Afinal, o que é o poder?

bussolaA história dos Direitos Humanos surge como um combate ao exercício de um poder que geralmente se localizava em uma figura bem definida e com permissão para matar. Esta figura apresentava uma forma de aparência visível, e era o centro de uma determinada força que atuava sobre os corpos. Não apenas o corpo enquanto compreendido pela biologia, mas o corpo econômico, social e político, jurídico e legislador, espiritual e religioso, etc.

As práticas eram fundamentadas com referência ao desejo de “um”, e por consequência dessa estrutura – que buscava dominar e determinar as forças entre os homens a partir de uma orientação vertical – todas as coisas (ou grande parte delas) versavam para esse “um”. Versar para o “um” é, justamente, a origem e o sentido da palavra universal, ou seja, trata-se de uma referência pontual, assim como podemos perceber na função dos pontos cardeais em que há uma localização para o destino, como uma imagem “modelo” (geralmente transcendental) que acaba por guiar nossas identificações como se fosse uma “bússola subjetiva”.

Uma guerra travada contra esse modo de composição e distribuição das forças de dominação e de submissão são um passo para uma nova gestão do desejo. O que era “um”, teve de incluir os “uns” e “outros”, numa presença afirmativa da diferença e não da predominância da identificação universal que tinha como consequência a produção de uma massa uniforme. Com o advento da democracia contemporânea (que não pode se identificar com a democracia da antiguidade) o poder acabou por se aproximar de sua característica mais essencial, ou seja, desnaturalizou-se de sua forma assumida enquanto centralizado em uma figura que o operava de modo unilateral.

Sendo assim, o poder se liberta e entra em fluxo e, em compromisso com o tempo, acaba por ironizar aqueles que têm certeza de sua posse, virando o jogo quando menos se espera. É o revezamento entre as forças ativas e passivas, ação e submissão. E essa é uma fonte eterna de alegria para a humanidade, pois nada mais importante do que a transitoriedade das coisas. E com o poder, constrangedor ou vital, as coisas não são muito diferentes.

Assim, encontramos várias espécies de exercício do poder e, com o advento das leis no nível dos direitos humanos, muito do que era legítimo tornou-se violação, que era legal tornou-se ilegal, o que era gozo do “um” tornou-se proibição, e assim uma série de práticas se transformaram e foram se transformando. Das espécies podemos citar o poder de “um”, de poucos ou do povo. As imagens geralmente estão na figura de um rei, presidente ou de um senhor diante de seu escravo. No entanto, a partir da desmistificação do poder podemos desloca-lo para todas as experiências humanas, e assim encontramos sua liberdade.

O poder e sua capacidade de produção de novos arranjos ou da fixação de formas é descolado das figuras de autoridades e importado para as relações amorosas, sexuais, de trabalho, educativas, e mesmo para o cuidado de si.

Por fim ressaltamos que há uma condição indispensável para que o poder possa existir com todas as suas atribuições: a liberdade! Sem liberdade não há um exercício do poder. Essa tal liberdade é justamente a capacidade de pensar diferente, de virar 180º, de gerir a própria vida e, por fim, de optar pela escravidão.