As paixões e os corpos apaixonados em Baruch Espinoza

Paixões EspinozaUm corpo apaixonado é um corpo que vive a experiência do encontro com outros corpos, de modo a seguir um sentido determinado a partir do resultado desse encontro com as forças externas. As paixões se constituem, portanto, dessas forças de fora que afetam o corpo de maneira a vive-las, pelo menos num primeiro momento, de forma passiva. Ou seja, são inevitáveis apesar de superáveis.

Vale ressaltar – para evitar os equívocos que a linguagem tanto oferece – que paixão no grego significa “sentir” (pathe), enquanto uma disposição que os corpos possuem para tal. Em latim, a palavra se apresenta na forma mais comumente utilizada em nosso cotidiano, significando “sofrimento” ou mesmo “suportar” (passio). Esse será o rumo que seguiremos para tratar a paixão.

Situaremos as paixões, para ampliar a questão, a partir da consciência, pois também são compreendidas através dos próprios atributos da consciência. Em resumo, a consciência é apenas um efeito dos encontros que o nosso corpo realiza com as forças externas, com outros corpos, com as palavras, instituições, etc. As paixões também seriam, seguindo este mesmo princípio, afecções por meio dessas forças de fora. No caso da consciência, enquanto apenas um efeito, há a produção de marcas determinadas pela sua própria gênese e a partir da natureza dos corpos externos.

Um corpo apaixonado sofre, assim, alterações e oscilações em acordo com o “tipo” de  encontro realizado com as forças de fora e em acordo com a natureza dos corpos, determinando-se por esses acasos. Mantém-se, a partir das marcas e das oscilações apaixonadas, inconstante e guiado por superstições, fantasmas, paranoias, mitos, angústias, fobias, euforias, etc. No entanto, vale uma ressalva: não se trata de uma definição da paixão enquanto algo bom ou ruim, pois isso seria dar um significado no campo da verdade e da moral sobre as paixões. Não haveria uma lei a priori das paixões, mas o encontro dos corpos que irá definir e estabelecer suas leis.  Sendo assim, surgem apenas como um resultado de forças capazes de dominar o ser, governado pelas suas marcas, percebendo e vivendo a partir de forças de submissão. Uma espécie de servidão.

Seria preciso, nessa perspectiva, dar um passo para além de uma leitura fantástica da natureza, feita pela consciência, e até mesmo buscar abandona-la. Não se trata de transgredir (pois isso seria apenas um embate entre consciências), mas de produzir estranhamento, de se pensar o impossível e assim a produção de novas linhas de pensamento,  da possibilidade do inventivo. Afinal, em nosso dia-a-dia é desafiador viver com corpos apaixonados pois, como se diz na linguagem popular brasileira, as decisões, os hábitos, as ideias e as relações dependeriam simplesmente de seu “estado de humor”. Não se produziriam ciências e muito menos invenções de si.

Neste desafio, haveria uma necessidade de decifrar o outro a partir de forças que lhe dominam, pois enquanto servo das paixões, pode seguir – opondo sua própria razão – um rumo inclusive contra si mesmo. Neste caso, há um padecimento por meio das paixões (sejam elas alegres ou tristes) e pelas marcas – consciência enquanto efeito – haveria a montagem de ideias confusas e práticas opressivas. Nessa perspectiva o corpo está, tragicamente, submetido ao acaso dos encontros, acreditando que as marcas seriam sua própria natureza.

As paixões e a consciência, em Spinoza, são pensadas mais ou menos desse modo. Encontramos essa definição enquanto o primeiro gênero do conhecimento. Para um aprofundamento desse tema indico a leitura do livro Ética, para se entender e ampliar as linhas de pensamento desse autor.

Mas cuidado,

pode ser apaixonante…….