Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte V – A fé, a esperança e o amor ágape)

virtudes cristas fe amor esperançaO ser humano não possui um só caminho a trilhar. E nisso reside sua liberdade bem como seu desejo de escravidão. Liberdade não é poder voar, mas poder dizer não. Liberdade é afirmar a vida com os pés no chão. O simples fato de se tomar uma decisão pode ser o testemunho de uma certa liberdade que encontramos na linguagem, nas práticas de nossa linhagem. Somos, assim, seres de angústia, pois ser livre e ter o poder da escolha oferece-nos tanto o engrandecimento quanto o padecimento com o risco do apodrecimento.

E assim criamos modos de pensar diversos, princípios e práticas das mais variadas naturezas. Algumas cruéis e outras, em relação à vida, cheias de belezas. Uma delas é arquitetada pelo homem em relação ao divino, como uma orientação à conduta humana. Em contradição com Aristóteles, a moral cristã pauta-se na conduta e em seu alinhamento com a vontade de Deus, e não em nossa obra como um todo, numa justaposição com os cosmos para o exercício da vida boa. Para o grego, felicidade e ética possuem relação necessária e direta, o que não percebemos na ética cristã, em que é possível ser ético sem felicidade e, inclusive, com uma vida regada de sofrimentos. E, justamente assim, o cristão avalia seus momentos.

Ou seja, o grego se interessava apenas se a vida foi boa, na prática das virtudes e no desenvolvimento das potencialidades. No entanto, a indagação sobre a vida sofre metamorfoses com o cristão e se transforma em: “agistes bem?”.  Sendo assim, quais os critérios para o cristão responder a essa questão fundamental diante da vida, diante do outro? Encontramos, para tal, três virtudes essenciais: esperança, fé e amor. Encerro, aqui, a comparação entre o grego e o cristão para seguirmos com as virtudes em questão.

A esperança já possui um texto exclusivo neste blog, basta clicar aqui. Em resumo, a esperança é uma forma de se alegrar com o que não se tem, e possui lugar na moral cristã por não ser fonte de certezas, mas um modo de suportar as dores da vida mesmo sem garantias. Nela se alegra na espera, no possível (mesmo que improvável). No entanto, a esperança inclui certa tristeza oriunda do medo. Afinal, ela é ignorante pois não sabemos se de fato o que se espera vai acontecer. E nisso podemos padecer. Também é impotente pois, tendo em vista sua necessidade, não temos potência pra fazer acontecer. E, assim, se espera. Por fim, é casta pois se há esperança, não há gozo, pois há falta e não presença. Há apenas a carência. Ou seja, a esperança é um afeto alegre, um ganho de potência (com seus riscos) que possui como causa a imaginação.

A fé, como virtude, é o oposto da esperança, pois é uma certeza independente de uma experimentação empírica. Um conhecimento que não advém da ciência, um saber sem comprovação. A fé apresenta verdades sem métodos científicos, em que orientariam as condutas do ser humano em respeito a Deus.

A terceira e mais importante das virtudes é o amor. Já escrevi, com muito amor, três textos dedicados aos amores em geral (clique aqui), mas estamos diante de uma forma de amor específico, conhecido como ágape. E como falar de amor é sempre belo, deixemos as palavras nos encantar mais uma vez.

O amor ágape é o amor em que o outro é tão importante quanto eu, em que o outro não é um estranho, mas aquele que junto há sempre um ganho. Nesse encontro, se necessário, o “eu” não mede esforços em se apequenar para que o outro possa falar, agir e também amar, mesmo que ame algo estranho a mim mesmo. Um amor que me faz recuar para que o outro possa avançar. Um amor desinteressado, alicerçado na caridade. Amor pela humanidade. É o amor de Deus, aquele que recua para que o outro possa existir. Fundamental para o cristão pois, no paraíso, não seria preciso nem de fé ou de esperança, onde apenas o amor irá sobreviver. O mesmo que nos ajuda a viver!

Por fim, há que se pensar: nos conduzimos da forma como temos feito por esperança de termos alguma vantagem ou por medo dos castigos? O céu seria tão importante quanto o inferno? Neste caso, ainda estamos no campo do utilitarismo, agindo apenas pelas consequências, em que viveríamos de forma superficial e preocupados apenas com as aparências.

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