Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte III – Piaget e a autonomia)

Piaget autonomiaUma criança vive experiências diversas, como a descoberta do corpo, das sensações, o par prazer/dor, as exigências biológicas, dentre outras tantas. Mas a vivência mais desafiadora – e que se estenderá por toda a vida, sofrendo alterações com os anos e com os encontros que o acaso lhe oferecer – é a relação com o outro. Apesar da vida infantil clamar por expansão e resistir às instituições, leis e regras, ela acaba por vive-las desde seus primeiros dias.

Nem toda regra é moral, como o caso do hábito de se escovar os dentes, o almoço, ou uma lei produzida no seio de uma família ou outra instituição. No entanto, na infância as regras são tomadas a partir de fora, por meio de uma figura de respeito (autoridade por vezes autoritária), e a ligação para com essa pessoa é através de alguns sentimentos como a simpatia, amor e mesmo o temor. Sendo assim, como vimos no texto anterior, o sentimento de obrigação que emerge nas ações (tendo em vista a regra advinda de uma relação unilateral e hierárquica enquanto um dever) oferece o primeiro esboço de uma atitude moral na infância. Piaget nomeou de heteronomia.

Quando há uma atitude moral baseada na cooperação, numa atitude de respeito mútuo – o que envolve a capacidade de se colocar no lugar do outro – em que se participa da própria elaboração (por meio da tomada de decisão, da indagação do bem, etc.) das atitudes morais, estaremos no campo da autonomia. Piaget percebe a gênese desse processo em jovens a partir dos seis/oito anos, em que o outro não é mero legislador, mas que somos parte e responsáveis pelas nossas próprias decisões e nessa mesma perspectiva avaliamos o outro. Há, portanto, um descolamento com relação às obrigações e deveres estranhos ao sujeito.

Neste caso, a justiça pode ser pensada enquanto equitativa, oferecendo uma noção que requer sofisticação no processo decisório e avaliativo, orientando a conduta perante o outro (que nos é sempre um enigma) e até mesmo como critério para determinadas aplicações de sanção (considerando as intenções, por exemplo) ou consequências submetidas à reciprocidade. A moralidade se faz na relação com o outro e não simplesmente na subjugação à lei.

Encontramo-nos num ponto em que há, inclusive, a possibilidade de confrontação entre virtudes morais. Por exemplo: uma questão pode ser considerada ilegal (perante a lei constitucional) mas não causa desonra, pelo contrário, determinadas atitudes e enfrentamentos “fora da lei” podem honrar um sujeito ou torná-lo corajoso. Podemos ser, também, generosos sem o sentimento de obrigação. Outras vezes é possível ser justo, argumentar a favor da legislação ou ser sincero em determinadas situações que acabam por nos tornar verdadeiros canalhas.

Retomando Piaget, a autonomia jamais será pura, bem como a heteronomia jamais será soberana. Ambas se alternam, em movimentos de submissão e de respeito mútuo. Muitos consideram essa uma teoria questionável por apresentar uma ideia de equilíbrio e um ideal, e assim problematizam o valor dos valores, os riscos de uma moralização da vida e mesmo essas atitudes psicológicas apresentadas pelo autor desenvolvimentista. Contemplaremos esses pensadores, que promovem essa ruptura, num próximo texto.

Apesar disso, essa obra psicológica e a filosofia de Kant e Aristóteles já nos oferecem pistas para pensarmos, minimamente, o lugar do outro em nossa existência. Um tipo de justiça fundamentada na igualdade (como condição de humanidade) para cada um de nós e o respeito mútuo; um respeito em que nos submetemos à determinados princípios independentemente das condições ou dos possíveis ganhos e proveitos pessoais; um exercício de nossas potenciais virtuosidades nas condições cotidianas mais desafiadoras; se fazem evidentes e urgentes num momento em que vivemos uma vida coletiva que banaliza o absurdo.

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