Três tipos de ciúmes (competitivo, projetivo e delirante)

ciumesNas relações de amizade, ou entre pais e filhos, parceiros amorosos ou entre pessoas e coisas há uma força que as une de forma a sustentar os vínculos. Seja por meio do amor, do prazer ou da necessidade, tais ligações podem testemunhar o tamanho de sua importância justamente com o risco da perda de um dos parceiros ou da distância entre eles. Neste caso, não se trata da saudade, mas de algo que está para além da falta: o ciúme.

Afinal, pode haver ciúme na presença e para abordar tal questão de forma esquemática vou tratar de três tipos de ciúmes, seguindo os caminhos freudianos. Nesta trilha, o ciúme é uma expressão de nossa constituição e forma de interpretação do mundo a partir do modo como nos relacionamos com o outro, esse “outro” enquanto fonte de afetos e inesgotáveis dúvidas e certezas cotidianas, num laço de amor e ódio oscilantes. Afinal, ciúmes vem do latim zelus que significa zelo, ardor. Ar… dor!

O primeiro seria o ciúme mais comum, relativo ao medo da perda. Diante dos pares que o sujeito se submete ao longo de sua história, sustentar uma relação duradoura é tão importante quanto saber quem ele é, sua própria identidade. Mas não se trata de perder para a morte – isso seria luto – mas perder para um outro qualquer. Ou seja, ser menos desejado é insuportável ao sujeito. Este embate faz com que este primeiro ciúme seja denominado de competitivo e envolve uma ferida narcísica no ciumento.

O segundo tipo seria o projetivo em que, assim como uma máquina que projeta imagens internas em uma superfície externa e plana, o sujeito desloca seus pensamentos para o outro como se este fosse sua superfície externa e assim inverte a responsabilidade pelo impulso de infidelidade que se encontra, na realidade, no próprio ciumento. Vê no outro aquilo que deveria ver em si.

O terceiro seria o ciúme delirante. Ele surge a partir de uma estrutura paranoica do pensamento, envolvendo a transformação de uma ideia em outra sem a mediação de um juízo de realidade. É marcado pela certeza, pela convicção, mesmo sem haver nada que o ateste, mesmo sem nenhuma possibilidade de infidelidade. As provas de que não é traído nunca são suficientes. Vive em função do outro e é atormentado pelo seu ciúme.

Vale ressaltar que raramente se vive uma vida sem ciúmes, sem medo da perda, sem feridas narcísicas, sem esse olhar torto lançado ao outro. Aliás, a inveja (invidia, em latim) é prima do ciúme e quase sempre companheiro dele e significa justamente isso em latim, ou seja, seria lançar esse mau-olhado sobre o outro. Por um lado, viver uma vida de puro ciúmes e inveja é ingerir uma dose muito venenosa para uma vida compartilhada, um aprisionamento fatal de si e do outro. Por outro, uma leve dose de ciúmes é saudável e mesmo necessária para algumas pessoas se sentirem amadas e amar.

*Para aprofundar o tema, o leitor pode recorrer ao texto de Sigmund Freud “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo” e outras tantas fontes sobre o tema encontradas no Google.

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