Clínica com crianças

clínica criançasÉ muito comum as pessoas me questionarem como é realizado o atendimento clínico com crianças. Afinal, os curiosos possuem, mais ou menos, um juízo de como isso ocorre com adultos, que tem como principal forma de expressão a fala articulada e concatenada. No entanto, o fato de a maioria das crianças não apresentarem um vocabulário ou noções gramaticais desenvolvidos como num adulto não impede que possam se expressar de formas singulares e plenas de sentidos. Por vezes, esse diferencial até mesmo está a favor do tratamento com as crianças, o que não diminui sua complexidade e dificuldade. Afinal, suas verdades surgem (in)diretamente, por meio de sintomas corporais, atos motores, repetições, desenhos, dentre outros meios lúdicos.

Há uma série de motivos para que uma criança inicie um atendimento psicológico. Geralmente, as demandas e o despertar da necessidade de um tratamento surgem de adultos que estão mais próximos à criança, como os familiares, professores e pediatras. Num primeiro contato (geralmente com os pais, por meio de telefonemas e do primeiro atendimento sem, necessariamente, a presença da criança), cria-se um vínculo com os responsáveis pela criança e, assim, escutamos os primeiros ditos que surgem sobre ela e seu entorno.

Para o primeiro encontro com a criança, nunca sabemos o que está por vir. Ela pode vir fóbica, angustiada, agressiva, agitada, educada (no sentido comum do termo), desinibida… enfim, não há como prever simplesmente pelo relato do adulto. A criança dita (pelo outro) nem sempre é coerente com a criança vista (por nós). Ao recebê-las na recepção do consultório, o primeiro passo é conquistar sua confiança e devemos ser um adulto um pouco diferente do que ela esta acostumada. Nem pai, nem mãe, nem tio, nem professor, nem padre ou pastor.

Analisar uma criança é uma tarefa para profissionais pacientes, com coragem para enfrentar as dificuldades e as responsabilidades de lidar com uma vida tão jovem e que pode se transformar da noite para o dia. Um trabalho para os que estão dispostos a tocar no âmbito da sexualidade (traumas sexuais, desejos, ser menino ou menina), nas fobias mais desveladas, no amor e no ódio mais sincero, nas histórias mais inusitadas, além dos hábitos familiares saudáveis e adoecedores. Ver, portanto, a criança, é fundamental para situar sua situação motora, sua (des)inibição, cognição, para se perceber os olhares e os ditos (da criança e dos familiares), e pela relação transferencial com o profissional (sobre a transferência, clique aqui), que pode se instalar intensamente desde o primeiro encontro. Eis a nossa principal ferramenta!

O ambiente tem que fazer sentido ao jovem, favorecendo que ele se expresse de forma espontânea. Por isso é interessante o lúdico por meio de jogos, massa de modelar, giz de cera e papel, revistas (prontas para serem dilaceradas), tesoura (sob nossa supervisão), brinquedos, fantoches, etc. Eu, particularmente, sempre cubro o chão, no início de uma sessão, junto com a criança. Afinal, temos algumas leis de cooperação e aliança, e isso já é parte do trabalho de análise. Aliás, sobre a aliança, é importante explicarmos ao pequenino o que é um psicólogo, ensinar o que significa sigilo, indagar (com ou sem os pais) se ela entende o motivo de estar ali, dentre outros acordos e esclarecimentos. Aliança com os pais é importante para que eles retornem na próxima sessão, sem o medo do desconhecido e do estranho, da responsabilidade e da mudança. Mais uma vez, somos um adulto diferente de tudo o que a criança já viu antes, pois não estamos ali simplesmente pra brincar com ela enquanto recreação ou passatempo e nem somos cúmplices de seus pais.

Na análise com crianças o analista tem a dura missão de não ceder aos impulsos de paparicação ou do sentimento de pena, pois esses não contribuem em nada para os nossos objetivos. Importante também analisar a encomenda de atendimento feita pelos adultos e interpretar a real demanda. A verdade da criança vai surgir na fala, nos momentos lúdicos e no corpo. As crianças repetem o que sofrem, como uma espécie de apelo e elaboração. Suas palavras, por mais comuns que pareçam ser, são repletas de sentido. Apesar de que, em acordo com as circunstâncias, precisamos ser literais para com elas, com a cautela de não sermos obscenos ou de enxertarmos palavras em suas bocas ou tampouco calá-las. Afinal, estamos carregados de pré-conceitos, sendo necessário que atravessemos do saber que cultivamos para a pura ignorância. Apenas assim podemos ver a jiboia que engoliu o elefante onde percebíamos apenas um chapéu.

Toda criança merece crescer apenas com o sofrimento inevitável e comum a todo ser humano, pois, por inúmeras vezes, a guerra entre os adultos tem apenas um pequeno e indefeso perdedor…

perde…

…dor!!!

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6 comentários sobre “Clínica com crianças

  1. Alexandre, o texto está imexível! Você conseguiu expressar muito bem aquilo que vivenciamos na clínica com a criança, inclusive a importância do primeiro contato, na construção do vínculo de confiança e no entendimento do motivo que a colocou naquele lugar. Parabéns, mais uma vez!

  2. A maior honra para um homem é ser reconhecido e elogiado por uma pessoa que lhe inspira. Agradeço pelas palavras, Rita! Muito do que escrevo nesse texto foi aprendido em experiências que tivemos juntos. A clínica com crianças é um desafio… Tolos são aqueles que acham ser mais simples. Não se trata de brincar de boneca ou lidar com um ser angelical.
    Alegre pelo seu comentário, que me inspira ainda mais a escrever.
    Sinceramente,
    Alexandre

  3. Parabéns Dr Alexandre pelo excelente texto. Sou entusiasta da Psicologia e futuro psicólogo! Este texto foi de imensa ajuda para mim, já que pude ter noções básicas de como um psicólogo deve atuar com crianças. Encontrei seu blog através do Dihitt, e que conteúdo bom, hein? Passarei por aqui mais vezes, com certeza! Gostaria de lhe convidar a fazer uma visitinha ao meu blog quando sobrar-lhe um tempinho, escrevo artigos de auto-ajuda e relacionados a psicologia também. Lhe espero lá, hein? Abraço!

    Abraão Braga

    http://www.alvorecendoavida.blogspot.com.br

  4. Olá, Abraão!!!

    Pelo visto é um estudante de psicologia apaixonado pela área. Visitarei seu blog, com certeza!
    Fico feliz por contribuir com sua formação por meio de meus textos. Atender uma criança é tão complicado quanto lidar consigo próprio, pois é um atendimento repleto de verdades. Isso exige grande esforço do profissional para sempre procurar aprender mais…inclusive sobre a vida nua e crua.

    Grande abraço!

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