando sobre casos de (Família desestruturada), algumas pessoas também questionaram sobre o uso inadequado da expressão. Alguns, colocaram como ideal a expressão Famílias Diferenciadas ou outras formas de estabelecer.

    Analisando os questionamentos, abraçando sua preciosa abordagem no texto acima, refletindo sobre a pluralidade de opiniões, colocando de lado o fundamento de família desestruturada enquanto membros que a compõe…
    Como caracterizar uma família onde os pais adolescentes, não cuidam do filho, passando a responsabilidade para a avó, o pai se encontra preso, os tios usuários de drogas, brigas constantes e uma infinidade de conflitos internos?? Isso não é uma forma de estrutura fragilizada?

    Não refiro-me a desestrutura enquanto composição familiar, até porque conflitos acontecem em diversas famílias, independente da pluralidade de membros que a compõe…

    Não seria interessante ao invés de discutirmos a expressão adequada, fazermos uma análise de conflitos que podem caracterizar uma desestruturação familiar, independente de composição??
    Mesmo diante dos conflitos enfrentados em diversas famílias como vulnerabilidades e riscos, o termo desestruturada, do dicionário, deve ser anulado diante do caso especificado??

    Abraço!

    • Grande contribuição, agradeço-lhe desde já!
      O problema deste termo é que ele convoca uma noção de “natureza” da família, ou seja, se não há determinados atributos nesta composição, não pode ser uma família em essência. Talvez em aparência. Esse é o problema, pois indica uma espécie de normalidade do conceito “família”.
      Por outro lado, os conflitos internos entre os membros familiares podem destruir uma familia, ou não, e isso não depende de sua “natureza” ou “essência”. Afinal, as patologias relacionadas as drogas, os confrontos, sexualidade, o ódio, dentre todos atritos humanos, nenhum deles é exclusivo das famílias. Uma família se desmoronando não significa que ela está se desestruturando enquanto natureza, pois teriamos como referencia estrutural a ausencia de confronto. Logo, cairíamos no risco de dizer que toda familia em que alguns membros se degradam (por assassinato, uso abusivo de drogas, odio, descaso, etc.) seria desestruturada e que toda familia em que não há confronto é estruturada. Cairiamos no erro da dicotomia normalidade x anormalidade.
      Por fim, “estruturada” ou “desestruturada” deve ser abolida das analises referentes as familias, pois convoca uma ideia de natureza a ser seguida, e esse padrão não existe. Assim que existir ele será, automaticamente, letal para as milhares de familias que não correspondam ao maldito padrão.

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