Por uma vida que não seja resíduo (Considerações sobre a tragédia de Mariana em MG)

dinheiro sujo SamarcoO dia 05 de novembro foi testemunha de um verdadeiro progresso – sem ordem – em solo brasileiro. Um avanço letal que moveu massas, vidas e histórias. Assistimos uma verdadeira avalanche de ganância e desrespeito acontecendo nas terras tupiniquins, e que acabou por cobrir toda decência e amor que poderia haver em seu caminho. Podemos no ocupar no antes e depois do rompimento da ética, mas é necessário, antes de mais nada, precisarmos se ela realmente era presente. Para isso, vamos pensar em valores, pois isso pode significar muito na hora de avaliarmos a vida e entendermos alguns dos cálculos fatais que são realizados em níveis institucionais.

Vamos calcular a vida em termos cifráveis, ou seja, vamos pressupor de que uma vida tem algum – ou nenhum – valor. Para isso, é preciso uma referência que vai no oferecer uma justa medida para tal avaliação. Vale ressaltar o seguinte: este modo de cálculo é a base de um mercado com fins lucrativos. O referencial que nos serviremos, portanto, é o dinheiro ou tudo que pode ser convertido nele.

Quanto vale um litro de água? Quanto vale uma casa nova? Quanto vale seu livro favorito? Quanto pagaria para trazer alguém de volta para perto de ti? Quanto pagaria para ser o que sempre sonhou ser? Dentre tantas perguntas, vamos percebendo que aos poucos nos aproximamos do nosso próprio valor, o que nos deixa numa perigosa situação: qual nosso preço? Um risco que todos podemos correr e, quando menos perceber, se corromper.

A Samarco lucrou 2,8 bilhões de reais ao fim de 2014, um valor que compraria a mãe de muita gente. E, de fato, seduziu e levou a alma de algumas pessoas. Levou, mas não lavou! Ou seja, neste cálculo nós podemos mensurar a vida em termos cifráveis, onde uma anula a outra. Deixar o barro escorrer seria melhor do que pensar em termos de comunidade? Um investimento em segurança e no caráter do ser humano seria mais caro e trabalhoso do que bancar uma multa de aproximadamente um bilhão (o que, de fato, manteria a empresa no lucro) cobrada pelos próprios beneficiários da Samarco? Sem contar com as cobranças abusivas na venda de água  em terras afetadas pela tragédia ambiental.

O que é fundamental serve para manutenção do que é essencial. O que é importante serve para nos guiar para que possamos ser lembrados pelo que somos. Parece que algo como o dinheiro, que seria apenas o meio do caminho, tornou-se o essencial no lugar de ser apenas fundamental. Mas além do dinheiro há outros fatores envolvidos, como é o caso da tirania de um poder sem justiça. Seria o poder de destruir? De ter a decisão sobre a vida alheia em vossas mãos?

O mercado cifra a vida em termos de lucro, mas a responsabilidade não está no mercado. O capitalismo cifra os corpos, mas a responsabilidade não está no capitalismo. Precisamos mudar de cifra e avaliar a vida que vale a pena ser vivida a partir de outro lugar. De um lugar em que possamos conviver sem a necessidade de se matar. Onde a liberdade de um significa a liberdade do outro.

A responsabilidade está em nós mesmos e em todo lugar, desde a problematização de pequenos comentários preconceituosos que passam despercebidos em nossa linguagem cotidiana, ao estranhamento de avalanches absurdas que acabam cobrindo a vida com uma lama envenenada de ódio, vingança e ganância. Além disso é preciso cautela pra não deixarmos de prestar atenção na inversão alguns valores, como no caso da acusação de crime ambiental para os que jogam a “lama no ventilador”. Corrupção é uma subversão que faz com que o mais fraco seja apresentado enquanto protagonista das violências sociais pela qual é submetido.

Qual preço que pagamos? Com quais forças que lutamos? A ética é, em suas diversas formas, clamada desde a antiguidade para que as forças justas possam triunfar sempre que emerjam as forças tirânicas, num embate eterno. Seja mudando as formas do bem ou do mal, do certo e do errado, do agressor e do agredido, vale ressaltar um importante alerta de Pascal: “A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica”.

Desejo a todos uma vida que não seja tratada como resíduo.

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