O medo do escuro (Parte III – A potência da imaginação e a realidade)

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Em paralelo ao medo do escuro, devemos destacar e mesmo oferecer um elogio à potência da imaginação. O escuro é apenas escuro na materialidade das coisas, enquanto percepção de ausência de luz. Afinal, é justamente na ausência de luz que podemos encontrar a presença da potência criativa da imaginação. Antes de mais nada, vamos definir imaginação e evitar alguns equívocos situados no senso comum.

Em primeiro lugar vamos definir imaginação como a produção de imagens por meio do pensamento em conjunto com tantas outras qualidades mentais, como a memória e a percepção. São imagens móveis, (in)definidas, em relação com os corpos que nos afetam, com o desejo, com a angústia e com as marcas singulares em cada um de nós. Não basta pensar apenas enquanto imagem ou figura estática, pois há uma vida que anima tal potência. Com a imaginação o sujeito se satisfaz, se orienta, se recolhe ou se encoraja, teme ou sonha. Sendo assim, percebemos que há uma coerência organizadora nela.

Em segundo lugar, quando tratamos do medo de escuro em crianças, convoco especial atenção de pais, professores e profissionais da saúde para evitar um equívoco prejudicial. Ressalto que não devemos nos precipitar e acreditar que a imaginação é apenas fruto de algo estranho ou exterior ao jovem medroso, ou que ela seja apenas algo a se opor à realidade. Afinal, toda vez que nos frustramos com o mundo e com as pessoas, temos prova suficiente de que ainda guiamos grande parte de nossas vidas – de forma um pouco mais sofisticada ou até mesmo menos criativa que a das crianças – a partir da luz da imaginação. A frustração se dá a partir de uma imagem fantasiosa, tão fantasiosa quanto já foi um dia com o “bicho papão”.

Além da imaginação, devemos nos situar quanto ao medo. Este também não é exclusividade de apenas alguns mortais, mas de todos animais. O medo é uma forma de preparação para o perigo, ao mesmo tempo em que testemunha nossa fragilidade, situando-nos enquanto seres mortais. O medo nos oferece o humano enquanto humano. Devemos ficar atentos aos medos e quando eles se unem aos elementos da imaginação, podemos ter um medo específico, como o escuro.

O medo e a imaginação da criança – apesar de que não são apenas as crianças que temem o escuro – devem ser escutados como reais e não como falsos. Não devem ser exaltados e supervalorizados nem mesmo ignorados ou reprimidos. Assim como vimos no texto anterior, o desejo e os medos dos pais imprimem marcas sobre os filhos como uma espécie de herança, de transmissão. O medo (“externo”) somado à imaginação (enquanto um fator “interno”) são a ligação do ser ao mundo e do mundo ao ser. O medo paralisa, apequena, resiste ao desejo, entristece e nos leva a crer que somos menos do que podemos ser. Mas a imaginação não se reduz ao medo, pois ela pode ser seu justo oposto, oferecendo coerência ao desejo, alegrando, levando à ação. Nesta relação entre medo e imaginação que podemos ajudar aos nossos pequenos tomados pela incerteza de que, ao apagar a luz, as coisas permanecem como elas são e onde elas estão, que as pessoas estarão lá no dia seguinte, que apagar a luz não significa sumir e que dormir não significa morrer.

No próximo texto ofereceremos algumas dicas aos pais que, a essa altura dos textos, estão muito mais familiarizados com o tema.

Afinal, a imaginação é a própria realidade e uma possível potência criadora de cada um de nós. Uma realidade tão real quanto o que percebemos enquanto verdadeiro e não simplesmente como fruto de uma imaginação…

…até nos frustrarmos!

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