Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte I – Aristóteles e Kant)

Virtude moral kant aristótelesÉ muito comum, na história do pensamento humano, a ideia de finalismo. Isso significa que cada coisa tem uma determinada finalidade no mundo, em que cada ser possui uma função a realizar. Opera-se, portanto, a partir de uma atividade específica e bem delimitada para um fim. Encontramos essa ideia em grandes autores como Aristóteles, ao afirmar que temos uma disposição às virtudes e elas deveriam ser, por excelência, um fim. Ou seja, as virtudes que apresentamos deveriam ser tanto descobertas quanto desenvolvidas e aperfeiçoadas, numa integração com os cosmos. Afinal, interligados, todos teríamos um atributo particular a se exercitar na relação com o outro e com o mundo.

As virtudes, em Aristóteles, são colocadas em prova quando encontramos as dificuldades da existência. Seria preciso viver e tomar as decisões cotidianas com prudência e ser cada vez mais sofisticado no aspecto virtuoso, ou seja, dedicados ao enfrentamento dos vícios. Ser virtuoso, portanto, é ser um sujeito “mediano”, justo. Não se trata de mediano no sentido de ser medíocre, quando se prefere a mediocridade do que enfrentar virtuosamente e responsavelmente as dificuldades. Trata-se de ser mediano na relação da virtude com seus extremos, em que os excessos, tanto para mais, quanto para menos, seriam considerados os vícios do ser.

Na coragem, por exemplo, enfrentamos o medo. A coragem seria uma virtude de enfrentamento do medo sem, no entanto, negá-lo. O medroso, em contrapartida, perde antes de enfrentar e o destemido torna-se vulnerável por justamente se considerar invulnerável. Esses dois últimos casos seriam os vícios em questão, os extremos opostos da coragem. Sendo assim, apenas nos apresentamos virtuosos diante da dificuldade dos encontros que a vida produz o tempo todo e a partir da justaposição que ocupamos nestas relações.

Kant, filósofo que também apresenta a ideia de finalismo, produz uma obra sobre a moralidade apresentando a atitude moral como o fim em si mesma. Caso não o seja assim – um compromisso com a dignidade, dever e obrigação – a ação “interesseira” (movida fundamentalmente por amor próprio e não por meio da lei) deixa de ter o caráter moral. Seu pensamento não se ajusta com o de Aristóteles, mas são praticamente os principais pensadores da ética e da moral por esta perspectiva. Kant apresenta uma ideia de universalidade na avaliação de nossas ações, em que seriamos legisladores e legislados por uma máxima que nos conduz a moralidade. Caso uma ação seja apenas um meio para obter determinado resultado, isso não seria moral. Podemos lembrar aqui da ideia de certa forma maquiavélica em que “os fins justificam os meios” (imperativo hipotético). Mas, para Kant, não se age moralmente enquanto meio, pois a ação deve ser um fim em si mesma. Não importa a consequência, mas o ato por ele mesmo.

Os dois autores apresentam uma ideia sobre a arte da convivência que nos faz pensar, concordar e romper com alguns de seus fundamentos. Pressupõem, para a realização de um exercício moral, a liberdade. No entanto, pensar o comportamento a priori ou uma ação por meio da concepção finalista possui suas belezas na mesma medida que oferece grandes riscos. Vale ressaltar, para evitar confusão, que o pensamento kantiano não se trata de um operador que encontramos no senso comum com o seguinte dito: “Não faça o que não gostaria que fizessem contigo”. Isso seria uma falácia no campo moral, pois poderíamos não fazer o bem justificando que não o exigiríamos de outrem. Kant insiste em um campo moral enquanto universal, em que a ação tem por fim ela mesma e não um interesse, neste caso, de agir respeitosamente apenas pelo fato de não ser a vítima de um mal alheio.

Eis, por fim, duas referências na filosofia para pensarmos a moralidade e iniciarmos uma discussão sobre a forma de nos relacionarmos com o mundo, com o outro, consigo, etc. Ambos apresentam uma potência da razão diante das exigências da vida. Um saber racional e/ou finalista é capaz de fundamentar muitas de nossas práticas diárias e arquitetar alguns conhecimentos produzidos nas ciências.

De um lado o exercício e justeza das virtudes (em que a felicidade residiria nisso), e de outro, seriamos legislados e legisladores de nossas ações ao relacioná-las com uma máxima, com uma lei universal, o imperativo categórico: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal”.

Afinal, seria possível criarmos uma medida de avaliação da própria vida? Segundo o que apresentamos, a avaliação se daria ao avaliarmos o longo percurso de nossa história, bem como oferecemos determinado valor a um livro quando concluído.

São tantas as reflexões filosóficas sobre a vida, a convivência e as condutas que vamos continuar com outro autor num próximo texto: Jean Piaget. Neste caso, faremos uma aproximação com o campo da psicologia.

Até a próxima,

e boa prática de vossas virtudes!

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