O medo do escuro (Parte II – o bebê, o adulto e o olhar)

medo de escuroO medo causa medo. O medo causa o medo de ter medo. Quando se percebe, já está instaurado um ciclo, um curto circuito, em que uma coisa alimenta a outra. O medo de não dormir pode, por exemplo, causar a insônia. Trata-se do medo por ele mesmo. O temor se alimenta de si como se fosse uma autofagia, consumindo o sujeito. No entanto, o medo não se consome e some, mas fica ainda mais forte e cruel. Vale lembrar que, em se tratando de uma fobia, o medo dá uma trégua assim que o objeto se distancia – como é o caso do medo do escuro.

As crianças são peritas em apresentarem o medo como ele é. Afinal, elas não temem uma fantasia ou sua própria imaginação, mas temem o real. Para tal, vou inverter a possível ordem cronológica da origem do medo e partir da primeira infância, em que o medo (por volta dos 0 – 2 anos de idade) está fora da criança. A inversão se dá quando percebemos que, nessa idade, a fobia está justamente em quem já viveu essa época da vida há alguns anos e mal pode se recordar de alguma experiência inaugural da própria vida. Isso significa que há que se fazer uma distinção quando, nessa idade, a criança é falada por uma voz que não a dela sobre ela mesma: “Ela tem medo de escuro!”. Diante de um quarto escuro, um adulto tira o bebê da escuridão sob essa justificativa. Afinal, quais sinais que a criança pode articular para comunicar sua fobia nessa idade? O sinal, por excelência, é a interpretação e o próprio medo dos adultos. Geralmente os próprios pais da criança, tendo em vista que ela se encontra ainda muito precária no mundo dos símbolos.

Ou seja, há que se tomar atenção ao fato de que o medo que atribuímos às crianças pode ser o medo de nós mesmos. Esse é o primeiro desafio lançado quando estamos tratando de uma fobia infantil, pois participamos do mundo da criança tanto para seu desenvolvimento, sua saúde, sua força, sua vida amorosa, sua inteligência e criatividade, quanto para suas carências, seus medos, desamparo. Exageradamente ou não, as experiências e tudo o que se transmite acaba por fugir ao controle. Da mesma forma que o adulto diz ler o corpo do bebê, o recém chegado também lê, corporalmente, os movimentos e tensões com que o adulto o manuseia ou lhe lança o olhar. O olhar, aliás, é o primeiro laço social que o bebê experimenta, “interpretando” o adulto através do olhar que lhe é – ou não – endereçado. O destino dessa experiência é, inevitavelmente, o seu corpinho.

Esse, portanto, é o primeiro medo que apresento: o medo do outro, um medo no outro. O medo causando medo. Não viemos ao mundo criar novos medos, mas os medos estão milenarmente inaugurados, sendo contemplados de forma belíssima nos contos infantis. Vale observar que apesar de os medos apresentarem temas comuns, cada medo é tão singular quanto cada sujeito que o experimenta.

Vamos seguir em nossa jornada e continuar com um texto sobre o temor real – como dito no início do texto – e perceber que imaginação e realidade são uma só e mesma coisa e que, quando percebemos isso, ou abrimos as portas da angústia, ou melhor controlamos alguns afetos (a partir da noção de sua causa), ou até mesmo nos livramos dos fantasmas ao olhar em seus olhos. Ficamos cegos ao mesmo tempo em que enxergamos melhor a vida.

Não importa a opção, há uma transformação, uma experiência de mudança…

…necessariamente!