O medo do escuro (Final – Algumas orientações para se enfrentar o medo de escuro)

medo do escuro .Há algumas formas possíveis de se lidar com o medo do escuro. Apesar de não haver um método universal para tratarmos de questões particulares, podemos buscar pistas que podem contribuir para o enfrentamento das fobias. Como é a escuridão que nos ocupa neste texto, vamos lançar luz sobre ela para que encontremos, no mínimo, um meio termo.

No escuro, o avassalador para muitas pessoas é a impossibilidade de perceber os objetos ao seu redor, como se não tivessem a noção de permanência (em que se sabe que o objeto permanece em seu mesmo lugar quando as luzes se apagam, ou seja, se conserva). Sendo assim, os objetos tomariam vida ao escurecer e as vidas tomam a morte. É interessante, por exemplo, conversar com o sujeito em fobia com as luzes apagadas para que ele – principalmente as crianças da primeira infância – saiba que as luzes apagam, mas a vida não se vai com ela. É o caso da criança que, ao apagar a luz pergunta:

– Pai, cadê você?

E o pai lhe conforta respondendo do outro quarto:

– Estou aqui e não vou a lugar nenhum! Até amanhã!

A criança realiza um teste de verificabilidade para saber se a escuridão, e a consequente perda de referência perceptiva, não levou consigo seus amores. Com o diálogo a criança mantém-se na possibilidade de simbolização.

Outra possibilidade é ir, aos poucos, criando uma dessensibilização quanto ao escuro a partir de seu contato progressivo com ele. Lidar com o apenas uma fonte distante de luz, ou fonte reduzida para que, aos poucos o escuro não seja apavorante. Com isso, é importante que se conheça todo ambiente, explorar a casa com uma menor iluminação que a usual, conhecer os ruídos que são provocados com o anoitecer, como é o caso de insetos, áudios provenientes das ruas, sons provocados pela dilatação/retração dos objetos com as mudanças de temperatura do ambiente. São conhecimentos fundamentais para saber lidar com o barulho exterior sem se confundir tanto com os ruídos que cada um tem dentro de si.

No que diz respeito às sombras, elas são interessantes pois possuem mais de um sentido: as sombras ópticas e as subjetivas. O sentido que podemos dar a elas é o lidar com as sombras, brincar com elas e buscar, assim, dominá-las. A brincadeira é uma forma interessante para crianças e adultos lidarem com a vida, como se a brincadeira fosse um ensaio para viver, uma forma de se lançar para o mundo, para a convivência, para o contato, para os ganhos e para as perdas.

Interessante notar que é comum em nossa sociedade também relacionar diretamente o escuro com o mau, com o ruim, como se o sombrio e a escuridão fossem sinônimos de angústia e dor, de sofrimento e de morte. Caso possamos lidar com o conteúdo simbólico do medo, teremos grandes chances de lidar com ele de forma mais sofisticada e aprender com essa experiência. Podemos, acima de tudo, aprender ainda mais sobre nós mesmos e isso, necessariamente, nos produz mudanças subjetivas.

Há, por fim, questões que apenas em um trabalho psicológico com um profissional que se pode entrar em contato como em nenhum outro lugar. O escuro e o medo podem se remeter a outro medo ou a uma memória traumática (mesmo que se mantenha esquecida) que, de alguma forma, se ligou ao escuro. Neste caso, o escuro é um substituto adequado de um outro medo mais cruel que o próprio escuro. Afinal, não é o escuro que faz mal a alguém.

Assim, não devemos tratar os fóbicos como medrosos ou covardes, mas sermos compreensivos, sermos exploradores, poder brincar, acompanhar o sujeito sem trata-lo como um vaso fino prestes a quebrar com qualquer toque, nem como um fingimento (apesar de que algumas vezes o medo de escuro é apenas uma forma de se aproximar de alguém – como dos pais ou de uma pessoa amada – por isso requer interpretação e ser entendido na dimensão do simbólico).

E assim, encerramos nossos textos sobre o medo de escuro…

…já podemos apagar as luzes!

Até a próxima!

medo do escuro

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2 comentários sobre “O medo do escuro (Final – Algumas orientações para se enfrentar o medo de escuro)

  1. Excelentes textos. Sobre o assunto, eu não tenho medo….. tenho pavor! E minha mãe é a mesma coisa, desde que ela se Recorda da existência própria. Fico me perguntando se fisiologicamente há algum mecanismo que transmita fobias dos pais para os filhos, n apenas pela vivência mas geneticamente falando. Nunca pesquisei sobre

    • Há diversas formas de se transmitir um medo, principalmente na relação entre pais e filhos. O poder de influência entre eles é muito grande e privilegiado, em que pais inseguros podem deixar os filhos com medo ou, pior, abordar o filho como solução para os medos. Neste último caso, os pais têm os filhos como proteção, quando deveria ser o oposto. Isso pode apavorar a criança. Além disso, é comum filhos e pais se identificarem para ter traços em comum, nem que seja o medo, mas é uma forma de dizer “somos mesmo um do outro.”.

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