Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte VI – Espinosa e Nietzsche)

Spinoza NietzscheDiante de tantas referências quanto à ética e moralidade, apresentadas nos textos anteriores, pudemos perceber que a questão fundamental “Qual vida vale a pena ser vivida?” pode ser respondida por diversos modos. Seja visando uma felicidade que esteja aliada à moralidade (Aristóteles) ou mesmo independente desta – em que ser bom pode significar padecer (teológica). Sendo assim, os diferentes exercícios da arte da convivência incluem valores distintos. No entanto, se não partirmos de um a priori das virtudes e dos valores, ou de que somos edificados por meio delas, estaríamos realizando uma ruptura com a tradição do pensamento que eleva os valores a uma altura, por vezes, maiores que a própria vida, em que os valores alcançariam um mundo fora do mundo, uma vida fora da vida, uma existência fora da existência. Neste caso, destacamos dois artistas responsáveis por essa obra crítica: Espinosa e, em seguida, Nietzsche.

A pergunta que poderíamos partir como princípio para esta perspectiva que rompe com a tradição moral seria “Qual o valor do valor?”. Espinosa percebe que o homem, em sua finitude e diante do sofrimento inerente à sua natureza, ergue construções imaginárias para responder às impressões e perturbações que vive, temporalmente, ao longo da vida. Sendo assim, sem saber conhecer adequadamente a si mesmo e, consequentemente permanecer ignorante sobre o mundo e a vida, as pessoas terminariam por viver uma vida marcada pela servidão afetiva, seja por medo e esperança, e pela necessidade da fé. Além disso, sem conhecer a causa das coisas, permaneceriam apenas nas ilusões dos efeitos. A ação, em Espinosa, não tem a referência kantiana (até mesmo porque Kant vem ao mundo apenas posteriormente), nem mesmo cartesiana, aristotélica ou religiosa. Por curiosidade, após sua morte, sua obra “Ética” ficou entre os livros proibidos pela igreja e, ainda em vida, foi excomungado da comunidade judaica.

O pensamento de Espinosa resistiu a todas as violências de sua época, persistindo até os dias atuais de forma marginal. O que ele tanto enfatizava era que somos finitos, mas podemos ser criadores e não apenas criaturas. A referência inicial de cada um de nós seria o corpo. No entanto, simplesmente a partir dele estaríamos fadados às variações dos afetos, levando-nos da alegria à tristeza (e vice-versa) em grande velocidade, comprometendo nossa percepção da vida e de nossa finitude, fundamentais para uma proposta ética. A mente, paralela ao corpo, tem a potência da razão para encontrar o conhecimento do criador e de suas criações sem o equivoco das paixões, mas sem negar o corpo. O corpo é fonte de tudo, mas nesta perspectiva deve ser superado sem ser, jamais, negado. Pelo contrário, afirma que sem corpo não há mente, em que se elavam e padecem juntos, na mesma medida.

A beatitude, a energia vital (conatus) seria alcançada adequadamente, portanto, num exercício da razão, em que o ser humano é criatura em relação – pois diminui e aumenta sua energia vital constantemente – mas que tem a capacidade de alcançar uma potência em si mesmo quando busca esgotar sua razão para conhecer a si. Assim, ter como postura ética a si mesmo em seu saber sobre a vida, o homem deixa de ser submetido simplesmente ao mundo exterior a ele e que o constrange o tempo todo e passa ao mundo interior, tornando-se seu próprio criador. Um criador sem transcender, uma atividade que não recorre a uma entidade fora de si, da vida ou do mundo, mas numa relação consigo mesmo buscando, no outro, a mesma potência. As referências também se encontram nos afetos, da vergonha à alegria, pautadas na vida mundana.

O homem superaria sua tradição, superaria o próprio homem, como diria Nietzsche. O corpo não padece a mente, mas a engrandece. A mente também seria capaz de elevar a potência do corpo simplesmente com uma referência nela mesma, libertando-se. Ao ler Espinosa, Nietzsche encontra um antecessor. Ele buscava martelar os valores, minar as referências para a vida que eram encontradas fora da vida. Ambos encontravam a referência para o homem no próprio homem. A essência humana em Espinoza era o desejo (ideia retomada por Lacan, na psicanálise) e a ética nietzschiana era ancorada justamente nisso: desejar viver de maneira que sua ação seja repetida eternamente? Este eterno retorno é um exercício que requer muita responsabilidade. Neste caso, eternidade é uma referência mundana e trágica para se avaliar a vida, e não uma eternidade do espírito que se descolaria do corpo. Eternidade no sentido da repetição, e de que o tempo é nosso principal inimigo e, na mesma medida, aliado. Combate, assim, os que combatem a vida negando-a como ela é, e os que definem uma referência fora da vida com características imutáveis e a-históricas, como é o caso dos ideais, dos valores, máximas e mandamentos.

Pensar nossas ações por meio desta perspectiva provoca, necessariamente, uma transformação. Ter a vida e a si mesmo como referência ética é um desafio assustador e transformador, pois se sustenta sem a necessidade de ser recorrer ao imortal ou ao pensamento moral, e afirma que os desejos, as dores e os amores são positividades que se repetirão eternamente em nós, até que a morte nos separe.

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