Pela afirmação de uma vida inútil

morte ou liberdadeLogo em nossos primeiros anos de vida temos lições tão importantes quanto arriscadas que são transmitidas pelos pais ou que a própria vida se encarrega de providenciar. Aprendemos a renunciar, por inúmeras vezes, de nós mesmos. E, assim, aprendemos que na maioria das vezes o que importa não é o que se faz, mas o que se deixou de fazer. O importante não é o movimento, mas a estabilidade. Muita gente já atingiu a glorificação a partir de seus sacrifícios. Além disso, uma educação em séries e em disciplinas que insistem em não copular uma com as outras acabam por protagonizar o assassinato de milhares de neurônios infantis, pois os neurônios são amantes de conexão e não de segregação.

A vida acaba sendo vivida em função de uma renúncia, de um enquadramento, em ajustamentos que não permitem espaço pra novos pensamentos. Quando não há a singularidade do desejo, nos angustiamos diante da inquietação de qual a vida que vale a pena ser vivida, pois vivemos numa civilização do passo-a-passo, do transcendente, da rotina e do sufocamento de uma vida que acaba implorando por novos fôlegos.

Aliás, precisamos de novos fôlegos com urgência, pois na maioria das emergências recorremos ao outro. Muitas vezes o outro nos é suficiente, pois apenas nos identificamos e nos unimos a ele na tragédia cotidiana. Porém, é preciso dar um passo para além da lamentação e do fracasso que geralmente atribuímos às forças que vêm de fora e nos constrangem no dia-a-dia. Uma vida que se mantém na espera é casta e a vida na escravidão pode ser até mesmo cômoda. No entanto, sair do cômodo não é fácil, nossa sociedade oferece  inúmeras formulas para se viver a vida a partir de referências que surgem para além de nós mesmos e, assim, entregamos parte do controle de nossas ações ao outro que não nos reconhece. Crescer dói, pois é assumir a responsabilidade de si para consigo. É saber ser solitário, o que não significa se isolar das pessoas ou não poder contar com elas. É um esforço para que o dizer seja dito e ser independente da comparação e da expectativa do outro.

O passo-a-passo linear da vida é oferecido desde a infância, onde há uma chacina neuronal e cognitiva, pois tudo se dá em função do que não é, mas do que pode vir a ser um dia, de uma promessa ou de uma esperança que por vezes é ameaçadora. A creche prepara para o ensino fundamental, o fundamental para o médio, o médio para a faculdade, a faculdade para o mercado, o mercado para a aposentadoria, a aposentadoria para a morte. Ou seja, não se vive em função do que se é, mas por uma finalidade: a morte. O mesmo ocorre com o corredor que não corre pela corrida, mas corre pela saúde ao se preocupar com seu futuro, corre em função de algo fora da corrida. Há o estudante que estuda para algo fora do estudo. E o sujeito que não lê pela leitura, mas para algo fora da leitura, perdendo a oportunidade de se afetar com as letras do livro. Enfim, fim! Vivemos para os fins, e isso os dias da semana são testemunhas, em que esperamos o fim do dia, da semana, do mês, do ano, …, da vida! Tragicamente, também aprendemos a amar o que está fora. Fora do trabalho (ah, as férias!), fora da semana (ah, o final de semana!), fora da lei (ah, o jeitinho!), fora da vida (ah, o paraíso!), etc.

Por fim, precisamos inventar novos fôlegos, pois entregamos a vida na mão alheia e terceirizamos muito de nossas responsabilidades aos médicos, nutricionistas, professores, gestores, e isso pode ser muito arriscado. Por vezes, um suicídio! Terceirizamos a educação das crianças, a saúde, e colocamos a vida na mão de diversas autoridades estranhas à nossa história. Cientistas são, de fato, fundamentais… mas não é disso que se trata!

Não se trata de ignorar o conhecimento, mas ser autor da própria vida realizando conexões que só um pensamento é capaz. Pensar é não aceitar as fórmulas e manuais de existência como inquestionáveis, mesmo quando viáveis. Pensar é sentir dor e assim se afetar, causando algum movimento inédito. As causas do pensamento são inúmeras, e quem sabe esse texto não seja um ingrediente ou uma matéria-prima que nos desloque e que possa provocá-lo. É preciso correr pela corrida, trabalhar pelo trabalho, beber pela bebida, o ócio pelo direito ao ócio, amar pelo amor, ler pela aventura da leitura em si. Isso não torna essas ações sem histórias ou que sejamos menos responsáveis por elas. Mas traz novos fôlegos em uma vida que vive por ela mesma, que afirma e valoriza o inútil, e não pelo que há de estranho a nós mesmos ou de uma adaptação corrosiva. O valor da utilidade é transformada ao viver o amor sem uma finalidade, trabalhar sem as esperanças da vaidade, agir apenas em função de uma virtualidade. É saber ser tão importante quanto dispensável. É afirmar uma vida que saiba combater as forças constrangedoras, os ideais transcendentais, estranhar o valor de determinados valores e se incomodar  com uma vida que lhe torne útil…

…como um parafuso.

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