Freud, o recalque e o beijinho no ombro

invejaAs palavras, por mais que saibamos sua etiologia e as circunstâncias de seus usos, possuem um aspecto que encontramos no interior da própria linguagem: a produção de sentidos. Sendo assim, muitas palavras se destacam de sua origem e apresentam novos sentidos, por vezes opostos ao inicial. Vamos pensar, em particular, de um termo vítima de uma metamorfose semântica a partir do uso popular – para desgosto de muitos pensadores comprometidos com a precisão do significado das coisas. Estou me referindo ao tal do recalque.

Iniciemos pela questão da inveja. Vale lembrar que há inúmeras formas conhecidas – e não menos supersticiosas – de se afastar a inveja. Tais artifícios só podem ser utilizados nos casos daqueles que acreditam que possuem algo almejado pelo outro e, necessariamente, são afetadas por esse desejo alheio. Afinal, caso o desejo do outro nos seja indiferente, não há o risco de se temer a perda de algo, de si mesmo, como se nosso ego (eu) não estivesse em jogo. No entanto, o que podemos notar nos dias atuais é um gesto para os que temem ou desdenham a inveja: o beijinho no ombro.

Não apenas um termo, mas um ato em que se beija o próprio ombro. Provavelmente um ato que não deve se estender ao longo dos anos e das gerações, em que esse texto, num futuro não tão distante, não será tão compreensível quanto nos dias atuais. No entanto, como a inveja em si mesma é um sentimento humano, independente de sua época e as formas que as configuram, novas expressões darão lugar ao beijinho no ombro, quem sabe até menos auto-eróticas. O maior inimigo da inveja seria a indiferença, e não uma resposta irônica, em que a afirma e rechaça ao mesmo tempo.

Somado ao beijinho em si, há outro recurso de linguagem popularizado (o “recalque”) para se referir àquele que está cultivando um rancor, ou mesmo aos demasiadamente moralistas que não cessam de apontar o erro do outro (cegos para si mesmos). Sentem-se ameaçados e se defendem com o ataque. Vale ressaltar que a crítica ao outro pode ter fonte na inveja. O recalcado e o beijinho no ombro formam, assim, um par, um casal perfeito, em que um depende da existência do outro.

Dando continuidade à questão da produção de sentidos das palavras, os termos científicos geralmente são alvos desse artifício quando popularizados, em que seu uso e entendimento é feito à maneira popular. O recalque, na verdade, é um conceito cunhado pela psicanálise de Sigmund Freud, para designar algo com radical diferença ao que o recalque popular-brasileiro se refere. O recalque popular nem sequer é o oposto ao que Freud propôs, ou seja, um ato que participa da inauguração do inconsciente, da produção de nosso aparelho anímico (psíquico) em dois sistemas: consciente e inconsciente.

O recalque freudiano foi reconhecido pela sua obscuridade e originalidade, oferecendo mais dúvidas do que respostas. Nele o sujeito possui um saber que não se sabe, em que determinados aspectos da vida não são acessíveis à consciência nem com o esforço da memória. Já o recalque popular-brasileiro se refere a algo que nada mais é que uma artimanha cultural, enquanto uma espécie de manifestação do ego (eu) por meio da inveja. Em contrapartida, o recalque freudiano antecede o próprio ego (eu).

O beijinho no ombro é tipicamente brasileiro e o “recalque” popular não deixa de ser um analisador de nosso atual mundo ocidental. Atores e contores brasileiros beijam seu próprio ombro, disseminando a existência dos “recalcados” em torno de si, termo nem tão recente ou original, mas que foi comprado e vendido pelos mais afortunados. O vídeo do clipe da Valesca Popozuda (outro apelido que revela nossa face cultural) teve grande repercussão nos primeiros dias de lançamento, promovendo o beijinho no ombro contra as recalcadas de plantão. O termo emerge a partir de num contexto/fenômeno social entre mulheres. Apesar disso, seu uso é expandido e pode apresentar, inclusive, bons usos.

Além disso, acredito que essa seja uma breve apresentação de um exemplo de uma forma de colagem, ou seja, uma apropriação de um termo para que ele possa ser transformado com sentidos descolados de sua fonte original. Os próprios estudantes de psicanálise contribuem nesse novo manejo dos conceitos freudianos e em sua popularização. Afinal, qualquer erro que cometemos de linguagem já é apontado como ato falho, ou os sonhos já são interpretados na busca de sentidos, em que isso não deixa de ser uma herança da psicanálise para o pensamento do senso comum, do dia-a-dia. A psiquiatria também sofre dessas influencias e metamorfoses, em que – por exemplo – um sujeito que muda de sentimentos já é considerado, popularmente, como bipolar.

Cada povo faz diferentes usos e práticas dos diversos saberes existentes. Aliás, os saberes populares (como os ditados e ditos espirituosos) são preciosas e criativas fontes de saber.

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