Um passeio nos campos da ética e da moral (Parte Final – Freud e a Psicanálise)

forrest gump ética psicanáliseO pensamento moral na história da filosofia e da teologia possui a razão como fundamental para o exercício da ética na relação com o outro e na produção de si. A força da razão é a chave mestra para exercer a justiça, as virtudes e a sofisticação da vida coletiva e individual. Apenas por meio dela alcançaríamos a felicidade, a beatitude, o bem comum ou a salvação – dependendo da perspectiva adotada para avaliar a vida a ser vivida.

Sendo assim, a política e a ética estariam em consonância com os atributos da razão e deveriam ser regidos por sua influência, mesmo que as diversas teorias não concordem entre si nas relações que a razão produz com corpo e com o saber. No entanto, alguns filósofos apontam que ela é insuficiente para ser incluída na milenar discussão moral ao afirmarem que a razão diz respeito ao conhecimento e não aos dilemas do homem frente ao conflito com o outro.

Seria necessário, portanto, pensar em outra força capaz de orientar o ser humano em sua jornada terrestre justamente por não estar imune ao acaso dos encontros. Seja com uma palavra, um som, um afeto, uma coletividade, há que se pensar uma intensidade que ultrapasse a razão e seja capaz de romper com a tradição racional moralizante. Trata-se de uma intensidade considerando que, antes de mais nada, ela é informe e sem modelo, sem uma estrutura básica e elementar, mas pura possibilidade. Ou seja, um pensamento que pensa sem consentimento de uma instância racional, sem solicitar permissão para uma consciência, sem precisar de alvará para se fazer livre: eis o inconsciente freudiano.

Apesar de Freud ter sucessores generosos ou rigorosos com sua invenção, como Lacan e Deleuze, sua originalidade não se perde frente aos belíssimos acréscimos de seus geniais comentadores. Freud, portanto, não usa a razão para oferecer uma nova perspectiva ética, mas apresenta uma nova concepção do ser e assim operando consequências irreparáveis para o pensamento filosófico, psicológico e médico. Ou seja, a razão para Sigmund Freud pode ser antes de mais nada um empecilho para a criação, uma forma de ignorância diante de uma verdade ou para se deslocar (de um grau de maior para menor importância) os grandes problemas da humanidade. A razão é deslocada do centro essencial da vida para um aspecto fundamental de apenas alguns processos sociais e psicológicos. Qual seria, portanto, a ética na psicanálise?

Freud e Lacan tomam emprestado uma ideia encontrada, de forma similar, em Nietzsche e Espinoza, em que o essencial da vida humana (o que nos distingue dos outros animais) é o desejo. Apesar de Nietzsche também perceber que há algo de estranho – e digo estranho em relação à lógica racional – em nós e que nos habita involuntariamente, Freud situa este estranho como algo de nossa responsabilidade e que ultrapassa as capacidades limitadas da consciência. Afinal, a consciência pode dar atenção apenas à poucas percepções simultâneas. A originalidade freudiana reside na afirmação de um desejo inconsciente: eis a ruptura com todo pensamento antecessor e toda a estrutura que o limitava. A razão tornou-se insuficiente para tratar de nossos padecimentos.

A ética reside em manter uma relação honesta com a tensão entre o que se quer e o que se deseja, entre o gozar e simbolizar, entre-ter e ser, entre ser consumido e consumir, unir  e dissociar, entre o saber e a verdade de si. Vale lembrar que a tragédia reside na impossibilidade de haver garantias de um meio termo ou de regularidades. Sendo assim, a psicanálise não admite uma dualidade (corpo e mente, dentro e fora, imanente e transcendente, céu e terra, etc.) para se pensar o sujeito, mas concebido a partir de uma cópula entre afetos e palavras – evitando o risco de reduzi-los a sentimentos (sente e mente) ou operações lógicas e gramaticais. A relação com o desejo é inaugura-dor.

Por fim, ressalto que o inconsciente não seria um lugar obscuro como um depósito, mas está mais próximo de uma memória viva e potencialmente acesa. Não seria um risco para nossa integridade, felicidade ou para nossa saúde, como se fosse uma zona de perigo a ser evitada, mas é justamente encarando seus horrores e seus amores de frente que é possível viver uma vida a favor da própria saúde e do cuidado ao outro. Não é moralidade, mas intensidade: é ética. O inconsciente funciona mesmo quando dormimos, pois estamos e nos encontramos em nossos sonhos…

…mais do que poderíamos supor…

…por vezes, aparecemos mais em nossos sonhos do que os esforços que fazemos para nos manter apagados quando estamos despertos ao longo do dia.

Aliás, não estamos em nossos sonhos…

Somos!