Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte IV – O pragmatismo e o utilitarismo)

pragmatismo utilitarismoNo texto passado eu lhes indiquei que daríamos um passo para além da moralidade, no sentido de produzir uma ruptura com elas a partir de novas linhas de pensamento. Antes disso, vamos realizar um novo passeio nos campos da moral a partir de duas concepções tradicionais (no sentido de sobreviventes ao passar dos anos) e mesmo familiares aos brasileiros: o consequencialismo pragmático e utilitarista.

Vimos, com Kant, que podemos avaliar nossas condutas a partir de princípios independentes das circunstâncias: “devo agir dessa forma pois é como deve ser, independentemente das consequências”. Trata-se da deontologia, em que deon em grego significa dever, enquanto uma percepção absolutista. Por outro lado, encontramos os consequencialistas, ou seja, uma ideia parecida (mas não idêntica) com o dito já popularizado que diz que “os fins justificam os meios”.

Pensamento encontrado em Maquiavel, esse consequencialismo seria o denominado pragmatismo. É, portanto, relativista, pois depende das condições de como as coisas acontecem para determinados fins, em que uma conduta é avaliada pelas suas consequências, e não por princípios. Sei se agistes bem em acordo com o resultado de sua ação. Mas é necessário ter cautela com essas percepções, pois os meios podem ser altamente perversos, mesmo que o resultado seja satisfatório.

Quando a consequência atinge um grande número de pessoas, saímos do campo do pragmatismo (egoísmo) para o utilitarismo – enquanto altruísmo. Quanto maior os benefícios coletivos das consequências de uma ação, melhor será a avaliação da conduta. O pensador referência para tal é Stuart Mill. A felicidade não deve ser encontrada apenas no agente da ação, mas no maior número de pessoas possível. Vimos, nestes casos, que o critério moral muda: “uma boa ação depende de seus resultados”.

Em Aristóteles, o critério está na mediana, em ser virtuoso na justa medida entre os extremos viciosos, em que se exercita e se desenvolve as virtudes diante das adversidades. Em Kant está nos princípios, na condição de que sua máxima seja uma lei universal independente das circunstâncias. Em Piaget a moralidade é pensada a partir da psicologia, por meio da tensão entre a heteronomia e a autonomia e seus atributos.

Vimos, assim, que o consequencialismo tem particularidades e elas são muito familiares aos brasileiros. Segundo o consagrado dito popular, há sempre “um jeitinho brasileiro”. Esse jeitinho é consequencialista: conseguir algo que possa até mesmo beneficiar (ou fazer o bem a) alguém, mas de modo ilegal ou danoso. Como é o caso de cuidar de uma comunidade… desde que recompen$ado quando não o deveria. No entanto, o que interessa é a consequência (neste caso, o cuidado), e ela que avalia a ação realizada enquanto boa ou má.

Mais uma vez, estamos diante de um impasse importante para pensarmos nosso cotidiano…

… e nossa relação de si mesmo e com o outro.

Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte III – Piaget e a autonomia)

Piaget autonomiaUma criança vive experiências diversas, como a descoberta do corpo, das sensações, o par prazer/dor, as exigências biológicas, dentre outras tantas. Mas a vivência mais desafiadora – e que se estenderá por toda a vida, sofrendo alterações com os anos e com os encontros que o acaso lhe oferecer – é a relação com o outro. Apesar da vida infantil clamar por expansão e resistir às instituições, leis e regras, ela acaba por vive-las desde seus primeiros dias.

Nem toda regra é moral, como o caso do hábito de se escovar os dentes, o almoço, ou uma lei produzida no seio de uma família ou outra instituição. No entanto, na infância as regras são tomadas a partir de fora, por meio de uma figura de respeito (autoridade por vezes autoritária), e a ligação para com essa pessoa é através de alguns sentimentos como a simpatia, amor e mesmo o temor. Sendo assim, como vimos no texto anterior, o sentimento de obrigação que emerge nas ações (tendo em vista a regra advinda de uma relação unilateral e hierárquica enquanto um dever) oferece o primeiro esboço de uma atitude moral na infância. Piaget nomeou de heteronomia.

Quando há uma atitude moral baseada na cooperação, numa atitude de respeito mútuo – o que envolve a capacidade de se colocar no lugar do outro – em que se participa da própria elaboração (por meio da tomada de decisão, da indagação do bem, etc.) das atitudes morais, estaremos no campo da autonomia. Piaget percebe a gênese desse processo em jovens a partir dos seis/oito anos, em que o outro não é mero legislador, mas que somos parte e responsáveis pelas nossas próprias decisões e nessa mesma perspectiva avaliamos o outro. Há, portanto, um descolamento com relação às obrigações e deveres estranhos ao sujeito.

Neste caso, a justiça pode ser pensada enquanto equitativa, oferecendo uma noção que requer sofisticação no processo decisório e avaliativo, orientando a conduta perante o outro (que nos é sempre um enigma) e até mesmo como critério para determinadas aplicações de sanção (considerando as intenções, por exemplo) ou consequências submetidas à reciprocidade. A moralidade se faz na relação com o outro e não simplesmente na subjugação à lei.

Encontramo-nos num ponto em que há, inclusive, a possibilidade de confrontação entre virtudes morais. Por exemplo: uma questão pode ser considerada ilegal (perante a lei constitucional) mas não causa desonra, pelo contrário, determinadas atitudes e enfrentamentos “fora da lei” podem honrar um sujeito ou torná-lo corajoso. Podemos ser, também, generosos sem o sentimento de obrigação. Outras vezes é possível ser justo, argumentar a favor da legislação ou ser sincero em determinadas situações que acabam por nos tornar verdadeiros canalhas.

Retomando Piaget, a autonomia jamais será pura, bem como a heteronomia jamais será soberana. Ambas se alternam, em movimentos de submissão e de respeito mútuo. Muitos consideram essa uma teoria questionável por apresentar uma ideia de equilíbrio e um ideal, e assim problematizam o valor dos valores, os riscos de uma moralização da vida e mesmo essas atitudes psicológicas apresentadas pelo autor desenvolvimentista. Contemplaremos esses pensadores, que promovem essa ruptura, num próximo texto.

Apesar disso, essa obra psicológica e a filosofia de Kant e Aristóteles já nos oferecem pistas para pensarmos, minimamente, o lugar do outro em nossa existência. Um tipo de justiça fundamentada na igualdade (como condição de humanidade) para cada um de nós e o respeito mútuo; um respeito em que nos submetemos à determinados princípios independentemente das condições ou dos possíveis ganhos e proveitos pessoais; um exercício de nossas potenciais virtuosidades nas condições cotidianas mais desafiadoras; se fazem evidentes e urgentes num momento em que vivemos uma vida coletiva que banaliza o absurdo.

Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte II – Piaget e a heteronomia)

Piaget moralidade heteronomiaNos estudos da moralidade “clássica” encontramos o amoral, o moral e o imoral. O primeiro se refere a falta de condições (temporárias ou não) do sujeito em desenvolver a moralidade, em que a moral não se inscreve (por isso o prefixo a) pois não há, para tal, um suporte simbólico e mesmo fisiológico. Nesse caso encontramos crianças ou algumas pessoas com determinadas doenças degenerativas do sistema nervoso. O sujeito moral, por outro lado, indica justamente a presença da dimensão da moralidade propriamente dita, inspiradora de nossos textos por sua multiplicidade de concepções. Por fim, o imoral é o sujeito que, apesar de lúcido e competente para o exercício da moralidade, é capaz de agir comumente de forma contrária aos preceitos morais, negando-os (prefixo i).

Ao situarmos a criança como amoral, apenas a concebemos assim temporariamente. Afinal, em suas relações com o próprio corpo e seu contato com o mundo e com o outro, acaba vivendo afetos e algumas regras. No entanto, as forças que lhe impõem as leis são externas, e ela acaba se modificando para tal. Por exemplo, ao viver uma aventura com um objeto de grande poder de destruição da limpeza do lar e assim acabar eliminando toda perfeição da casa de seus pais, a criança verá a tristeza de seus amados em forma de furor ou lamentação.

O afeto – essa troca com os pais ou qualquer figura de importância para ela – é fundamental no respeito às regras, neste caso: não sujar ou quebrar determinados objetos da casa é fundamental para a manutenção do amor e do carinho. Assim como as regras necessárias e inevitáveis como a hora e o que comer, o local para gozar de seu sono, o hábito de escovar os dentes, dentre outros tantos destinos que lhes são colocados. São, no entanto, normas sem juízo moral, mas fundamentais para sua gênese pois, em Piaget, o motor precede e alimenta o cognitivo. Sendo assim, podemos afirmar que estimular atividades físicas na criança, como os esportes, pode ser fundamental no desenvolvimento da inteligência e da moral, indispensáveis uma para a outra.

Podemos perceber que há uma condição de emergência da moralidade nisso tudo, uma semente que irá fundamentar as formas de se relacionar. Estamos abordando, neste caso, o que Piaget formulou sobre o juízo moral na infância. Sua constituição se dá no contato (termo que usou de Bovet) com o outro, e a partir disso se inaugura o respeito. Em Kant, contemplado no texto anterior, o respeito é em relação a um constrangimento do amor próprio em função de uma lei. A lei é soberana. Piaget, inspirado em Bovet, muda a referência do respeito, que estaria vinculado a uma autoridade (Deus ou os pais, por exemplo) que comporta a lei, operando a manutenção de um respeito unilateral. Trata-se de uma atitude diante de uma lei (nomia) estranha ao sujeito, que vem de fora, diferente (hetero), que Piaget denominará de heteronomia. O fato de não seguir uma tradição kantiana – apesar de também situar a razão como potência fundamental em seu pensamento –, significa que ele se interessa numa psicologia da moral e não em um legado filosófico.

As brincadeiras infantis possuem regras e elas são vividas como leis exteriores, apesar de muitas vezes serem modificadas ou algumas delas criadas pelos jogadores a partir de um consenso. Ao transpor as regras do jogo para as regras de conduta diante de questões que envolvem (in)justiça, Piaget viu que, das suas centenas de crianças entrevistadas, as mais jovens realizam seus julgamentos de forma correlata ao modo das regras dos jogos: devemos sempre respeitar a lei superior, da autoridade, e quem não o fizer merece a expiação, um castigo aplicado que possa lhe causar uma perda ou dor.

Aliás, será mesmo que não nos conduzimos dessa maneira mesmo quando adultos, ao desejarmos que o outro sofra consequências danosas e entristecedoras, mesmo que elas não possuam relação recíproca ou equitativa com alguma falta cometida?

Afinal, na submissão do outro se dá a prática do confronto, em que há um vencedor e um perdedor, um vivo e um morto, uma ideia soberana e outra sufocada. Em contrapartida, no conflito os sujeitos, as ideias e as práticas coexistem e tentam um compromisso, não tem como condição a morte do outro.

E assim pretendo continuar produzindo os textos, cheios de conflitos e com poucos confrontos. Textos com diferentes linhas de pensamentos, por vezes incomparáveis. Uma geração usando a outra para se criar e emancipar, sem um vencedor como nos jogos ou um final como nos filmes ou romances trágicos.

Mas, retomando Piaget, no próximo texto veremos sua noção de autonomia.

Com todo respeito,

Alexandre V. Brito

Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte I – Aristóteles e Kant)

Virtude moral kant aristótelesÉ muito comum, na história do pensamento humano, a ideia de finalismo. Isso significa que cada coisa tem uma determinada finalidade no mundo, em que cada ser possui uma função a realizar. Opera-se, portanto, a partir de uma atividade específica e bem delimitada para um fim. Encontramos essa ideia em grandes autores como Aristóteles, ao afirmar que temos uma disposição às virtudes e elas deveriam ser, por excelência, um fim. Ou seja, as virtudes que apresentamos deveriam ser tanto descobertas quanto desenvolvidas e aperfeiçoadas, numa integração com os cosmos. Afinal, interligados, todos teríamos um atributo particular a se exercitar na relação com o outro e com o mundo.

As virtudes, em Aristóteles, são colocadas em prova quando encontramos as dificuldades da existência. Seria preciso viver e tomar as decisões cotidianas com prudência e ser cada vez mais sofisticado no aspecto virtuoso, ou seja, dedicados ao enfrentamento dos vícios. Ser virtuoso, portanto, é ser um sujeito “mediano”, justo. Não se trata de mediano no sentido de ser medíocre, quando se prefere a mediocridade do que enfrentar virtuosamente e responsavelmente as dificuldades. Trata-se de ser mediano na relação da virtude com seus extremos, em que os excessos, tanto para mais, quanto para menos, seriam considerados os vícios do ser.

Na coragem, por exemplo, enfrentamos o medo. A coragem seria uma virtude de enfrentamento do medo sem, no entanto, negá-lo. O medroso, em contrapartida, perde antes de enfrentar e o destemido torna-se vulnerável por justamente se considerar invulnerável. Esses dois últimos casos seriam os vícios em questão, os extremos opostos da coragem. Sendo assim, apenas nos apresentamos virtuosos diante da dificuldade dos encontros que a vida produz o tempo todo e a partir da justaposição que ocupamos nestas relações.

Kant, filósofo que também apresenta a ideia de finalismo, produz uma obra sobre a moralidade apresentando a atitude moral como o fim em si mesma. Caso não o seja assim – um compromisso com a dignidade, dever e obrigação – a ação “interesseira” (movida fundamentalmente por amor próprio e não por meio da lei) deixa de ter o caráter moral. Seu pensamento não se ajusta com o de Aristóteles, mas são praticamente os principais pensadores da ética e da moral por esta perspectiva. Kant apresenta uma ideia de universalidade na avaliação de nossas ações, em que seriamos legisladores e legislados por uma máxima que nos conduz a moralidade. Caso uma ação seja apenas um meio para obter determinado resultado, isso não seria moral. Podemos lembrar aqui da ideia de certa forma maquiavélica em que “os fins justificam os meios” (imperativo hipotético). Mas, para Kant, não se age moralmente enquanto meio, pois a ação deve ser um fim em si mesma. Não importa a consequência, mas o ato por ele mesmo.

Os dois autores apresentam uma ideia sobre a arte da convivência que nos faz pensar, concordar e romper com alguns de seus fundamentos. Pressupõem, para a realização de um exercício moral, a liberdade. No entanto, pensar o comportamento a priori ou uma ação por meio da concepção finalista possui suas belezas na mesma medida que oferece grandes riscos. Vale ressaltar, para evitar confusão, que o pensamento kantiano não se trata de um operador que encontramos no senso comum com o seguinte dito: “Não faça o que não gostaria que fizessem contigo”. Isso seria uma falácia no campo moral, pois poderíamos não fazer o bem justificando que não o exigiríamos de outrem. Kant insiste em um campo moral enquanto universal, em que a ação tem por fim ela mesma e não um interesse, neste caso, de agir respeitosamente apenas pelo fato de não ser a vítima de um mal alheio.

Eis, por fim, duas referências na filosofia para pensarmos a moralidade e iniciarmos uma discussão sobre a forma de nos relacionarmos com o mundo, com o outro, consigo, etc. Ambos apresentam uma potência da razão diante das exigências da vida. Um saber racional e/ou finalista é capaz de fundamentar muitas de nossas práticas diárias e arquitetar alguns conhecimentos produzidos nas ciências.

De um lado o exercício e justeza das virtudes (em que a felicidade residiria nisso), e de outro, seriamos legislados e legisladores de nossas ações ao relacioná-las com uma máxima, com uma lei universal, o imperativo categórico: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal”.

Afinal, seria possível criarmos uma medida de avaliação da própria vida? Segundo o que apresentamos, a avaliação se daria ao avaliarmos o longo percurso de nossa história, bem como oferecemos determinado valor a um livro quando concluído.

São tantas as reflexões filosóficas sobre a vida, a convivência e as condutas que vamos continuar com outro autor num próximo texto: Jean Piaget. Neste caso, faremos uma aproximação com o campo da psicologia.

Até a próxima,

e boa prática de vossas virtudes!