O sono e o sonho [Parte II – A loucura e a cura]

untitledO sono é, dentre outras funções, reparador. Em alguns casos, e ao pé da letra, repara a dor. Muitas vezes o sujeito adormece em seu leito com alguma aflição orgânica, perturbação somática ou mesmo exausto de sua longa jornada diária. Vive e encarna, assim, algumas dores de cabeça. Mas dor da alma não tem outro destino senão o corpo, pois “hipotecamos” nosso corpo diante de nossas experiências cotidianas: caso não se elabore ou conclua uma situação, o corpo paga o preço. Resta ao corpo dar essa garantia aos nossos “empreendimentos” e exigindo-nos, assim, uma boa noite de descanso.

Há, portanto, um nascimento e uma mortificação diária em cada um de nós. Aliás, o sono é parceiro da morte e dos sonhos. Não é a toa que Hypnos, o deus do sono, encontra-se abraçado a Tânato – a personificação da morte – na imagem do texto anterior. São, aliás, irmãos e filhos da deusa da noite, Nix. No entanto, é interessante tal apresentação, pois estamos falando de um daemon, ou seja, um intermediário entre os deuses e os homens, comunicando-se e influenciando diretamente a alma humana.

Apesar dessa história nos servir para uma melhor compreensão do que estamos tratando, percebemos testemunhos incontáveis de pessoas que curam muitos de seus males após uma boa noite de sono e outras que, por outro lado, associam a noite com a manifestação de seus próprios demônios. “Penso, logo não durmo!” Assim como o apresentamos, importante ressaltar que demônio não possui um sentido impregnado com o mal desde sua origem (daemon). Mas o sentimento de invasão em nossa alma que surge a noite possui relação necessária com os próprios sonhos e são produções que, até certo ponto, se manifestam como expressão incontrolável, ao mesmo tempo que determinadas pelo que há de mais íntimo em cada um de nós. O “demônio” – no sentido da angústia ou da elaboração onírica – deve ter algum vinculo com o fato de nos afetarmos com os sonhos, além de o estranharmos, como se viesse de outro lugar “fora” de nós mesmos.

Assim como dissemos em outro lugar, dormir pode ser associado ao morrer, principalmente para muitas crianças que experienciam angústias presentes em seu dia-a-dia. Por outro lado, dormir abre as portas para os sonhos e para um trabalho repara-dor. O sonho pode angustiar apesar de ser, fundamentalmente, o principal guardião do sono. Afinal, no sonho elaboramos o corpo, as dores, o ambiente em nosso entorno, o dia anterior, a semana anterior, o ano anterior, a infância, ao mesmo tempo em que nos preparamos para o dia de amanhã. E o sono é justamente a condição indispensável para os sonhos.

Mas de que sonho estamos tratando? Para que não haja mal entendido, estou me referindo ao sonho que surge apenas ao dormir, com riqueza de imagens, sons, sensações e pensamentos. O “sonho acordado” comum, do dia-a-dia, como o devaneio e declarações à luz do dia (como “ser feliz”, “ganhar na loteria”, “viajar para determinado país”, “ter alguém de volta”) não são os sonhos que tratamos. Nos sonhos que aqui abordamos há pouco devaneio pois, quando acordado, “sonha-se” em estar em Paris. No sonho, todavia, estaremos lá, realizando o desejo. Estaremos onde jamais assumiríamos ou confessaríamos ao outro. Assim como também é o caso do sonho, após adormecidos, em que a pessoa que perdemos surge mais uma vez diante de nós, realizando o desejado encontro.

A dor vivida no dia do sono pode entrar na elaboração dos sonhos e ser trabalhada. Dormir e sonhar, por vezes, pode ser a saúde mental de muitos de nós. Ao mesmo tempo em que é nossa preciosa loucura.

O sono e o sonho [Parte I – Apresentação]

hipnos e tanatosQuando operamos um computador de mesa comum (ou um smartphone) por muito tempo, ele acumula e realiza processos diversos e de maneira simultânea, criando memória, atividades em segundo plano, registros, lixo e as mais diversas conexões. Além disso, liga-se a outros aparelhos fisicamente e a outros programas virtualmente. Imprime, escaneia, aquece, transforma as diferentes formas de energia (física em elétrica, elétrica em visual) e, por fim, vai se esgotando ao longo do dia. Não nos surpreenderíamos se percebêssemos que vai haver um momento em que esse dispositivo vai esgotar suas energias e assim terá de ser reiniciado, como se fosse um breve sono que resultaria num novo despertar, evitando a destruição de seus componentes.

Assim que reiniciado, alguns processos deixariam de estar acumulados, corrigindo alguns breves erros e permitindo que diversas operações que sofreram com o prejuízo do trabalho ininterrupto voltem a funcionar novamente. Esses exemplos mostram que os dispositivos trabalham como um quebra cabeça que funcionasse de modo inverso, ou seja, as peças iniciam todas em seus devidos lugares e, com o tempo, vão se fragmentando, se separando. Há um limite delicado entre sua vida útil e sua própria “morte”.

Nesse sentido, vale lembrar que também pode haver o curto circuito e a perda de memória como dois exemplos de “caos” que podem ocorrer. O curto circuito geralmente se manifesta no hardware (parte física) e a memória pode ser prejudicada a partir do software (a interface do sistema). Interface significa justamente a união realizada por esses dispositivos, o tendão que liga um corpo a um funcionamento específico.

Interessante notarmos como essa tecnologia pode oferecer uma pequena analogia com o sono em nossas vidas – até certo ponto e com a ressalva de que não estamos comparando máquinas com humanos como se fossem símiles ou equivalentes. Analogia, por sua vez, tem o prefixo latim ana que significa “em acordo”, e assim podemos perceber que usar esses dispositivos como exemplo podem facilitar a compreensão do que se busca transmitir.

Ao dormir, o sujeito “reinicia” seu ser: novas e antigas conexões de pensamento são produzidas, novas memórias são despertadas, elaborações são realizadas, o corpo entra em uma espécie de paralisia motora, os órgãos internos diminuem seu ritmo, hormônios são liberados, imagens são formadas e experiências oníricas são experimentadas, sensações vividas, além das mais diversas manifestações que podem ocorrer ao dormir. Diferente de uma máquina qualquer, quando adormecemos ainda permanecemos em atividade, apesar de muito de nosso sono seja de repouso. O sono, aliás, é aquilo que nos domina e que, quando entregues a ele, não há como percebê-lo. Só é possível testemunhá-lo ao acordar. É necessário que haja uma entrega ao desconhecido, ao que há de estranho em cada um de nós.

Assim como os outros animais, os humanos possuem a necessidade de dormir, apesar das diversas torções que são realizadas. Trocamos, por exemplo, o dia pela noite, ou sequer dormimos cotidianamente.  Dormir também pode ser um pesadelo, ou mesmo um motivo de medo – principalmente nas crianças. Além disso, o sono pode ser sinônimo de morte ou conseguir dormir ser um golpe de sorte. Por vezes, não há o descanso esperado e tão comum a todos. Além dos excessos: as insônias e os que nunca saciam seu sono, mesmo que venham a dormir por muitas horas seguidas. O ato de dormir, portanto, não é regulado simplesmente pelo biológico, mas pelo nosso plano lógico.

No próximo texto devo desenvolver alguns pontos apresentados e trazer algumas ideias sobre a companhia favorita do sono: o sonho.

Sendo assim, me despeço provisoriamente de vocês pra que eu também possa dormir…

…vou descansar um pouco para que as ideias do próximo texto tenham melhor expressão.

Um bom sono a todos!